Politicamente incorreto

20 set

João Batista de Brito

Dias atrás, estava assistindo à televisão quando começou o horário gratuito para a propaganda eleitoral. Naturalmente, não aguentei muito tempo, porém, enquanto aguentei, não sei por que, ocorreu-me um devaneio.

Fiquei pensando com meus botões: e se, de repente, sem mais nem menos, um desses candidatos pirasse e, ao invés das convenientes estratégias discursivas de sempre, resolvesse dizer a verdade, digo, a verdade nua e crua, aquela que, de tão íntima, prejudicasse a sua própria eleição? E se esse candidato pirado confessasse suas motivações mais inconfessáveis, exibindo o lado ambicioso, interesseiro, mesquinho, feio, sujo de sua verdadeira personalidade?

Foi quando me lembrei que isto já aconteceu.

Infelizmente não na realidade, mas num filme. Não sei se vocês recordam ainda o último filme que Warren Beatty dirigiu, em 1998 – o título original era o nome do protagonista “Bulworth”, mas no Brasil foi re-intitulado – aliás muito apropriadamente – para “Politicamente incorreto”.

Na estória, Joe Bulworth (interpretação do próprio Beatty), esse senador democrata da Califórnia, candidato à re-eleição em 1996, entra em súbita crise existencial e decide se matar. Talvez saudoso dos Kennedy ou de Lincoln, não o fará com as próprias mãos e secretamente contrata, através de terceiros, um assassino profissional que, munido apenas de uma foto sua, lhe acertará uma bala na cabeça em algum local público. Sem conhecer o assassino, não sabe quando virá o projétil fatal, mas sabe que virá sem tardar.

Pois bem, como está com os minutos de vida contados, o senador suicida não quer mais saber de conveniências políticas, e, numa palestra em uma igreja da periferia, começa a fazer o que, maldosamente, desejei que meus candidatos brasileiros fizessem na televisão – começa a dizer a verdade nua e crua, expondo todas as sujeiras dos bastidores da política local, sobretudo as suas, isto da maneira mais cínica e direta. O que a comunidade negra ouve dele, nessa igreja, é, no mínimo, ultrajante e provoca um verdadeiro motim.

Essa linha de sinceridade chocante o candidato vai exibir nos palanques e na televisão, e o caso vira escândalo.

Há, porém, quem goste de ouvir a verdade mais dura e uma moça negra passa a demonstrar interesse por esse coroa aloucado. A partir de então, Bulworth, contraditoriamente inspirado nas comunidades negras, introduz o hip hop nas suas falas e as sujeiras políticas são agora cantadas e rimadas nesse ritmo. Além do hip hop, entram nos seus hábitos a maconha e os termos chulos, aqueles que em inglês começam com a letra F.

O problema é que o gesto de falar a dura e feia verdade sobre si mesmo, e de se comportar em público sem máscaras, dá ao senador suicida um novo alento existencial, e, de repente, ele não quer mais morrer. Não quer, mas, o plano do assassinato terceirizado está valendo e ele, sem mais contato com o contratante (por azar dele, hospitalizado e em coma) tem, agora, que viver fugindo da mira de seu desconhecido mas eficaz algoz. Fugas desembestadas que são interpretadas, pela sua equipe e por todo mundo, como mais uma das inexplicáveis pirações do senador.

O desenrolar do enredo traz algumas surpresas, mas nem tanto. Por exemplo: depois de configurada na imprensa a sua – assim entendida – nova “estratégia de campanha”, a popularidade do senador Bulworth volta a subir e, aí, os seus assessores ficam querendo que ele invista mais na “loucura”, e até o verídico Larry King o quer em seu programa televisivo. Nina (Halle Berry), a moça negra que o procura, e com quem ele mantém um flerte, não era nada inocente e, embora ela se redima no último instante, a estória não termina nada bem para o senador.

Um detalhe sobre o filme de Beatty, se bem o lembro: confessando em público que (entre outros inúmeros pecados) se aproveitava dos seus postos políticos até então assumidos para usufruir de mordomias, o protagonista está sendo, ou admitindo ser, “politicamente incorreto”, mas, atenção, o filme não o é. Muito pelo contrário.

O tema da política vista dos bastidores não é propriamente novidade no cinema americano e “Politicamente incorreto” está próximo da linhagem de filmes como “A grande ilusão” (Robert Rossen, 1949) e “O último hurra” (John Ford, 1958), mas, na verdade, o seu argumento (apesar do desenlace disfórico) traz ecos mais diretos e mesmo indisfarçáveis do cinema clássico de Frank Capra: guardadas as implicações éticas e ideológicas, a crise de consciência de uma figura pública nos lembra, inevitavelmente, o Sr Smith de “A mulher faz o homem” (1939) e o John Doe de “Adorável vagabundo” (1941), aquele primeiro um senador em crise moral, este segundo um suicida de dimensões públicas.

Mais conhecido como ator, Warren Beatty é autor de quatro filmes, todos dignos de alguma nota: “O céu pode esperar” (“Heaven can wait”), refazia, em 1978, um velho clássico cultuado; “Reds”, em 1981, contava a saga soviética do jornalista John Reed, e “Dick Tracey”, em 1990 punha na tela, talvez sem o sucesso esperado, o famoso personagem dos quadrinhos.

Enfim, para retornar ao pontapé que deu origem a esta matéria: realmente, seria exigência em excesso da minha parte, querer que os nossos candidatos às vagas de três de outubro confessassem o inconfessável. Mas é que a lembrança do filme “Politicamente incorreto” deixa a gente com o afã de devanear…

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