A tela por quadro-negro

26 jul

Houve um tempo em que se acreditou que os meios eletrônicos matariam o cinema. Com o passar das décadas, e paulatinamente, foi se percebendo que o pacote televisão mais vídeo (e, hoje, dvd e computador) estava, curiosamente, exercendo o efeito de, a médio prazo, estimular a cinefilia, em tal nível a ponto de convencer o espectador a retornar à sala de cinema, agora, por sua vez, mais atraente na sua forma modernizada de multiplex.

Outro benefício da eletrônica foi tornar o cinema manuseável, algo inconcebível nos velhos tempos em que a película era o único suporte conhecido.

De repente, o espectador podia ver os filmes que quisesse em casa; podia possuí-los num acervo pessoal, e podia mostrá-los onde quisesse. E esses filmes não eram somente as estréias do momento, mas também, os velhos clássicos do passado que os proprietários das companhias exibidoras de sua cidade, por razões comerciais, jamais se disporiam a reprisar.

Essa possibilidade de manuseio e revisão era tudo com que sonhavam os cinéfilos de plantão, mas, o mais relevante, do ponto de vista sociológico, é que ela reacendeu o interesse pela arte cinematográfica, não apenas no especialista, mas também em toda uma camada “adormecida” de espectadores comuns.

Para dar um testemunho pessoal, participo de dois ou três grupos de pessoas apaixonadas por cinema, espectadores comuns que, periódica e sistematicamente, assistem a filmes e os discutem, sempre em grupo, com a seriedade e o respeito à arte cinematográfica que eu só conhecia nos velhos cineclubes de antanho.

Além disso, profissionais de várias áreas começaram a estabelecer relações entre o seu métier e o que certos filmes mostravam, principalmente quando os assuntos dos filmes vistos recobriam de alguma forma essas profissões, sem contar com o fato de que esses filmes podiam ser vistos e discutidos em reuniões, seminários, congressos, etc.

Pois bem, uma das profissões mais atraídas pelo cinema tem sido a do educador. Afinal de contas, não há disciplina escolar que a filmografia do mundo, ficcional ou documental — pouco importa — não recubra, e isso tem incentivado o emprego do filme na sala da aula, de uma forma visivelmente crescente. Hoje em dia, cada vez mais, escolas, colégios e universidades fazem uso do filme como um recurso didático, motivador do processo ensino-aprendizagem.

Mas, como não há vantagem sem conseqüências colaterais, esse uso pode implicar problemas. Por exemplo: sendo o cinema uma arte de linguagem específica, não seria perigoso (no sentido de reducionista) o seu emprego para fins exclusivamente didáticos? Os alunos não estariam aprendendo a lição do currículo escolar, mas desaprendendo cinema? Sem um domínio da linguagem cinematográfica, o professor não estaria correndo o risco de fazer deturpações e criar equívocos? Além disso, o uso do filme na sala da aula supõe problemas de ordem prática (a duração do filme versus a duração da aula), ou mesmo ética, como, digamos, expor uma classe de adolescentes a cenas eróticas que porventura o filme contenha.

Questões dessa e de outras ordens estão no livro Como usar o cinema em sala de aula (Contexto, 2003), de Marcos Napolitano, com certeza de grande interesse para professores que gostem de cinema e que acreditem no rendimento de seu emprego pedagógico.

Escrito com simplicidade, clareza e bom senso, o livro investiga as várias possibilidades do uso do cinema em classe, sistematizando problemas, procedimentos possíveis e vantagens, com a consciência de quem está adentrando uma atividade nova, e por isso mesmo, cheia de fascínios e perigos.

Descartando, de chofre, a idéia de que o emprego do filme em sala da aula possa ser entendido como a “salvação da escola”, Napolitano aponta para o rendimento desse emprego em vários níveis, com a grande vantagem de que o faz a partir de experiência própria.

Depois de uma contextualização, onde se levantam os problemas e as possibilidades do uso do filme na sala da aula, o autor faz uma apresentação, resumida mas didática, dos elementos de linguagem cinematográfica, acompanhada de uma pequena história do cinema.  Em seguida, propõe um planejamento de atividades e procedimentos básicos, dividindo-os em três categorias: (1) por disciplinas, (2) por temas e (3) por técnica e\ou linguagem.

Inclui ainda as fichas técnicas dos filmes citados nas atividades, e, para o professor leigo em cinema, um providencial glossário de termos cinematográficos. Há ainda um anexo com informações de apoio ao professor, contendo os endereços das instituições onde conseguir fontes videográficas e escritas, e um outro, com um “roteiro de avaliação fílmica”, proposta do autor. A bibliografia está dividida nos tópicos: cinema na escola; obras de introdução ao cinema; obras de apoio e referência; história e linguagem do cinema (aprofundamento); e finalmente, revistas e periódicos acadêmicos.

Como se percebe, um livro prático e útil, com todas as conveniências, e eventuais inconveniências, de qualquer obra de auto-ajuda.

De minha parte, senti falta da sugestão de um emprego mais amplo do cinema na escola. Basicamente interessado em cinema dentro da sala da aula, Napolitano não cogita, em seu livro, de um tipo de atividade para-didática em que, numa sala especial (e não necessariamente em classe!), os filmes fossem mostrados aos alunos enquanto filmes mesmo, sem ilustrar disciplinas e temas curriculares, uma atividade em que o cinema deixaria de ser coadjuvante, para ser o protagonista.

Em outras palavras, a retomada dos antigos cineclubes. Por que não?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: