Nada pode dar errado

1 jul

“Se você viu uma, viu todas” é o que diz das películas cinematográficas a petulante personagem de Debbie Reynolds em cena inicial de “Cantando na Chuva” (1952), filme este que, aliás, prova que ela estava errada.

Pois a frasezinha maldosa me vem à mente a propósito de um cineasta contemporâneo, Woody Allen. Primeiro, porque já escutei-a várias vezes em referência a sua filmografia, e segundo, porque, de alguma maneira, a observação faz sentido.

Vejam o caso deste seu (por enquanto) último filme “Tudo pode dar certo” (“Whatever works”, 2009), que esteve há pouco em cartaz na cidade. Nele, de fato, nada dá errado, salvo o fato de ser, previsivelmente, – como diriam os de má vontade – “mais um filme de Woody Allen”. Com efeito, nele estão todas as por demais conhecidas obsessões do cineasta, as temáticas e as formais, tudo arrumadinho de uma maneira assumida, como se a dizer aos espectadores: isto é Woody Allen e não esperem outra coisa.

Isso é bom, ou é ruim? Pois é, o problema é que esse entrópico e desesperado universozinho vicioso de Woody Allen é tão sofisticado, inteligente e inevitavelmente engraçado, que o espectador não se incomoda com as suas redundâncias e, ao contrário, chafurda em cima delas e, se for o caso, até quer mais.

Embora um pouco mais rabugento que de costume na galeria de personagens do cineasta, o protagonista, Boris Yellnikof, é um sessentão misantropo, hipocondríaco e paranóico que supersticiosamente canta “happy birthday to you” toda vez que lava as mãos, para poder afastar as bactérias; um tipo maldizente que manca de uma perna por conta de uma truculenta tentativa de suicídio, que, aliás, ele repetirá no final do filme. O seu nível de misantropia fica evidente, por exemplo, nas aulas de xadrez que ministra a crianças, que sempre terminam sendo agredidas por ele.

Com a fama de haver concorrido ao prêmio Nobel de Física, Boris está o tempo todo explicando a sua superior visão da vida e do mundo. Lugar vazio, escuro e extremamente violento, o universo é habitado por vermes rastejantes, vítimas inconscientes do acaso. Só os altos Q.I.s, como ele, compreendem essas verdades e, assim se dão ao supremo privilégio de serem intransigentemente infelizes.

De bom no mundo, só a criação dos gênios, e aí, o filme redunda em citações de toda uma gama de obras e artistas, citações estas que podem estar explícitas nos diálogos dos personagens, ou escondidas em trilhas sonoras ou tomadas não tão óbvias, que vão de Shakespeare a Fred Astaire, de Michelangelo ao cinema japonês, de Bernard Shaw a Orson Welles, de Beethoven a “E o vento levou…”, de Frank Capra a Joseph Conrad, da Bíblia a Faulkner… “O horror, o horror, dizia o Kurtz de “No coração das trevas”, comenta Boris e completa, fazendo a obsessiva pregação do seu inveterado pessimismo: “imaginem se ele visse o nosso mundo de hoje”.

E onde fica o amor nesse mundo? A resposta está no título do filme, “Whatever works”, ou seja, “o que quer que funcione”. Em outras palavras, no terreno amoroso, desista da idéia extravagante e utópica do grande amor, profundo e eterno, e se conforme com qualquer coisa que dê certo.

Por essas e outras, divorciado, Boris não quer mais saber de amores. Não quer até que (viva o acaso!) conhece e, a contragosto, acolhe essa ingênua mocinha, Melody, que vem fugida do Interior – Éden, Mississipi -, com quem passa a viver sob o mesmo teto, e com quem termina casando. Embora nada genial (e Boris lhe joga isso na cara o tempo todo), Melody aprende logo o existencialismo desesperado de Boris e sua dedicação passa a ser um lenitivo para as constantes crises de pânico dele. Numa delas, Melody liga a televisão que, por coincidência, está mostrando Fred Astaire e Boris se acalma. Noutra, ela põe uma música no micro-system e Boris recorda o primeiro encontro com a sua ex-esposa que, palavras dele, “tinha o QI lá em cima, e o decote lá embaixo”.

Na medida em que vão aparecendo os parentes de Melody – primeiro, a mãe, Marietta, depois o pai, John Celestine – a estória vai dando reviravoltas, e o desenlace resulta diferente para todo mundo. A propósito desse desenlace, vale observar o pau que Boris dá no filme de Frank Capra, “A felicidade não se compra” (´aquela porcaria que nos fazem engolir, todo Natal`), chegando a deturpá-lo no seu resumo, onde inclui um incêndio, provocado por um cigarro de James Stewart. Isto tudo para poder fazer o filme a que assistimos terminar de modo capriano, com um final feliz para todos, no que o acaso (como se sabe, tema central, não apenas em Boris, mas também em Woody Allen) ajuda: Melody encontra o grande amor em sua faixa etária, a mãe, se revela grande fotógrafa, o pai descobre sua real opção sexual, e a segunda tentativa de suicídio de Boris lhe dá uma namorada acidentada de presente, e a película (viva Capra!) se conclui, em noite de fim de ano, ao som – juro – da mesma romântica trilha sonora de “A felicidade não se compra”.

Sem ser propriamente novidade em Allen, o lance mais curioso e engraçado no filme é o fato de o protagonista possuir o dom meio sobrenatural de dirigir-se à câmera e falar com os espectadores – o que é entendido pelos outros personagens como pura maluquice. Uma vez que nenhum dos outros personagens possui esse dom, e todos o censuram quando que ele faz isso, como se se tratasse de um problema mental, o lance não resulta brechtiano, ou alguma coisa do tipo: apenas por um instante, nós espectadores experimentamos a estranha e metafísica sensação de fazer parte da diegese, ou seja, de estar dentro do universo ficcional que o filme cria. E é claro que nos lembramos, então, de “A rosa púrpura do Cairo” (1986).

No final, quando Boris se afasta dos amigos que celebram a passagem de Ano Novo e se dirige à câmera para conversar com a gente, e os presentes, indignados, o censuram por essa idiotice, ele conclui que “I´m the only one who sees the whole picture” (´eu sou o único que vê o filme por inteiro´). A frase já havia sido pronunciada em outras ocasiões – inclusive, por Melody – mas aqui o duplo sentido de “picture” (´situação´ e ´filme´) permite Boris deduzir, orgulhosamente: “é isso que se chama ser gênio”.

Dizem as más línguas que a qualidade em Allen deu uma melhorada com o seu passeio revigorante pela Europa (Vide: “Match Point” e “Vicky Christina Barcelona”…). Pode ser. O fato é que, nietzschiano retorno a sua eterna e meio mítica Nova Iorque de sempre, este “Tudo pode dar certo” é a filmagem retardatária de um velho projeto dos anos setenta, concebido com muito carinho para o grande Zero Mostel e engavetado depois da morte do comediante.

Pessoalmente, gostei de ver o impagável Larry David (do seriado televisivo “Segura a onda”) no papel que teria sido de Mostel. Evan Rachel Wood faz muito bem Melody, a mocinha interiorana que descobre as maravilhas novaiorquinas. A veterana Patrícia Clarkson é a sua mãe, Marietta, ex-dona de casa obediente que agora se libera e descobre, entre outras coisas mais profissionais, as delícias da promiscuidade erótica. E Ed Begley Jr é o pai, John Celestine, que, pela lógica do título original do filme, já explicada, sai do armário para abraçar uma latência gay que sempre temera. Sim, o ator é filho do grande e clássico Ed Begley, de quem lembramos em obras fundamentais como “Doze homens e uma sentença” (1957), “Homens em fúria” (1959) e “Doce pássaro da juventude” (1962).

Enfim, confesso que me diverti um bocado com este “Tudo pode dar certo”, a que assisti conformado em estar vendo apenas “mais um filme de Woody Allen”. E nada mais.

 

Anúncios

Uma resposta to “Nada pode dar errado”

  1. Glória novembro 28, 2011 às 9:09 pm #

    Aqui vale a minha máxima: Woody Allen é como sexo, mesmo ruim, ainda é bom!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: