Bad Hitch

1 jun

Até a presente data, eu achava que o pior filme de Alfred Hitchcock fosse “Marnie”. Na verdade, na minha listinha maldosa dos “bad Hitchs”, eu me dividia, indeciso, entre “Marnie”, “Quando fala o coração” e “Agonia de amor”.

Com o lançamento em DVD de “Sob o signo de capricórnio” (“Under Capricorn”, 1949) acabou-se a indecisão: este é indubitavelmente o pior filme do mestre do suspense, que – não esqueçamos – perpetrou tantas obras primas.

A estória se passa na Austrália do século XIX, um lugar selvagem e inóspito, habitado por ex-presidiários, deportados do mundo civilizado, para efeito duplo de pena e colonização.

Nessa mansão sombria reside um desses ex-malfeitores com sua bela esposa alcoólatra e meio louca, mais uma governanta antipática e uma corja de serviçais desagradáveis, incompetentes e hostis.

Da Irlanda chega o primo do Governador, o Sr Adaire (Michael Wilding) que, ao ser introduzido à mansão, passa a demonstrar a intenção de salvar Henrietta (Ingrid Bergman) da degradação e do alcoolismo. O marido, Flusky (Joseph Cotten), consente, até perceber que está – segundo a governanta (Margareth Leighton) – sendo traído. Tudo termina dando errado – ou dando certo? O crime pelo qual Flusky pagava (o assassinato do cunhado) era de autoria de Henrietta, e a decadência física e moral desta era obra da governanta malvada que, além de produzir o clima de terror que a enlouquecia, a envenenava em doses paulatinas.

Sem suspense, sem humor e sem emoção convincente, o filme se arrasta em longas tomadas cansativas e diálogos intermináveis. A rigor, começa ruim, assim prossegue e termina pior.

Não fossem os créditos, jamais diríamos tratar-se de um filme de Hitchcock, em cuja proposta estética, como se sabe, nunca coube o chamado “filme de época”. A esse respeito, não seria ocioso lembrar aquele conceito que define o essencial na criação hitchcockiana, a saber, o “macguffin”. Explicando: este termo brincalhão (tirado de uma anedota niilista) e, em si mesmo sem sentido, indica o direito que tem o realizador de cortar os laços com a História (H maiúsculo), como acontece de forma radical em – para dar um exemplo único – “Intriga Internacional” (“North by Northeast”, 1959), onde, em termos verídicos, ninguém sabe quem são os perseguidores de Cary Grant, e não  saber disso é essencial.

O próprio Hitch detestava “Sob o signo de capricórnio” que – segundo confessou um dia em famosa entrevista a François Truffaut – só rodou para tirar lucro da figura de Ingrid Bergman, o que, segundo ele mesmo, foi de sua parte, “infantil e idiota”. De fato, é uma das grandes interpretações da atriz, mas, para o espectador, algo que soa como puro desperdício.

Na entrevista, a boa vontade de Truffaut tenta salvar o filme do oblívio completo, nele apontando os ingredientes diegéticos que fazem o estilo hitchcockiano.

De fato, o envenenamento paulatino da protagonista já estava no magnífico “Interlúdio” (1945); a situação da dona de casa deslocada dentro de uma mansão sombria e dominada por uma governanta diabólica já estava no excelente “Rebeca” (1939); o tema da culpa transferida perpassa toda a filmografia do mago do suspense, de tal forma que nem faz sentido citar exemplos; e, para não deixar de mencionar um aspecto mais formal, os intermináveis planos-sequência que permitem os atores falarem sem parar já estava no anterior “Festim diabólico” (1948), como é sabido, uma película supostamente rodada sem montagem. Só que nestes filmes citados, e nos não citados também, tudo era funcional e aqui, não.

Em seu livro “The Art of Alfred Hitchcock” (Anchor Books, 1992) o crítico e historiador americano Donald Spoto fecha o seu comentário de “Sob o signo de capricórnio” com uma frase de efeito que pretende compensar todos os defeitos do filme. Diz ele: “é um filme sobre um rosto, o de Ingrid Bergman”.

É verdade. Uma pena que isso não o torne melhor.

na��ae��� seria o interesse histórico. De fato, não deixa de ser curioso remontar, pela ótica deslumbrada de um estrangeiro, ao Rio de Janeiro de 1959, quando, antes disso, essa mesma cidade aparecera duas vezes na ótica realista de um brasileiro, Nelson Pereira dos Santos, em Rio 40 graus (1955) e Rio zona norte (1957), filmes precursores do Cinema Novo que, estes sim, bem poderiam estar selados.

 

 

(II)

 

Fico pensando se não foi por pura solidariedade profissional que os críticos e cineastas brasileiros elogiaram, de forma tão franca, o filme “Orfeu” de Cacá Diegues (1999), alguns chegando a falar de poesia a propósito dessa badalada produção.

Ora, poesia houve um dia em “Bye bye Brasil”, mas isso faz tanto tempo… Quem se influenciar pela intensa promoção que o filme vem tendo, inclusive no precioso espaço da televisão, e julgar que vai assistir a um grande filme, na verdade, tem tudo para se decepcionar. E, por falar em promoção, também fico pensando se um elemento que vem atrapalhando a inspiração de Diegues não seria justamente essa intenção de fazer cinema para exportar, com a necessária “pasteurização” para turista consumir, elemento tão visível no seu “Tieta” (1996).

De uma maneira ou de outra, o fato é que o resultado final desse “Orfeu” dificilmente convence enquanto cinema. Defeitos e problemas é que não faltam, mas basta citar um único para dar a medida do descompasso. Refiro-me ao talvez mais óbvo, a saber, a interpretação do cantor Toni Garrido no papel-título, tão péssimo ator que sua presença na tela soa como “erro de continuidade’.

E para piorar, o cantor de “Cidade Negra” não só é mau ator, como está incrivelmente mal dirigido: quem viu o filme sem a boa vontade dos profissionais do ramo, ou sem a influência do advertisement, deve ter se escandalizado com a eternamente impecável indumentária de Garrido, que passeia pelo cenário sujo das favelas cariocas, como um “superstar” ao meio da imundície circundante, sem nunca se amarrotar ou perder o brilho da roupa. À parte e acima das implicações do roteiro, o ator, muito mais do que o personagem, desfila seu charme como um recado insinuante aos fãs que pagaram ingresso por causa de sua imagem.

Além desse merchandising nada discreto, a figura do personagem, ela mesma, não funciona muito bem. A intenção de se fazer dele um verdadeiro galã, por quem todas as mulheres se apaixonam perdidamente, e que, no fundo, não ama ninguém, pelo menos até encontrar a sua Eurídice, no filme parece mal trabalhada, meio exagerada, e, ao invés de ganhar a qualidade trágica das fontes adaptadas, remete muito mais às convenções hollywoodianas do “grande amante”, daquele tipo que Humphrey Bogart, ou William Holden, ou Rock Hudson, fizeram em tantos filmes.

Aqui e acolá há momentos aproveitáveis e soluções interessantes, como a transformação da mitológica “descida aos infernos” na descida literal de Orfeu, montanha abaixo, até o local onde fora jogado o corpo de Eurídice, um depósito de lixo. Com certeza, se o filme, desde o início, tivesse conseguido envolver emocionalmente o espectador no caso Orfeu-Eurídice, o paroxismo da cena final, com todos aqueles retardamentos, repetições e circunvoluções em torno do motivo, poderia ter arrancado, se não lágrimas, ao menos entusiasmo com o show de mise-en-scène. Mas não.

Como é sabido, o mito clássico do apaixonado que desce aos infernos em busca da amada morta, já fora abrasileirado pela peça de Vinicius de Moraes, “Orfeu da Conceição” (1956), a qual, por sua vez, virou filme nas mãos do francês Marcel Camus, “Orfeu de Carnaval” (1959), sem tampouco a felicidade esperada, apesar dos muitos prêmios para o filme de Camus. Distribuído pela Warner e, portanto, com previsão de carreira internacional, o filme de Diegues fecha, por enquanto, o círculo do processo adaptativo sem acrescentar praticamente nada.

 

(III)

 

Poesia, música e cinema, tudo junto, eis a receita do filme “Vinicius”, do cineasta Miguel Faria Jr, lançado em 2005 e disponível em DVD.

Semi-documentário amoroso sobre o nosso querido poeta e compositor Vinicius de Moraes, concebido e realizado com carinho e extremo bom gosto, o filme de Faria Jr tem tido boa resposta de público, pelo menos de um certo público.

Composto de depoimentos de amigos, parceiros e parentes de Vinicius, performances musicais e poéticas, algumas encenações, e registros de época em fotos e películas, o filme corre com agradável fluência, todo amarrado por uma linha narrativa que fica nas vozes e caras dos atores, ótimos, Camila Morgado e Ricardo Blath.

A propósito das recitações de Morgado, devo dizer, antes de tudo, que, pela primeira vez no cinema, pude sentir nos meus ouvidos de espectador a beleza sonora da “última flor do Lácio” (o velho Bilac tinha razão!). Já do ponto de vista plástico, um dos momentos altos do filme está na encenação do poema “Balada do Mangue”, onde, num prostíbulo decadente, prostitutas semi-nuas se oferecem ao espectador como as (cito) “pobres flores gonocócicas \ que a noite despetalais \ as vossas pétalas tóxicas…”

Tônia Carrero, Ferreira Gullar, Chico Buarque, Antônio Candido, Caetano Veloso, Carlos Lyra, Gilberto Gil, Edu Lobo, Tom Jobim (voz e imagem de arquivo), Rubem Braga (texto de crônica recitada), e outros tantos, dão instrutivos e iluminados testemunhos sobre o autor de “Garota de Ipanema”, mas, o grande lance desse documentário é não ser apenas documental. Nem ser tampouco apenas uma série de shows interpretativos da obra de Vinicius. As performances, especialmente as de Olívia Byington, Mônica Salmaso, e Mariana Moraes, são deslumbrantes, porém, o que mais agrada é o efeito conjunto, que só se completa no final.

Como todo filme com cenas documentais, imagino que Vinicius deve ter tido um copião imenso, de onde foram certamente cortadas muitas horas de falas dos depoentes. Muito bem editado, o que fica, contudo, é básico e reflete o bom senso de quem escolheu.

Aqui cito alguns casos que considero chave para uma intepretação pertinente do filme.

O primeiro é Maria Betânia definindo o compositor de “Eu sei que vou te amar” a partir de sua paixão por aquela clássica canção americana, “Nature Boy” (autoria de Eden Ahbez), que, como se sabe, formula o que poderíamos chamar de “a ideologia do amor” — tão fundamental para Vinicius! — especialmente em seu refrão, cantado no filme, que diz assim: “the greatest thing you’ll ever learn, is just to love, and be loved in return”: ‘a maior coisa que você poderá aprender é apenas amar e ser amado’.

Um segundo é a leitura coletiva, feita em partes pelos depoentes, do poema “Pátria Minha”, uma saída simples mas efetiva, que dá idéia de como o roteiro do filme foi rigorosamente construído com um sentido autoral, preconcebido, proposital.

Um outro, ainda, é Ferreira Gullar explicando, sempre a propósito de Vinicius, claro, que “a vida é invenção; que você inventa, para o ruim ou para o bom, para cima ou para baixo, como queira”, e concluindo que “já que ninguém sabe mesmo o que é a vida, é melhor escolher inventar para cima”.

Com nove casamentos no bisaco e uma carreira de diplomata que sempre entrou em choque com a boemia assumida, Vinicius de Moraes deve ter tido os seus momentos para baixo. O filme o inventa para cima e a opção foi ótima.

Aliás, o lance de abrir o filme com trechos do triste “Poema de Natal” (‘Para isso fomos feitos…” lembram?) e fechá-lo com as desbragadas risadas dos amigos do poeta, motivadas pela recontagem da piada sobre o desejo de Vinicius de, no caso de existir a reencarnação, reencarnar como ele mesmo, “só que com o pau um pouquinho maior”, é um achado para passar a idéia de descontração que, no geral, marcou a vida do biografado e, tudo indica, a feitura do filme a que se assiste.

Viva a vida, sobretudo a (bem) inventada! Eis a sensação ao sairmos do cinema.

 

 

 

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