A bolha assassina

22 jun

Fico me perguntando por que será que os cinéfilos da vida – entre os quais me incluo – gostam de rever essa “droga” de filme que é “A bolha assassina” (“The blob”, 1958, de Irwin Yeaworth). Todo mundo concorda em que o filme é ridiculamente mal feito, e, no entanto, com certo prazer masoquista injustificado, a gente se diverte em revê-lo. Serão as razões por acaso nostálgicas?

Na época, final dos anos cinqüenta, o filme fez um relativo sucesso de público, e me recordo bem o quanto ele foi comentado e como perdurou no imaginário popular. Na noite em que o viu, uma parenta minha não conseguiu dormir sem antes enfiar toalhas por debaixo da porta do quarto, para a bolha não entrar. Com um sorriso envergonhado, ainda hoje ela conta o caso para quem quiser ouvir.

Hoje em dia “A bolha” não faz medo nem a criancinhas que, ao contrário, devem rir dele com seus manjados efeitos nada especiais.

Em linhas gerais, o enredo é o seguinte.

Numa noite quente, em uma pequena cidade americana, dois namorados avistam um meteoro cair e provocar uma explosão. Ao tentar aproximar-se do local, deparam-se com um velho cuja mão está tomada por uma matéria pastosa que lhe corrói a carne. Essa gosma avermelhada fora trazida do céu pelo suposto meteoro e passara para o braço do idoso quando ele tocou no troço. Pois esse protoplasma vindo do espaço devora pessoas inteiras e cresce na medida direta em que o faz.

O resto da estória é, literalmente, um crescendo: a bolha vai devorando cada vez mais gente e aumentando de tamanho até tornar-se uma calamidade pública.

Numa época em que adolescentes em destaque eram coisa rara em Hollywood, um dado particular no filme é o papel da juventude. Se a primeira vítima da bolha fora um velho, quem se destaca no seu combate são os jovens da cidade, que se unem para convencer a população e a polícia do perigo e ajudar no combate. Esses jovens têm um líder, aquele primeiro a avistar o meteoro, papel dado a ninguém menos que Steve McQueen, em seu primeiro desempenho de protagonista, num tempo em que ainda se assinava “Steven” – com um “n” final. Pois bem, parte do enredo contrapõe os jovens – cientes dos perigos da bolha – e a população madura – de início, descrentes e achando que tudo não passava de mais uma brincadeira de adolescentes irresponsáveis e inconseqüentes.

Tal contraste actancial se torna interessante quando se considera que “A bolha assassina” é normalmente enquadrado pela crítica naquela categoria de filmes alegóricos sobre a guerra fria, filmes que vestiam o comunismo soviético temido pelos americanos, com uma roupagem alienígena. Ora, se esse simbolismo político valer, não deixa de ser intrigante o fato de que os jovens – normalmente pessoas mais abertas que os adultos – seriam os primeiros a detectar e combater o perigo.

Outro dado curioso, para efeito de interpretação, é o fato de que o único antídoto para a bolha seja justamente o frio, tanto é assim que, isso descoberto, ela é enviada ao Pólo Norte, onde deve perecer e desaparecer.

Revisando o filme, a crítica francesa acha que o diretor Irwin Yeaworth possui razões – quais seriam? – para não cair no esquecimento, mas, a verdade é que caiu, mesmo no seu país, e hoje ninguém lembra mais dele, a não ser como o autor de filmes de baixo orçamento (“A bolha” custou apenas 250 mil dólares, uma ninharia, mesmo para a época) cuja independência dos estúdios não significou necessariamente genialidade, como é o caso, por exemplo, do “Vampiros de almas” de Don Siegel (1956), outro filme da época sobre alienígenas com possível simbolismo político.

A própria crítica americana adora adjetivar “A bolha” com aqueles epítetos maldosos que começam pela mesma letra: “cheesy”, “corny”, “campy”, o que pode ser resumido num termo português, por coincidência também com a letra “c”: “cafona”.

Pois é, nada mais brega do que “A bolha assassina” e, no entanto, porque será que gostei tanto de rever o seu colorido exagerado quando o TCM o exibiu a semana passada?

Não passo de um masoquista inveterado, ou existiria pertinência na avaliação revisionista da crítica francesa? A pensar.

 

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