Um filme é só um filme

28 jul

Um consenso entre os estudiosos da linguagem é que cada modalidade de arte tem a sua própria especificidade. No entanto, a coisa já não fica tão consensual no momento seguinte: o de conceituar as respectivas especificidades. O que faz da pintura, pintura? Em literatura, o que é exatamente “literariedade”?

No caso particular do cinema, não tenho dúvidas de que o caminho para a busca da especificidade não pode descartar o elemento da recepção – ou seja, o estudo das relações dos espectadores com os filmes. Na literatura ou na pintura, até seria possível separar obra de consumo, no cinema, nunca.

É que nas outras artes, o público consumidor vem depois; no cinema, não: o público vem na frente. Se isso é bom ou ruim, ninguém sabe, pelo menos ao certo, não.

Mas o resultado disso é que o cinema – digo, o historicamente consumado e consumido – é uma arte eminentemente diegética.

Gostaria de não usar aqui termos teóricos, porém, infelizmente, não vou conseguir me aproximar de um conceito de especificidade cinematográfica sem a básica e imprescindível noção de diegese, termo que designa tão somente o universo ficcional construído pelo filme, paralelo e semelhante ao universo real do espectador.

Essa semelhança entre diegese e universo real é fundamental no cinema, pois o filme, ao contrário de outros objetos artísticos, investe no reconhecimento e na identificação.

Neste sentido pode se dizer que, ao contrário das outras artes, o cinema é eminentemente representacional. A pintura, por exemplo, pode se dar ao luxo de ser abstrata, o cinema, nunca. Ao se ver uma imagem na tela cinematográfica, essa imagem precisa corresponder a uma imagem real. Eventualmente ela pode estar revestida de simbolismo, mas será sempre identificável como algo verídico.

Só que o trabalho do filme não é apenas o de construir um universo semelhante ao real; ele também conta uma estória, com começo, meio e fim, ou seja, é narrativo, e, baseada em fatos reais ou não, essa estória é sempre ficcional.

Representacional, narrativo e ficcional, o que o filme faz a rigor é, processualmente, isto é, em etapas consecutivas, fornecer e/ou sonegar informação diegética, geralmente de forma estratégica, para a consecução de um determinado efeito.

Seja qual for o efeito (trágico, cômico, épico, satírico, etc), o importante é que o filme propicia a identificação do espectador, sem a qual não haverá efeito estético, ou de qualquer outra ordem.

Não existe proposta estética mais avessa ao cinema do que a do chamado “distanciamento brechtiano”. Funcionando muito bem nas outras artes, – no teatro, por exemplo – essa proposta vai contra a natureza mesma do cinema e, nele, só pode funcionar enquanto experimento, acidental e sempre esquecível. Um “cinema do distanciamento” não  passaria de um contra-senso irrealizável.

O que não quer dizer que o trabalho do filme descarte completamente o distanciamento. O objetivo deste ensaio é demonstrar como, no filme, a diegese prevalece sobre o distanciamento.

 

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