Por ternura também se mata

4 fev

Gosto muito de filmes antigos, mas, há uns que prefiro não rever, por puro receio de que o encanto que deles guardo porventura caia por terra na revisão. E assim fico apelando que não saiam em DVD…

Um caso deste é “Por ternura também se mata” (1957).

O filme de René Clair se passa em Paris, mas, na Paris dos pobres. O título original é “Porte de Lilas”, uma daquelas entradas/saídas da cidade, onde reside uma gente humilde que nada tem a ver com os brilhos dos Champs Élysées.

Juju (Pierre Brasseur) é um vagabundo que precisa de todos e ninguém precisa dele. Um dia é, por azar, forçado a esconder em sua casa um perigoso bandido que escapara da polícia, e agora o intimida com sua arma. Recebe-o a contragosto, porém, com o passar do tempo, o meliante vai se tornando importante para ele. E por quê? Porque, antes, ninguém precisava de Juju, e agora, alguém precisa, e desesperadamente. Essa sensação completamente nova enche a vida de Juju de sentido e o filme inteiro é sobre isso: sobre como, para além do ético e do não-ético, é essencial para o ser humano sentir-se necessário, seja lá a quem for.

Normalmente a idéia de necessidade não nos agrada. Parece que não é bom precisar dos outros, nem que os outros precisem de nós. Mas isso são as aparências, porque, no fundo, não ter ninguém que dependa de nós, ser completamente inútil aos outros não deve ser uma sensação muito boa. Sem mulher, sem filhos, sem parentes, Juju sente-se inútil e esse malfeitor, agora escondido em seu porão, salva sua existência do vazio. Trata-se de um malfeitor, mas e daí? É alguém.

Poucos filmes trataram desse tema e o de Clair o faz com uma delicadeza que comove, pelo menos é a lembrança que trago dele.

Uma cena que minha memória recolhe, com carinho e admiração, é aquela no bar da esquina que Juju freqüenta, e que ocorre algum tempo depois de o nosso atordoado protagonista haver “acolhido” o bandido. Um rádio ligado, a que todos escutam – inclusive um Juju preocupado – noticia sobre o bandido desaparecido, dando os detalhes de sua última façanha, o confronto com a polícia, os tiros trocados, a sua fuga e o desaparecimento. Ora, enquanto tudo isso é relatado pela voz do locutor, lá fora, na rua em frente ao bar, um grupo de crianças, “por coincidência”, brinca de polícia e bandido, encenando exatamente cada um dos fatos narrados no rádio, assim como se se tratasse de um “teatro imediato”… E vejam bem, a sincronia entre brincadeira infantil e noticiário radiofônico não é apenas um genial exercício formal, mas, sobretudo, é uma remissão, não menos genial, aos dois lados da personalidade de Juju, o adulto, que se sente culpado por dar guarida a um marginal, e o infantil, que se sente bem em, afinal, existir alguém que dele precisa.

Com “Porte de Lilás” René Clair estava voltando ao “cinema poético” que praticou nos velhos tempos, anos vinte e trinta.

Lamentavelmente, o filme enfrentou, na época, a incompreensão dos críticos dos Cahiers du cinéma (Traffaut, Chabrol, Godard) que já haviam, aprioristicamente, determinado que o cinema francês de estúdios não prestava e que o grande lance era fazer os filmes de autor do que logo seria chamado de Nouvelle Vague.

Como disse, tenho lá meus receios de rever “Por ternura também se mata”, e na revisão, matar a ternura que sinto por ele…

Mas isso, confesso, é só um lado da questão.

O outro é que, às vezes juntando forças para acreditar no contrário – isto é, que a revisão, reacenderá a minha ternura – fico fortemente tentado a revê-lo, e poder – quem sabe? – demonstrar uma verdade, ainda que tardia: que, com toda a sua gramática de estúdio, “Por ternura também se mata” é melhor do que muita coisa que a inovadora Nouvelle Vague perpetrou.

 

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5 Respostas to “Por ternura também se mata”

  1. Glória novembro 28, 2011 às 11:21 pm #

    Beleza de post. Só fiquei um pouquinho triste quando li que o filme foi mal recebido pelos críticos da Nouvelle Vague. Curioso, quando o próprio Truffaut realizaria “Os Incompreendidos” dois anos mais tarde. Mas ninguém é perfeito, nem mesmo meu cineasta preferido:)

    “É essencial para o ser humano sentir-se necessário, seja lá a quem for.” Concordo e me lembro do que diz a personagem Laura (Sylvia Syms) do filme “Victim”, “Meu Passado me Condena”, também já discutido por você: “Precisar é mais que amar.”

    Abraço.

    • João Batista de Brito novembro 29, 2011 às 1:14 pm #

      Pois é, Glorinha, Por ternura também se mata foi só um dos muitos filmes “recusados” pelos nouvellevaguistas… Ainda bem que existe o tempo, pra botar as coisas nos lugares…

  2. Luiz C. Cavalari março 25, 2013 às 2:39 pm #

    Também vi este filme há muito tempo. Gostei muito e ao contrário do Sr. que tão delicadamente escreve sobre ele, eu gostaria de revê-lo. O Sr. me perdoe a ousadia, pois não nos conhecemos, porém creio que ao assisti-lo novamente, em nada o Sr. perderia a ternura já encontrada. O filme é muito bom e a sua análise vem carregada de sensibilidade.
    Lembro-me vagamente de uma cena no bar com Juju e o Artista em que restando apenas um pouco de bebida, um deixa para o outro dizendo mais ou menos isto: beba você…você precisa mais…

    • João Batista de Brito março 27, 2013 às 12:23 am #

      Tomara, Luiz Cavalari, que revendo este filme eu continue gostando o quanto gosto ser revê-lo. Abraço, e seja bem vindo ao blog. João.

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