Adaptação indevida

4 mar

Publicado em 1951, o romance “O apanhador no campo de centeio” se tornou um sucesso imediato e sua importância não parou de crescer desde então, nos Estados Unidos e no mundo. Ao falecer o seu autor, J. D. Salinger, neste janeiro de 2010, o livro já estava, havia muito tempo, na lista dos romances mais influentes do século XX.

O apanhador” carrega muitos méritos, mas, o principal parece ter sido o de consistir no primeiro romance a enfrentar, de frente e a fundo, o problema da adolescência – uma difícil fase da existência humana que até então ninguém levara a sério.

Recém-saído da adolescência, nos meus vinte anos de idade, tive o privilégio de ler o original, “The catcher in the rye”, edição americana, a mim emprestada pelo generoso Archidy Picado (o pai) que, na época, residia em Jaguaribe e possuía a maior biblioteca particular em língua inglesa do Estado.

Para mim, foi uma experiência fascinante, em dois sentidos: ter acesso a um romance importante e fazer isso em inglês, língua que vinha aprendendo a usar desde os catorze anos. Com um adicional: ao contrário do que acontecia com os Fitzgerald ou Faulkner da vida, eu conseguia ler Salinger sem problemas de compreensão por uma razão muito simples: a sua linguagem era estritamente coloquial, fala de primeira pessoa do jovem protagonista-narrador, sem uma só palavra que um adolescente sem instrução não conhecesse.

Depois de devolvida, nunca mais pus as mãos nessa edição original, e nunca li o livro em português. Dele guardei menos a estrutura narrativa que a atmosfera (as angústias de um adolescente em crise), expressa, por contraste, no seu belo título. Sim, a idéia é a de que, num campo de centeio, brincam crianças que, sem noção de direção, podem, de repente, arrastar-se a um precipício vizinho, e o jovem protagonista-narrador gostaria de ser o protetor, aquele que “apanha” as crianças antes que caiam. Tudo muito simbólico, claro, já que o precipício deve ser entendido como a perda da inocência, com a entrada no degradado e falso mundo dos adultos.

Uma das curiosidades do livro é que nunca foi filmado. Ao estourar, Hollywood ficou de olho nele e Salinger recebeu dezenas de propostas, entre as quais a do mais que confiável Billy Wilder. De Jerry Lewis a Marlon Brando, muitos astros manifestaram o desejo de viver o seu conturbado protagonista na tela.

A todos Salinger gritou um categórico NÃO. É que, antes de editar “O apanhador”, ele tivera uma feia decepção com o cinema. O seu conto “Tio Wiggily em Connecticut” havia sido comprado pela MGM e foi, na adaptação, tão deturpado que, com o título de “My foolish heart” (“Meu tolo coração”, no Brasil mudado para: “O meu maior amor”) virou um melodrama lacrimoso com Susan Hayward e Dana Andrews nos papéis de um casal separado pela Guerra.

Salinger permaneceria intransigente ao cinema até o fim da vida, mas não sei se isso adiantou muito. Obsessivamente lido e discutido, o seu livro influenciou toda uma gama de roteiristas e cineastas hollywoodianos, que passou a se interessar por essa novidade diegética – a de ter adolescentes como protagonistas e suas angústias como tema. Não demorou muito (1955) para Nicholas Ray fazer “Juventude transviada”, em cuja cena final – diga-se de passagem – ninguém esquece o problemático adolescente James Dean tentando inutilmente “apanhar” o frágil e infantil Sal Mineo, ante o precipício da morte… E o que veio com e depois deste filme todo mundo sabe.

Sim, o hálito quente, acre e desencantado de “O apanhador no campo de centeio”, pode ser sentido em muitos roteiros de filmes, cenas e mesmo em interpretações, não apenas dos anos cinqüenta, mas das décadas seguintes.

Hoje em dia, quando tolos adolescentes pululam em enfadonhos filmes americanos, o hálito de Salinger não mais é sentido. Porém, retrocedamos um pouco e o seu cheiro é quase – no bom sentido da palavra – insuportável. Pode se dizer: um caso curioso de adaptação indireta e indevida.

 

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