Billy Wilder, redentor

29 abr

Como ocorre com outros criadores, há cineastas que, com o passar dos anos, crescem diante dos nossos olhos. Outros decrescem, e outros permanecem do mesmo tamanho. Para mim, um que nunca para de crescer é Billy Wilder.

Tivesse eu que citar dez dos meus cineastas preferidos, e ele seria um deles. E se o número a citar fosse drasticamente menor (dois, por exemplo) Billy Wilder ainda seria um dos citados.

Quando reviso as filmografias dos grandes cineastas do planeta, consigo divisar, ao meio de tantas obras primas, filmes de que não gosto. Por exemplo: em Fellini não gosto de “Julieta dos espíritos”; em Truffaut não gosto de “A noiva estava de preto”; em Fritz Lang não gosto de “O segredo da porta cerrada”; em Dassin não gosto de “Nunca aos domingos”; em Kazan não gosto de “Mar verde”; em Hitchcock não gosto de “Marnie”, e até em Ford não gosto de “O aventureiro do pacífico”.

Com Billy Wilder é diferente.

Praticamente, gosto de tudo que ele cometeu, até os filmezinhos menores, eventualmente rechaçados pela crítica, como aquele despretensioso “Beija-me idiota” (“Kiss me, stupid”, 1964), que os comentaristas alegam ser uma comédia sem graça, e que, no entanto, me fez rir à beça.

Pois, para endossar a abrangência do meu gosto, um Billy Wilder supostamente “ruim” está rodando na televisão paga.

Com a dupla Walter Matthau e Jack Lemmon, “Uma loura por um milhão” (“The fortune cookie”, 1966) conta a estória hilária desse camera-man de televisão que, levemente ferido na transmissão de um jogo, é convencido pelo cunhado ambicioso, um advogado salafrário, a fingir a gravidade do choque e por o caso na justiça para receber um milhão de indenização. Quando sabe do caso, a mulher do acidentado – que fugira com outro – retorna ao lar toda afável e arrependida, pensando em abocanhar uma parte da grana. Claro que, adiando o pagamento enquanto pode, o pessoal do seguro fica, literalmente, de olho no acidentado, filmando ininterruptamente o interior do seu apartamento de uma janela indiscreta… a fim de descobrir uma falha no golpe.

A estória não é nova e o tema da indenização indevida até já estivera em Wilder, muito tempo atrás, em “Pacto de sangue” (1945). Só que o tratamento aqui é todo outro. Enquanto “Pacto” é um noir cheio de sombras, aqui estamos diante de uma comédia repleta de gags e frases cortantes.

Para dizer a verdade, o que, da obra de Wilder, está aqui repetido é extremamente bem-vindo. Refiro-me ao contraste entre valores materiais e valores morais que faz o melhor dos seus argumentos. Vocês sabem tanto quanto eu que, apesar do sarcasmo e mordacidade prevalecentes, no universo wilderiano há sempre uma figura marginal que não condiz com a safadeza generalizada e que, no desenlace, se rebela e inverte o jogo. Geralmente, é o cara inseguro e ingênuo que, de início, é seduzido pelo dinheiro ou ascensão social, mas, em momento de crise moral, diz não à corrupção e, heroicamente, opta pela pobreza franciscana. Conferir, por exemplo, o protagonista de “Se meu apartamento falasse”.

Em “Uma loura por um milhão” é o que ocorre ao personagem, também feito por Jack Lemmon, que, sacando o verdadeiro motivo pelo qual a esposa traidora voltara para seus braços, resolve revelar a farsa toda aos funcionários da companhia de seguros. E o faz com certa dose de sadomasoquismo.

Este gesto drástico, tão repetido em Wilder, é como se fosse o lado político de sua obra, o seu recado desfavorável ao capitalismo americano. Neste sentido, os seus protagonistas são perdedores que vencem, ou seja, perdem no plano material para ganhar no moral. E, engraçado, não sei se vocês já notaram, mas nisso, o intransigentemente pessimista Billy Wilder é parecido com o intransigentemente otimista Frank Capra. Sim, se cotejados mais a fundo, é impressionante como estes dois cineastas aparentemente tão diferentes, têm em comum um elemento chave que define o sentido de seus respectivos universos imaginários, a saber, a redenção.

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Uma resposta to “Billy Wilder, redentor”

  1. Walter Carvalho junho 28, 2012 às 2:34 pm #

    João,

    Preciso do seu email.

    Abs
    Walter carvalho

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