Quanto mais bastidores melhor

26 jun

João Batista de Brito

Ainda não foi editado no Brasil, mas suponho que não deve demorar, o livro que o ator Tony Curtis – hoje com 85 anos – recentemente publicou sobre os bastidores das filmagens de “Quanto mais quente melhor” (“Some like it hot”, Billy Wilder, 1959), essa comédia farsesca e picante que hoje é considerada uma das obras primas do gênero.

Lançado o ano passado nos Estados Unidos e este ano na França, o livro dá uma idéia bem clara de como funcionava, por dentro, a máquina hollywoodiana na era clássica, com todos os seus pecados e com todas as suas virtudes.

Em tom de auto-biografia, Tony Curtis conta trechos de sua pobre e dolorida infância, adolescência e começo de carreira, para chegar ao que mais interessa: como entrou no projeto de “Quanto mais quente melhor”, realizando seu sonho de trabalhar com um cineasta do quilate de Billy Wilder, para, só depois disso, se tornar o astro que sempre quis ser. O livro centra-se, porém, na figura de Marilyn Monroe e traz revelações que, cinqüenta anos depois e apesar de privadas, passam a ser históricas.

A mais espetacular dessas revelações diz respeito ao caso amoroso entre Tony e Marilyn, ele na ocasião casado com a atriz Janet Leigh, e ela, com o dramaturgo Arthur Miller. É que algumas semanas antes do projeto de Billy Wilder, os dois – estando os respectivos cônjuges ausentes – encontraram-se meio por acaso e iniciaram uma amizade colorida, sem saber que iriam estar, brevemente, no mesmo set, rodando o mesmo filme, e pior, em papel de casal apaixonado.

No set de “Quanto mais quente” fizeram o possível para esconder de todos a breve e fortuita aventura amorosa que haviam tido três semanas atrás, embora na cena “mais quente” do filme – aquela no iate – Tony confesse que teve uma incontrolável ereção no momento do beijo, e, debruçada sobre ele, Marilyn sentiu e gostou, e todo mundo em torno notou. Apesar dessa ereção indiscreta, tudo teria ficado no nível do segredo a dois, se a fortuita aventura amorosa de antes não tivesse deixado um fruto; sim, se Marilyn não tivesse se descoberto grávida, e não tivesse, incompreensivelmente, contado ao marido todo o caso pregresso com Tony, afirmando inclusive que o filho não era dele, do marido, e sim de Tony.

Narrada no livro com extrema franqueza, a cena em que o trio – marido, mulher e ex-amante -, entre insultos e berros, discute o problema dentro do camarim da atriz é, podem crer, digna de um outro filme. Quem imaginaria o eminente escritor Arthur Miller exigindo do ator Tony Curtis que se desculpasse por ter transado com a sua esposa, Marilyn Monroe?

Claro que esse sub-enredo melodramático e verídico atrapalhou as filmagens e, a partir de então, Marilyn passou a dar mais trabalho à produção do que já dava, sempre deu. Seus atrasos ficaram mais longos e suas falhas de interpretação passaram a ser mais constantes. Uma cena simples, como aquela em que o seu personagem, Sugar, tudo que tinha que fazer era entrar nos aposentos dos dois travestis, Daphne (Jack Lemmon) e Josephine (Tony Curtis), e perguntar diretamente: “Onde está esse whisky?” ao invés dos poucos takes esperados, teve, por causa dos infindáveis erros da atriz, oitenta e uma tomadas, o que deu ao diretor Billy Wilder dores de estômago e problemas na coluna. Esses atropelos se repetiram até o final do filme, que se concluiu com um infernal clima de hostilidade entre a atriz e o cineasta, tornado público por uma imprensa maldosa.

Dias após o término das filmagens, Marilyn – para a sorte de Tony Curtis (palavras dele!) – abortou, e, junto com o marido Arthur Miller culpou Billy Wilder pelo ocorrido, alegando que o cineasta a obrigara a esforços incompatíveis com seu estado de saúde. Tudo mentira e exagero maldoso, segundo Tony Curtis.

O relato dos bastidores das filmagens pode ser o lado mais curioso no livro de Tony Curtis, mas, atenção, desse relato fazem parte coisas mais pertinentes para o estudioso de cinema, por exemplo, dados preciosos sobre o processo de criação de Billy Wilder e seu parceiro I.A.L. Diamond: como os dois escreviam o roteiro na medida em que filmavam e como chegavam aos lances mais originais trocando idéias sobre o trabalho.

A bolação da famosa frase final (“Nobody is perfect” – lembram?) é um exemplo que vem ao caso. No roteiro original era Daphne quem a pronunciava, respondendo uma pergunta óbvia de Josephine, num momento em que estavam a sós no hotel de Miami. Depois de muito debate entre os dois roteiristas e – pasmem! – com alguma relutância de Billy Wilder, é que a frase foi parar no desenlace, agora saindo da boca do velhinho milionário que quer, a todo custo, desposar essa impetuosa Daphne (Jack Lemmon travestido de mulher), com quem arrasara dançando “La cumpacita”. Diz ele, ao ficar sabendo que sua noiva é um homem: “Ninguém é perfeito”.

Um tópico interessante é a discussão, por parte de Tony Curtis, sobre o ato de interpretar no cinema. Ele mesmo confessa que assumiu imitar Cary Grant, seu ídolo maior – o que a crítica notou, mas o próprio Grant, não: ao saber do intento de imitação, ele, embora grato pela homenagem, teria dito que não falava daquele jeito.

Discutida mais a fundo é a interpretação de Marilyn Monroe. Embora amplamente reconhecida por todos como grande atriz, naturalmente dotada, a sua patológica insegurança a fez apelar para o pessoal do Actors Studio, que, a contragosto da produção, a acompanhava o tempo inteiro durante as filmagens, como se ela não passasse de uma iniciante precisando de constante orientação, e essa orientação seria o rigoroso “método” da famosa escola de atores – mais um ponto de atrito entre ela e Billy Wilder. Do problema diz Wilder (cito): “Antes do Actors Studio, Marilyn era como um competente equilibrista que anda na corda bamba sem consciência do precipício debaixo de si. Depois que a turma do Actors Studio se ocupou dela, Marilyn só pensa numa coisa: o precipício”.

Tony Curtis fecha o livro com as reações a “Quanto mais quente melhor”, da crítica e do público, de uma maneira geral, progressivamente favoráveis. De minha parte, gostei de saber da recepção delirante que o filme teve na URSS, país que Tony visitou em 1963, para a estréia local: a sua descrição dos comunistas se desmanchando em desbragadas gargalhadas diante de uma farsesca comédia capitalista me fez pensar em outra “farsa”, a guerra fria. Ironicamente, nos capitalistas Estados Unidos o filme, ainda que bem aceito pelo público pagante, teve problemas de recepção: a Liga Católica não lhe aprovou o “homossexualismo implícito” e ele foi proibido em pelo menos dois Estados, Kansas e Tennessee – o que, ademais, só lhe serviu de “publicidade”. Ao ler isso, lembrei-me que assisti a “Quanto mais quente melhor” no católico Cine Sto Antônio, que – detalhe – pertencia à Igreja do Rosário, em Jaguaribe.

Enfim, dos meus princípios críticos nunca fez parte a ingerência na biografia, porém, no caso presente, ela está tão presa à realização do filme e seu resultado que dá vontade de contrariar o princípio e declarar que “quanto mais bastidores melhor”.

Em tempo: a edição do livro a que tive acesso foi a francesa (“Certains l´aiment chaud et Marilyn”, Éditions du Rocher, 2010), presente que me foi trazido de Paris pelo querido amigo Humberto Espínola, a quem aproveito para dedicar esta matéria.

 

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