O vestido queimado

23 maio

Desde que soube que o filme “O vestido” (Paulo Thiago, 2004) era baseado no poema de Drummond “O caso do vestido” fiquei interessado em vê-lo, lamentando que não tenha sido exibido em cinemas locais.

Adoro o poema, sua estrutura dialogal, sua fluência narrativa e sua sonoridade de cordel, e sempre me inquietei com sua evocação folhetinesca, o seu jeitão de roteiro meio melodramático, cheio de lacunas para o leitor preencher como quiser.

Bem, eu conhecia a filmografia do mineiro Paulo Thiago, lembrava do seu mal sucedido “Soledade” (1976, filmagem de “A Bagaceira”) e sabia que ele não era um adaptador confiável, mas mesmo assim, valia a pena apostar. Esperei pela cópia em DVD, que não saiu, ou não chegou por aqui, e só há pouco pude ver o filme em sessão especial do sempre oportuno Canal Brasil.

Era esperado, e até desejável, que os roteiristas preenchessem as lacunas que o poema oferece para poder construir a estrutura narrativa do filme, operando, nesse intento, uma série considerável de acréscimos diegéticos ao relativamente curto texto original. Como o poema é de 1945 (está no livro “A rosa do povo”), a produção certamente quis evitar os custos de um “filme de época” e transpôs a estória para os dias atuais – o que também é compreensível.

O filme, contudo, tem tantos problemas que nem sei como listá-los. Neste sentido, é instrutivo, ensinando ao espectador pelo avesso, como não fazer cinema, ou como não adaptar poesia à tela. Aqui cito um ou outro, que o leitor pode completar.

O primeiro problema, e talvez o maior de todos, é que, enquanto no poema, o vestido é um corolário, no filme ele é um pivô. Para explicar preciso fazer o resumo do enredo do poema.

Intrigadas com um vestido pendurado num prego em casa, as duas filhas perguntam à mãe que vestido era aquele; no começo hesitante, mas depois nem tanto, a mãe conta a estória às filhas: muito tempo atrás, quando elas eram pequenas, o marido enrabichou-se de uma dona formosa, e – como a dona não o quisesse – ele chegou ao ponto de implorar a ela, a esposa, que implorasse à dona que o aceitasse. À contragosto, a esposa faz isso e o marido vai se embora com a dona, abandonando a casa, as duas filhas pequenas e a esposa, agora doente da humilhação sofrida. Muito tempo depois, a tal dona re-aparece, agora sozinha, feia e desgrenhada, suplicando que a perdoasse e que recebesse aquele vestido (o que ela vestia na primeira ocasião) como símbolo do perdão: o homem que ela, a dona, tomou dela, a esposa, não a amava mais, e ela, agora, triste e desiludida, não via mais sentido em viver. A esposa aceita o vestido, que pendura no prego, e logo depois disso, chega o marido, como se nunca tivesse partido, e manda botar mais um prato na mesa, o dele. E a casa volta a ter a paz de sempre.

No filme chamado de Ulisses, é o marido quem – sem nenhuma justificativa do ponto de vista da diegese – dá de presente o vestido à esposa, Ângela (nem é seu aniversário, por exemplo, nem o vestido se coaduna com o seu tipo físico), a qual – com menos explicação ainda – dá o vestido à mulher, Bárbara, a qual, por sua vez, ainda não é, neste momento, amante do seu marido. Para os roteiristas do filme, é o vestido o que faz com que Ulisses se apaixone por essa quase desconhecida, namorada de um amigo seu, o ambicioso Fausto. Tudo bem, mas por que fazer o vestido passar assim de mão em mão, sem motivos convincentes dentro da estória?

Como se nota, os nomes dos personagens são obviedades: Ulisses sugere o aventureiro de Homero; Bárbara, a mulher selvagem; Ângela, o anjo doméstico e puro; e por fim, Fausto, o mercenário que é capaz de vender a alma por dinheiro, no caso, um amigo de Ulisses que lhe compra o sítio decadente.

Diferentemente do que ocorre no poema, um terço do filme é gasto com a vida a dois do casal fugido, Ulisses e Bárbara, que vão garimpar ouro no Mato Grosso, sonhando com uma pepita que nunca aparece, e passando pelo processo de crise amorosa, ela se apaixonando e ele se desapaixonando. Como é a esposa que conta a estória, para as filhas e para nós, e que, portanto, não poderia saber o que ocorreu com os fugitivos lá nos confins do patanal, inventa-se o expediente de um diário da amante, que teria sido doado à Ângela, junto com o vestido. O que não é só mais uma inverossimilhança, mas, também um expediente tolo, já que há muito tempo, a linguagem cinematográfica acostumou-se a lidar com uma coisa chamada de paralepse, a informação onisciente veiculada por um ponto de vista narrativo limitado, como é o da esposa.

Na verdade, o filme está cheio dessas implausibilidades desnecessárias, das quais cito mais algumas.

Embora a estória dos pais decorra em cerca de cinco ou seis anos, as duas adolescentes do filme, as filhas do casal em idade de crescimento (13 e 15 mais ou menos) não crescem um centímetro. E, mais grave, a pergunta que fazem à mãe sobre o vestido não tem nenhuma lógica dentro do filme, simplesmente porque – ao contrário do que ocorre no poema – elas acompanharam de perto o “caso” todo.

A velha com cara de bruxa que ataca o casal fugitivo na estrada, maldizendo a relação, é um acréscimo diegético completamente desnecessário, que faz com que o filme mais se afaste, tematicamente, do poema adaptado.

O encontro completamente casual de Ulisses e o pai de Bárbara (um motivo chinfrim inventado para a separação dos amantes) em uma cidade populosa como Belo Horizonte, é coisa difícil de engolir. E mais difícil de engolir ainda se torna o andamento do filme depois que Ulisses atira e mata um desafeto, sem que por isso sofra qualquer conseqüência, moral ou legal, e sem que ninguém no filme sequer toque no assunto.

Enfim, o roteiro é tão mal resolvido que chega a prejudicar a direção de atores, e, resultado, ninguém que assiste ao filme se convence muito dos apaixonamentos em série quando eles acontecem: primeiramente, o de Ulisses (Leonardo Vieira) por Bárbara (Gabriela Duarte), depois o de Bárbara por Ulisses, e por fim, a retomada amorosa de Ulisses por Ângela (Ana Beatriz Nogueira).

De todo jeito, para não deixar de citar o lado bom, a melhor coisa do filme é mesmo a música original do também mineiro Túlio Mourão, realmente evocadora do espírito dramático do poema, e que, tivesse sido uma outra a maneira de adaptar, teria com certeza funcionado maravilhosamente.

As citações de “O pagador de promessa” e “Dom Casmurro” são inteligentes, mas não ajudam muito. Bárbara repetindo as falas do filme de Anselmo Duarte servem só para acreditarmos que ela fez teatro na juventude, e o trio amoroso assistindo à peça baseada em Machado de Assis é só uma dica para a crise que se aproxima, aliás, sem a pertinência esperada, já que em Machado, é a mulher que teria traído, e não o marido.

Aqui e acolá força-se a barra para incluir no diálogo ou na narração em voz over, palavras do poema o que, ao invés de melhorar, piora o filme: é que ele já se distanciara tanto da atmosfera do poema que as citações parecem estranhas, heterogêneas, incompreensíveis.

Mas, o pior acontece no desenlace quando, sobre a imagem da família reunida à mesa – pai, mãe e filhas – contrapõe-se o próprio texto do poema manuscrito, a protagonista dizendo que “vestido não há… nem nada”. Ora, no poema, a frase é uma dramática metonímia (vestido = caso), significando que o vestido está ali, sim, mas é como se não estivesse, uma vez que todo o acontecido já pertence ao passado. Pois, a direção não muito hábil de Paulo Thiago faz a câmera retroceder no cenário, abrindo o quadro para mostrar o quê? Sim, o vestido ardendo numa fogueira, e o último fotograma do filme é esse vestido queimado.

Por falar em fotograma, o filme é desinteressante desde o primeiro: logo que se inicia a projeção, ao ver as duas meninas brincando com o vestido vermelho, entre risadas, correrias e cortinas transparentes, numa coreografia duvidosa, desanimei, porém, estoicamente, mantive-me diante da telinha até o final. Nunca sofri tanto vendo um filme. Acho que sofri mais que a esposa traída.

Para o leitor desta matéria espero que tenha ficado claro um princípio crítico que assumo no caso de adaptações. O problema do filme de Paulo Thiago não é ter ficado diferente do poema de Drummond; é ter ficado esteticamente menor. Em adaptação, a diferença é mesmo desejável: criticável é a queda da qualidade. Só isso.

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