Atravessando o campo de centeio

7 jun

Leio na imprensa que, com a morte do escritor, executivos de Hollywood estão empenhados na compra dos direitos autorais do livro “O apanhador no campo de centeio” (J. D. Salinger, 1951) e fico torcendo para que não consigam. Francamente, não gostaria de ver o livro de Salinger na tela. Na sua época, a adaptação fiel não teria sido possível por causa da censura. Hoje não seria desejável por causa da falta de censura.

Na minha coluna do “Correio das Artes” já contei a estória de como o autor, que, por razões pessoais, odiava o cinema, se recusou a ter seu romance filmado, e contei também, como, muito lido por roteiristas, atores e cineastas, o romance terminou perpassando, de modo sub-reptício, muitos filmes, da época e mesmo posteriores – espécie de adaptação pirata.

Na coluna afirmo que li o livro de Salinger, no original, em 1968, e desde então, nunca mais lhe pus os olhos. Mas ora, por coincidência ou não, depois da coluna publicada, me chegou às mãos um exemplar do livro, também uma edição original.

Nostalgia à parte, confesso que foi grande a emoção de reler um romance que havia lido quarenta e dois anos atrás. Nunca havia esquecido a maneira de escrever de Salinger, solta, coloquial, descontraída, como se fosse ele mesmo o adolescente-protagonista e renegasse qualquer artifício literário, e por isso adorei reler o livro em inglês, e assim poder usufruir de sua escrita simples, clara, direta, que, a bem dizer, (atenção, senhores críticos de plantão!) não contém metáforas fundantes de um estilo, nem precisa disso – um livro escrito como qualquer pessoa comum escreveria.

Na minha primeira leitura não notei, mas noto agora: um aspecto delicioso em “The catcher in the rye” (o título original) é justamente a sua oralidade. Durante todo o tempo, nós leitores – sempre tratados por “you” (você ou tu) – não achamos que estejamos lendo, mas ouvindo a voz de Holden Caufield, esse adolescente depressivo que perdeu o ano na escola e, que, em um longo fim de semana sem propósito, perambula pelas ruas de Nova Iorque meio sem destino. O próprio Holden não usa, para a sua narrativa, o verbo “write”, mas “tell”, como se estivesse falando e não escrevendo.

Diz ele que, falando das pessoas, mesmo as desagradáveis, você termina por ficar gostando delas. Com certeza, a máxima é válida para quem ouve – digo isso porque, fechado o livro de Salinger, você está completamente apaixonado pelo seu protagonista. Foi pelo menos o que aconteceu comigo.

Você pode não gostar de sua teimosia em ser negativo, da inconsequência de muitos de seus gestos, da sua tendência meio suicida em apostar na perda, da sua doentia descrença na construção, da sua ira, suas gafes, seus rompantes, etc, mas, – como evitar o deslumbramento? – tudo isso faz parte do seu charme, e, enfim, é tudo isso que lhe dá carne e osso, vida.

A irmã pequena, Phoebe, lhe aponta os defeitos quando lhe diz que ele detesta tudo e todos. Tentando negar, ele procura, em sua mente confusa, algo de que goste e só se lembra de duas pobres freiras com suas malas chinfrins, e um rapaz do colégio que se matou depois de humilhado em uma surra dada por um brutamontes qualquer. Que precário inventário de bens igualmente precários! Num momento desses, o leitor tem vontade de ajudar o personagem, lhe lembrando que ele gosta de dançar, como dançou com as moças feias na boate, e, mais significativamente, como dança com a irmã pequena no seu quarto, no silêncio da noite.

Um ódio obsessivo de Holden é ao cinema, citado inúmeras vezes no romance, como o espaço da falsidade e do engodo. Os filmes nunca são apenas “movies”, mas “godamn movies” e Holden descreve o horror que sente de si mesmo quando, influenciado pelo cinema, se sente heróico como o típico herói hollywoodiano, ou quando vê as pessoas serem manipuladas pelos roteiros que ajeitam tudo para, no desenlace, tudo dar certo na vida de todo mundo.  O tempo todo, nós sabemos a que tipo de cinema ele se refere, mas, na sua intemperança, ele não se incomoda em cometer generalizações.

Na verdade, o que está por trás desta birra e de outras de Holden é algo bem mais amplo, a saber, o “american way of life”, nunca assim denominado, claro, mas sempre indicado nas suas críticas irritadas ao comportamento das pessoas adultas em torno de si, especialmente dos pais e professores. No seio da sua inadaptação à escola, por exemplo, está a sua não-aceitação do ideal americano de uma vida perfeita, supostamente propiciada pelas titulações. Nada lhe parece mais nojento (“eu tenho vontade de vomitar” diz ele) do que lutar para ganhar dinheiro, e, uma vez o dinheiro ganho, se achar o tal. O sonho americano, se o sonho americano for este.

Sim, Holden é necessariamente um outsider, um marginal, um desajustado, mas isso tem limites. Até porque – não esqueçamos – não se trata de um adulto desencantado com a vida e o mundo, mas um adolescente em formação, inseguro e incerto. E este é um dos pontos altos do romance, digo, a possibilidade polifônica de distinguir autor de personagem. Vejam que, quando, no final, Phoebe se junta a ele na sua intenção de fuga, ele a repreende veementemente e sugere que ela retorne à escola. À escola da qual ele mesmo fugiu.

E para onde fugiria Holden? Na sua cabeça imprecisa, para um lugar meio idílico e distante onde teria um trabalho modesto e levaria uma vida natural e saudável, entre árvores e montanhas. Era, já em 1951, a receita da contracultura, e seguramente os baluartes desse ideário estavam no trasncendentalismo de Emerson e Thoreau, os menos “americanos” dos pensadores americanos.

Bem entendido, Emerson e Thoreau não são citados, mas Holden, com um certo elemento de contradição, cita as suas preferências literárias, onde está Fitzgerald (compreensivelmente), mas de jeito nenhum Hemingway (incompreensivelmente). De minha parte, confesso que, no passar da leitura, pensava o tempo todo no “Poema em linha reta” de Fernando Pessoa, um autor provavelmente inalcançável para Holden, e mesmo para Salinger.

Evidentemente Holden não deve ser julgado pelos seus equívocos, ou melhor, não deve ser julgado, de modo algum, por nada. Ponto favorável para ele – se o leitor porventura insiste em “salvá-lo” – é a sua atitude para com as crianças, que ele, contrapõe de forma um tanto maniqueísta – é verdade – aos adultos, estes quase sempre ambiciosos, ardilosos e hipócritas. Uma cena típica é aquela em que entra num banheiro da escola de Phoebe e vai, enfurecido, apagando as pornografias rabiscadas nas paredes.

Esse cuidado quase obsessivo em preservar a inocência infantil é o que dá título ao livro. A frase foi retirada do poema “Coming through the rye” (“atravessando o campo de centeio”) do poeta inglês Robert Burns, especialmente de um verso, de propósito deturpado para caber na idéia meio simbólica de um campo de centeio repleto de crianças distraídas, que poderiam cair num precipício, não fosse uma mão salvadora (a dele). O verso de Burns diz “when a body meets a body” (“quando um corpo encontra um corpo”) e ele troca o verbo para poder dizer ´quando um corpo apanha um corpo´ sugerindo a idéia de salvação.

Não é que as crianças não tenham defeitos, e alguns são tocados no livro. Com ou sem defeitos, poucas relações afetivas são, no âmbito literário, tão comoventes quanto a de Holden e Phoebe, nunca descrita sentimentalmente, e sempre mais subentendida do que dita.

Altamente cinematográfica (Salinger que me perdoe), a cena do carrossel, no penúltimo capítulo do livro, é um achado: Phoebe girando no ar, os cabelos esvoaçantes, e Holden sentado em um banco a certa distância, debaixo do temporal, rindo de felicidade – uma felicidade inexplicável que não experimentara desde que a primeira palavra do romance foi escrita – ou seria, dita? Um momento epifânico com gosto de licença poética. Tanto é assim que achei completamente dispensável o capítulo final (seguinte a este, do corrossel), conceitual, explicativo e inútil.

Em que pese à espontaneidade da escrita, Salinger aqui e acolá oferece pistas para o entendimento do seu fazer literário.

Na escola onde Holden estuda há uma prática de sala de aula que o adolescente abomina e que consiste em, sob as ordens do professor, fazer o aluno falar de um determinado assunto, previamente escolhido. Na medida em que o aluno vai falando, a turma fica atenta à sua possível fuga do tema escolhido, e quando o aluno foge desse tema, a turma inteira grita condenatoriamente: “digressão!” Ora, é relembrando esta pratica escolar odiada que Hoden faz a apologia exatamente da digressão, e esta é, digamos, a parte filosófica de sua estória, ela mesma uma longa e maravilhosa digressão.

Digressão com direito a digressões internas, como aquela pergunta frequente, que ele faz a si e aos outros, sobre o destino dos patos na lagoa do Central Park quando chega o inverno e o lago congela. Para onde vão os patos?? A resposta, que nunca aparece, seria, se aparecesse, uma digressão do mesmo tamanho da pergunta.

Prender-se a um tema único e central seria ser hegemônico, e Holden quer a periferia, a margem, o salto, o beco, o imponderável. E assim é o “seu” livro.

Um livro – me lembram – que estava nas mãos do assassino de John Lennon no momento do tiro. E daí? Estranhamente, ele também estava nas mãos do assassino no atentado ao Presidente Ronald Reagan, mas, nem uma coisa nem outra me ajuda a apreciar a sua qualidade literária e o fascínio que continua exercendo sobre o leitor, cinquenta e nove anos depois de publicado.

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