Prisioneiro de Ford

20 set

Se dissesse que amo John Ford estaria sendo sincero, mas não exato. É que a admiração que alimento pela sua obra é um pouco mais complexa. Se puder dizer, sinto-me rendido a ela, subjugado, dependente. Ao começar um filme seu, me vejo meio paralisado, em estado de completa submissão, e quanto mais corre a projeção mais me entrego, até um ponto em que é como se deixasse de existir, e se só o filme existisse. E ao chegar ao final, permaneço assim, inexistente, por um tempo, às vezes por horas a fio.

Foi o que se deu agora, ao ver esse seu filme de 1936, que não conhecia, a não ser de referências, “O prisioneiro da Ilha dos Tubarões”, título brasileiro que é a tradução literal de “The prisoner of Shark Island”.

Fielmente baseado em fatos históricos, o filme conta a lamentável estória do médico americano Samuel Mudd que, na noite de 15 de abril de 1865, recebeu, em sua residência, um cidadão incógnito e misterioso que lhe solicitou os serviços para o tratamento de uma perna quebrada. Como bom profissional que era, Mudd, mesmo sem conhecer a identidade do cidadão ferido, dele tratou e foi devidamente pago pelo atendimento médico.

Num tempo em que não havia sequer rádio e as notícias demoravam a chegar, o que Mudd não sabia era que, naquela mesma noite sombria, o Presidente Lincoln havia sido assassinado num camarote do Teatro Ford, e o pior, o seu acidental paciente de perna quebrada tinha sido o autor do disparo fatal. Esse trágico desconhecimento vai lhe custar muito caro e o filme inteiro é sobre esse custo.

Rastreando o percurso do assassino em fuga, a guarda nacional terminou chegando à casa do Dr Mudd, onde, por azar, a filha pequena do casal brincava, no terraço, com a bota rasgada, retirada da perna do paciente, onde constava, sim, o seu nome completo: John Wilkes Booth.

O gesto fatal de Booth era o corolário de uma conspiração de sulistas insatisfeitos com o governo de Lincoln, todos, na ocasião, desmascarados. E a suposta “cooperação” de Mudd na noite do crime foi, evidentemente, entendida como partido tomado.

Não apenas este, mas toda uma série de pequenos detalhes incriminou o médico que, quanto mais inocente se dizia, mais culpado aparentava. Por mais uma trágica coincidência, Mudd tinha origem sulista e, como muitos de seu estado, lutara na guerra de secessão como soldado confederado. O conjunto desses indícios não deixou dúvidas a uma população que, perante o cadáver do Presidente assassinado, queria vingança a todo custo.

Pressionada pela revolta popular, a Corte Suprema condenou sumariamente os insurretos à forca, e Mudd à prisão perpétua na Ilha dos Tubarões, uma famigerada penitenciária que os Estados Unidos mantinham num ponto afastado do Golfo do México.

Os protestos da esposa e do advogado de Mudd foram inúteis e uma tentativa de resgate, bolada pelo seu sogro – um velho sulista “anti-yankee” meio ensandecido – piorou’ consideravelmente a situação do prisioneiro, que, depois disso, foi jogado numa cela solitária onde vegetaria por muitos anos.

Foi preciso que uma epidemia de febre amarela assolasse o lugar para que Mudd fosse retirado da solitária, agora – único médico disponível – com a importante missão de tratar dos doentes e, se possível, debelar a epidemia. O que ele fez com uma competência e nobreza de espírito que mudaram completamente a sua imagem, não apenas na Ilha dos Tubarões, mas no país todo.

Para sorte de Mudd, e do espectador também, a estória tem um final feliz, porém, quase todo o tempo de tela é doado ao sofrimento do protagonista, vítima do desumano sistema penitenciário, de forma que, finda a projeção, o filme de Ford não é tanto lembrado pelo seu desenlace, como é pelo seu “horror e compaixão”.

Junto talvez com “O fugitivo” (Melvyn Leroy, 1932), “O prisioneiro da Ilha dos Tubarões” deve ser um dos primeiros filmes na história do cinema a descrever sistematicamente a desumanidade nas prisões americanas e imagino que deve ter servido de modelo dramático para os muitos filmes que vieram a ser feitos sobre esse “locus” nada “amoenus”, daquele tipo “Alcatraz – fuga impossível”.

Em que pese ao cenário, é um filme bem fordiano. Nele já estão todos os principais traços de estilo do cineasta, o seu ritmo célere, a sua montagem significativamente contrastiva, com muito movimento dentro do quadro, os seus toques de comédia no meio do drama, os seus personagens fortes e decididos, e, last but not least, o seu eterno tema da intriga nunca resolvida entre o Norte, liberal e inovador, e o Sul, conservador e preconceituoso.

A esse propósito, é bom conferir o contraste entre dois personagens, secundários porém emblemáticos, no filme: de um lado, o truculento e amalucado sogro de Mudd, representante do Sul, e de outro, o frio e maligno Sargento Rankin, representante do Norte. É possível sentir como aquele aperto de mão, no final, entre Rankin e Mudd, sugere a impossível “união” entre sul e norte, palavra implícita no nome do país: Estados “Unidos” da América.

Por essas e outras é que, embora não se trate de western, o espectador pode, perfeitamente, ler aqui o Ford do futuro, digo, o dos grandes faroestes das décadas seguintes, como “Paixão dos fortes” e “O homem que matou o facínora”. Sim, aqui estão, potencialmente, os ingredientes da caracterização do amargo e ambíguo Ethan (John Wayne) do magnífico “Rastros de ódio” (1956).

Um trecho do filme a que não consigo deixar de me referir é o da encenação do assassinato, forte e inesquecível. O teatro Ford (!) lotado assistindo, com o Presidente Lincoln no seu camarote especial, à comédia “Nosso primo americano”, e Booth (que era ator e conhecia o comportamento das platéias) esperando para agir no momento do riso que abafaria o som do disparo, e, depois do gesto, caindo – onde? – sintomática e ironicamente no palco, onde quebra a perna esquerda.

Produção de Darryl Zanuck no tempo em que John Ford ainda trabalhava para a Fox, o filme tem um roteiro primoroso do grande Nunnally Johnson, e no elenco, estão alguns da chamada “turma de Ford”. Warner Baxter faz o Dr Samuel Mudd, Gloria Stuart, a esposa, e Francis McDonald desempenha um Booth convincente, mas, quem impressiona mesmo é o então jovem John Carradine, no papel do vingativo sargento nortista Rankin, o principal responsável pelo calvário do prisioneiro Mudd na ilha dos tuburões.

Para voltar à abertura desta matéria, e resumindo as minhas impressões da realização artística do cineasta, posso dizer – influenciado pelo título do filme discutido – que sou um prisioneiro de Ford.

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