Uma fatia de bolo

13 jan

Às vezes fico pensando como deve ser difícil para as pessoas famosas abrir mão desse bem supremo que é o direito à privacidade. Mas acho que mais grave, no caso delas, é ter a sua personalidade atrelada a um tipo de atividade, como se isso definisse o seu ser por inteiro.

Eu nem sequer sou famoso e, no entanto, me incomoda um pouco a forma como certas pessoas me abordam com perguntas do tipo: “E aí, como vai o cinema?”

Nunca sei o que responder e sempre gaguejo umas sílabas sem sentido, que só demonstram o meu desconforto, desconforto este que, naturalmente, o meu interlocutor nem sonha em notar.

Sim, eu sei que o meu súbito e acidental interlocutor está apenas querendo fazer contato e sinalizar que está familiarizado com o que escrevo sobre a sétima arte.

Mas, de todo jeito, a pergunta é incômoda. Como vai o cinema??? Nesses momentos, sinto sobre mim um peso enorme, como se a cinematografia mundial, com toda a sua monstruosa parafernália, estivesse posta sobre os meus frágeis ombros de magrelo.

Normalmente, a primeira reação que me ocorre é lembrar, de mim para mim, que nunca sei quais são os filmes que estão em cartaz no momento e, pior, que nem me interesso por eles. Mal sei quem ganhou o último Oscar, ou quantos milhões de dólares foram investidos na divulgação do mais recente Harry Porter. E fico imaginando a decepção do meu interlocutor, se lhe dissesse a verdade.

A verdade é que, embora apenas trissilábica, cinema é uma palavra enorme, que, aliás, nunca tive a pretensão de abarcar por inteiro.

Para usar um termo da gastronomia (aliás, outro assunto que me interessa, além do cinematográfico…), acho que posso dizer que o cinema é um absurdamente incomensurável bolo, do qual – como todo mundo de bom senso faz – escolhi apenas uma fatia. E só a perspectiva de deglutir o bolo inteiro me provoca indigestão…

Poderia aqui demarcar a minha fatia do bolo cinematográfico, mas, não vou fazer isso. Em parte porque, quem conhece os meus escritos, conhece o meu paladar. Prefiro, assim, indicá-la com detalhes, no caso, sugerindo reformulações para a pergunta que me é sempre feita.

Sim, seria legal se o meu súbito e acidental interlocutor, ao invés de impor ao meu limitado estômago prato tão pantagruélico, me abordasse com coisinhas gostosas e leves do tipo:

“Saudades de ´nossa querida Clementina´?” Ou então: “Coitadinho do Gary Cooper na hora do trem chegar, hein”? Ou mesmo: “Se fosse para escolher, quem seria a mais amada: Gilda, Laura, Sabrina, Cabíria ou Irma?” Ou ainda: “Será que o homem que matou o facínora sabia demais?” Outras alternativas: “Alguma ideia sobre quem seria a Norma Desmond do cinema falado?” “Ainda com medo de Hitchcock?” “Desencanto” continua encantando?” Roubar mulheres alheias não é anti-ético, mesmo que sejam ´sete noivas para sete irmãos´? Ou: “Me disseram que você é doido por um ´picnic´?”

A perguntas deste porte eu reagiria de bom grado. À ultima por exemplo, eu acrescentaria de chofre que só se fosse com Kim Novak, dançando para mim às margens do rio.

Aí, sim, com extrema naturalidade e grande alegria, passaria a falar de cinema com meu novo interlocutor, e, quem sabe, talvez até o convidasse a interromper as nossas chatas obrigações do dia-a-dia e esticar a conversa, junto com a nascente e bem-vinda amizade, numa mesinha de bar, ou para ser mais coerente com a isotopia deste texto, numa mesa de restaurante.

Pois é, para não perder de vista a metáfora gastronômica, desconfio que ninguém gosta do bolo todo, e ninguém o consome, salvo por obrigação, como ocorre com os especialistas, que, coitados, são obrigados a assistir e julgar todos os filmes do mundo.

 

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