Noblesse oblige

4 abr

Nada como se acomodar na poltrona para rever um clássico. Esta semana me acomodei para rever “A princesa e o plebeu” (William Wyler, 1953). Não é um filme que agrade a intelectuais, mas, no mágico território da cinefilia, quem se importa com intelectuais?

Passeei pelas ruas de Roma, andei de lambreta, tomei sorvete, botei a mão na boca da verdade, fiz um pedido impossível, dancei, me meti em brigas, e, evidentemente, acabei apaixonado por Audrey Hepburn… Finda a sessão, fiquei pensando no roteiro, que, aliás merecidamente, ganhou o Oscar de estória original.

Fiquei imaginando como tudo teria começado na cabeça do roteirista Ian Hunter. Não acho nada improvável que o ponto de partida tenha sido aquela frase feita que a gente usa, toda vez que está diante de uma obrigação a cumprir: “noblesse oblige”. O genial foi Hunter haver remontado ao sentido literal do clichê (´a nobreza obriga´) e, a partir daí, haver concebido uma pessoa da corte, de saco cheio com protocolos, querendo escapar das obrigações reais.

Talvez de início tenha lhe ocorrido um príncipe fugindo da corte, mas, essas estórias de nobres cavalheiros passando por plebeus já era batida na época. Assim, era melhor inverter os sexos e fazer uma princesa ter uma crise nervosa e escapulir do palácio para se meter com o povo na rua. E isso onde? Não poderia ser no seu próprio país, pois ela seria facilmente identificada. Assim, inventou-se uma tournée diplomática. A cidade poderia ter sido qualquer uma, mas, claro, nada mais excitante do que Roma, onde tudo é tão anti-protocolar. E cuidado, aquela gag inicial, em plena cerimônia oficial, em que se mostra, por debaixo do vestido da princesa, o sapato fora do pé, e depois reposto, não é nada gratuita: se você prestar bem atenção, ela contém a estória inteira do filme.

Como o filme era produção de Hollywood, tinha que haver um repórter americano, perseguindo a princesa fugitiva e, inevitavelmente, se apaixonando por ela, ao ponto de, no romântico desenlace, renunciar ao furo. A existência desse repórter, além de produzir o conflito necessário e garantir o gênero, tinha a vantagem de remeter a um outro clichê, igualmente reformulado: o “príncipe encantado” das mocinhas, virando “a princesa encantada” dos homens. O final é tão idealista e sublime que não admira que Capra, antes de Wyler, tenha querido fazer o filme.

O papel da princesa foi pensado para Elizabeth Taylor, mas, ainda bem, Wyler insistiu nessa novata, que fizera o teste para a produção. Em seu primeiro papel principal, Audrey se saiu tão maravilhosamente bem que ganhou o Oscar, o seu único.

Adoro aquela cena em que ela, sob o efeito do sedativo, entra no minúsculo apartamento de Gregory Peck e pergunta se estamos no elevador. Antes de deitar-se repete a frase que, na condição de princesa, costumava emitir aos seus súditos: ´você tem minha permissão para retirar-se´. Estas eram dicas de sua realeza (que, nem inconsciente, ela perdia), mas Peck, julgando-a apenas bêbada, estava longe de desconfiar. Na verdade, ele começa a ter uma idéia de que aquela mocinha perdida nas ruas de Roma não era nada vulgar, quando ela recita os versos de Shelley, embora supondo ser Keats: “Aretusa ergueu-se do seu leito de neve…” Sim, mas era cedo para adivinhar a sua posição na pirâmide social.

A ficha cai, para ele, no dia seguinte, ao ver a foto da princesa estrangeira no jornal. É aí que ele, jornalista espertinho, monta o seu plano de ganhar dinheiro em cima do caso, porém, mais interessante para o espectador seria o exercício de identificar, no andamento do filme, o exato momento em que ele desiste do plano. Teria sido no beijo ensopado que o casal troca, depois do mergulho forçado no rio? Ou um pouco adiante, na despedida dentro do carro? Uma outra pergunta gostosa a fazer seria: em que momento da estória ela ficou sabendo que ele sabia de tudo?

Naturalmente, estas perguntas são só pretextos para o cinéfilo ver o filme mais uma vez.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: