Sete dias em maio

17 abr

Em algum tempo não definido, entre o final dos anos 50 e o começo dos 60, ou seja, em plena Guerra Fria, o Presidente dos Estados Unidos, o Sr Jordan Lyman, assina um acordo de paz nuclear com a URSS.

Ao invés de aumentar a sua popularidade junto ao povo americano, esse gesto sensato a diminui consideravelmente, mas isso não é o pior: movido pela paranóia anti-comunista e, aproveitando-se da baixa popularidade presidencial, um grupo de militares, por trás dos bastidores, está preparando um golpe de estado que deverá transformar o país numa ferrenha ditadura de direita. Para tanto, uma base secreta já fora construída e quando o filme a que estamos assistindo começa, só faltam sete dias para o golpe consumar-se.

Sete dias em maio” (“Seven days in May”) é justamente o título do thriller político que o cineasta John Frankenheimer rodou entre 1963 e 1964, e que, mal lembrado, agora revejo com admiração na TV paga.

Sem as mirabolantes cenas de ação de hoje em dia, o filme explora os interiores – nos dois sentidos da palavra! – e o drama brota do tenso e áspero diálogo e dos confrontos de gestos e olhares, ou, se for o caso, dos seus desvios. A seqüência final em que o Presidente Lyman (o grande Frederik March) e o general golpista Scott (Burt Lancaster) se defrontam numa sala privada da Casa Branca é um exemplo de casamento perfeito entre alto nível de interpretação e alto nível de elaboração de roteiro, sem falar da maestria dos enquadramentos.

O filme é empolgante e todo o elenco é de primeiro time: Kirk Douglas faz o Coronel Casey, cuja delação de última hora conduz ao desmonte do golpe; Martin Balsam é o assessor do presidente, vitimado pelos golpistas; Edmund O´Brien é o senador democrata; e Ava Gardner, a ex-amante do general que quer tomar o poder, de quem guarda umas cartas comprometedoras, que poderiam ter sido usadas politicamente, mas não foram – mais um gesto nobre do presidente Lyman.

Contudo, empolgação à parte, confesso que, vendo o filme, não consegui me desvencilhar de uma certa questão paralela, que tem a ver com a sua recepção fora dos Estados Unidos. Vejam bem, hoje em dia nós, brasileiros, assistimos ao filme de Frankenheimer sem problemas, porém, não consigo deixar de ficar imaginando como foi a reação brasileira a ele no tempo de sua estréia. Nos States, ele estreou em fevereiro de 1964, isto é, um mês antes do golpe militar no Brasil. Não tenho a informação de sua estréia por aqui, mas foi, com certeza, na gestão Castelo Branco.

O que quero trazer à tona é o seguinte: com um final feliz (?), o filme mostra os Estados Unidos como a grande democracia, que preserva a noção de liberdade acima de tudo, e luta pela preservação dessa noção no planeta inteiro. Ora, como sabemos hoje melhor do que nunca, ao tempo em que o filme de Frankenheimer estava sendo rodado, os mesmos Estados Unidos estavam sistematicamente empenhados no incentivo a ditaduras na América Latina, e a Revolução Brasileira de 1964 fez parte desse incentivo.

Não sei se cabe aqui indagar até que ponto Frankenheimer estava consciente do papel interventor do seu país, ele que fez tantos filmes com implicações “políticas” (lembremos: “Sob o domínio do mal”, “O homem de alcatraz” e “O trem”). No caso presente, ateve-se profissionalmente aos limites geográficos do roteiro que tinha nas mãos, e pronto.

Seja em que tempo for, o espectador americano pode assistir a Sete dias em maio sem assombros, vendo tudo como ficcional. Um brasileiro, não. O que não aconteceu lá, aconteceu aqui, e com a ajuda deles. Neste sentido, o Gen Scott de Burt Lancaster nos aparenta mais real e, no pós-tela, não deve ter ido para casa deitar-se, mas, maquinar outros alvos.

Em suma, se nada disso compromete a qualidade do filme de Frankenheimer, o torna, sim, – pelo menos para nós – mais amedrontador do que ele quis ser.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: