Rútila estrela

3 ago

“Enormes e diáfanos símbolos de uma grande estória de amor” (´huge cloudy symbols of a high romance´). O verso é do poeta romântico inglês John Keats (1795-1821), mas está num local prosaico e vulgar: a revista de palavras cruzadas desse fleumático e bem-comportado senhor, e, de propósito, incompleto, sem o último termo. Quem lhe decifra o enigma é a esposa, completando o verso com a palavra ´romance´, mas, atenção, o incidente não é nada gratuito: romance é o que falta na vida desse maridão acomodado, e justamente o que não falta na vida dessa esposa infeliz, tragicamente apaixonada fora do casamento.

A cena está no hoje clássico melodrama de David Lean, “Desencanto” (1945), mas, claro, a presença da poesia de Keats no cinema é mais ampla.

Pois quem acaba de dedicar ao poeta de “Hyperion” um filme inteiro é a cineasta neozelandesa-australiana Jane Campion, de quem quase não ouvíamos falar desde o seu perturbador e badalado “O piano” (1995).

Com o título de um dos sonetos de Keats, “Bright Star” (`Rútila Estrela`, no Brasil: “Brilho de uma paixão”), o filme conta uma fase da vida do grande poeta romântico, quando era pensionista na mansão dos Brawne, e se apaixona pela filha da senhoria, a jovem Fanny.

De início, o casal não se entende e até se antipatiza: dedicada à moda, Fanny não é afeita à poesia; entregue à literatura, Keats é avesso à moda e ao que ela implica de etiquetas, pompas e frivolidades. Aos poucos as divergências vão dando lugar a uma amizade que, rapidinho, vira – como mantém o título brasileiro do filme – paixão.

Um poeta romântico vivendo um grande caso de amor, isso deve ser algo avassalador. Bem, no filme de Campion, nem tanto: quase rotineiro, o roteiro não tem a “tempestade e fúria” esperadas e, com ritmo linear, disciplina imperturbável, reconstituição de época detalhada e muita citação literária, narra a estória de uma forma que, para o espectador não interessado em literatura, pode soar monótona.

Para quem conhece a poesia de John Keats, no entanto, o filme é uma dádiva. Diríamos que, assim como Fanny costura os seus tecidos (lembram que o primeiro presente ao amante é um bordado para travesseiro?), o roteiro costura as cenas com e a partir de palavras poéticas, ao longo do filme inteiro. Sim, sem se importar muito com verossimilhança ou fidelidade biográfica, a narração intromete poesia em tudo, mas, o faz sempre com um sentido inventivo e tocante propriedade. Cito alguns exemplos.

Dias depois da morte do irmão mais novo, instado a recitar poesia na sala de visitas dos Brawne, Keats o faz com o soneto que começa “When I have fears… (“Quando temo…”, o mesmo do filme de Lean), mas não  conclui: após o segundo quarteto, pára e o espectador que conhece o poema sabe por quê: no dístico final está o anúncio de sua própria morte.

Numa cena de amor em que o casal, superadas as iniciais divergências, celebra o gosto comum pela poesia, Keats e Fanny, os dois juntos, se revezam na recitação de um dos poemas mais imaginativos do poeta, o famoso, belo e misterioso “La belle dame sans merci” (´a bela dama sem piedade´), com seu final infeliz, talvez um índice do destino do poeta.

Depois da notícia recebida do falecimento do poeta em Roma, vemos uma Fanny desesperada, arrastar-se pelos mesmos campos que antes palmilhara ao lado do amado, agora verbalizando exatamente o poema que fora especialmente escrito para ela, o “Bright star” que, como visto, denomina o filme de Campion. No texto, o poeta gostaria de ser a ´rútila estrela´ que, soberana e eterna, ilumina mares, montanhas e pântanos, para poder, como ela, iluminar para sempre os seios da mulher amada, fazer só isso, e, se não  for isso, melhor morrer.

Isto tudo para não esquecer que, ainda no começo do filme, a primeira indicação de que Keats e Fanny se envolverão é, aliás, sintomaticamente, o famoso verso “a thing of beauty is a joy forever” (´uma coisa bela é um prazer eterno´), por ela jogado na cara dele para dar a entender que lera o seu “Endymion”, comprado, então, na livraria da esquina, por mera curiosidade – segundo a irmã menor de Fanny – “para saber se Keats era idiota ou não.”

E vejam que a recitação poética se estende até à exposição dos créditos finais, esta toda ao som de um dos mais celebrados poemas de Keats, o mesmérico e encantador “Ode to a nightingale” (“Ode a um rouxinol”)

Nenhum desses trechos poéticos, ou se for o caso, poemas completos, é, no filme, identificado pelo título, o que dificulta mais ainda a situação do espectador não–familiarizado com o assunto. Mas, ora, para esse espectador uma questão antecede o problema das citações, e a questão é: quem foi John Keats?

O filme de Campion nos mostra um Keats doméstico, privado, isolado, mas, na verdade, a sua obra era o eco, ao mesmo tempo passivo e ativo, de um grande movimento artístico que eclodiu, na Inglaterra, nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX – o já referido Romantismo. Era uma reação ao racionalismo da Idade das Luzes, mas também à industrialização nascente – daí a sua ênfase em duas coisas diferentes: a emoção e a Natureza. Em cena do filme em que Fanny, tentando entender poesia, toma aulas particulares com Keats, este se apressa em afirmar que “a poesia surge como folhas às árvores, e, se assim não for, melhor não surgir.” É o preceito da espontaneidade, já formulado pelo pai do movimento, William Wordsworth, que, antes de Keats, definira a poesia como “a spontaneous overflow of powerful feeling” / “explosão espontânea de poderosa emoção”.

Historicamente falando, a primeira manifestação romântica do mundo literário aconteceu em 1798, quando Wordsworth publicou o seu “Lyrical Ballads”. Depois disso, a fonte romântica não parou mais de jorrar, pelo menos até que as coisas voltassem a se acalmar com a chegada da pachorrenta Era Vitoriana. Na Inglaterra houve duas gerações de poetas românticos, com uma curiosidade: não uma seguindo a outra no tempo, mas uma dentro da outra. Nascidos em torno dos anos 1770, Wordsworth e Coleridge formaram a primeira geração, a qual viu nascer e morrer a segunda, formada pelo trio Byron, Shelley e Keats, poetas de vida breve, falecendo, todos, bem antes dos seus antecessores poéticos.

Ao falecer, em 1821, aos vinte e seis anos de idade, da mesma tuberculose que matara o irmão mais novo, Keats nem sonhava em ver o seu trabalho literário reconhecido. Ou se sonhava, não viu. Depois da sua morte, a sua obra é descoberta pelos contemporâneos e, desde então, seu nome consta como um dos poetas mais importantes, não apenas dentro do romantismo inglês, mas, em todos os tempos e em todos os lugares. Mesmo enquadrada no modelo romântico, a sua poesia se destaca pela condensação original de três elementos distintos: o forte sensualismo, a profunda reflexão filosófica e a extensiva imaginação clássica.

Enfim, é do dado da importância dessa poesia que o espectador precisa, para apreciar “Brilho de uma paixão”.

Pois bem, preocupado com o espectador eventualmente não-familiarizado com literatura, cá comigo faço o seguinte exercício mental: rememoro o filme, tentando esquecer que conheço a poesia de John Keats e… não chego a lugar nenhum. O filme foi de fato concebido para os amantes de sua poesia e, sem isso, ele não funciona muito bem. Sem isso, ele é só – para voltar à abertura desta matéria – mais uma “estória de amor” cujos “enormes e diáfanos símbolos” se perderam em algum lugar indeterminado.

Uma trágica estória de amor como as muitas que o cinema já contou. E nada mais.

 

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