Na noite do passado

23 set

“Quanto mais filmes novos vejo, mais amo os antigos”, me dizia outro dia uma amiga, e ao dizer, me deixava com uma inveja danada, pois queria eu ter sido o autor da frase.

Minha ou não, a frase vai ficar ecoando no meu juízo, toda vez que eu vir, ou revir, um grande clássico de antigamente.

Ecoou agora mesmo, quando revi – título sintomático! – “Na noite do passado”, o melodrama que Mervyn LeRoy rodou para a MGM em 1942, com a bela Greer Garson e o charmoso Ronald Colman nos papéis principais.

O filme é tão “Hollywood clássica” que nem sei se o recomendaria ao pessoal jovem de hoje. Desconfio que apresentá-lo a uma platéia atual seria como querer que os nossos netos se encantassem com o charme discreto de seus tataravôs – coisa impossível, quando nem sequer com o dos avós eles se encantam mais.

“Na noite do passado” foi todo feito nos padrões técnicos, estéticos, semióticos da época e só pode ser devidamente apreciado por esses padrões. Se eles não fazem parte da “enciclopédia privada” do espectador, não adianta forçar a barra.

Como disse, nele tudo é “hollywoodiano”, só que no sentido arcaico da palavra: os enquadramentos convencionais e esperados, os cenários artificiais, a montagem obediente à narração, a iluminação fotogênica, as interpretações comovidas e comoventes, a música ilustrativa do drama, tudo feito em estúdio para endossar aquele código ´folhetim´ muito bem conhecido do espectador de então.

A começar pelo enredo e sua básica falta de verossimilhança.

Vítima dos bombardeios da I Guerra, um soldado amnésico está internado num hospital psiquiátrico em Melbridge, Inglaterra. Um dia, foge e é ajudado por uma corista de boa vontade, por quem se apaixona. Também apaixonada, a moça aceita a sua amnésia e se casam e têm um filho. Quando o soldado esquecido está começando uma carreira de escritor (?), um importante jornal de Liverpool lhe oferece um emprego. Cruzando uma rua desta cidade, antes de chegar à redação do jornal, o soldado é atropelado por um automóvel e, de súbito, recupera a memória, com um problema: não lembra mais do período mais recente, os três anos passados com a corista.

Resultado: de Liverpool retorna direto a Random, seu aristocrático lar de origem e se torna famoso como industrial e político. Dele ouvindo falar nos jornais, a ex-corista se candidata a ser sua secretária e ganha o posto, com um nome falso. Com o tempo, o patrão vai se (re)apaixonando pela secretária, sem saber que já a amou no passado. Casam-se (de novo) e, a partir daí, o filme vai narrar a difícil tarefa de uma esposa em fazer o marido lembrar um passado essencial aos dois.

A estória, evidentemente, está cheia de improbabilidades. Por exemplo: dificilmente uma pessoa desmemoriada poderia enfrentar a profissão de escritor, falha de roteiro – se isso for – curiosa de considerar, já que o filme é, sim, baseado num romance. Mas, um problema maior, de ordem científica, parece ser o seguinte: ao curar-se da amnésia, o normal não seria que o doente lembrasse de toda a sua vida pregressa, incluindo o passado recente?

Um lance de roteiro que é bem da época e do gênero: ao despedir-se da esposa e do filho bebê, em Melbridge, o ex-soldado amnésico leva consigo a chave da casa. Depois do acidente em Liverpool em que recupera a parte remota da memória, ele se indaga sobre essa chave em seu bolso e, incapaz de explicá-la, a guarda consigo. Que a guarde é normal, mas não que a traga no bolso em toda ocasião, como se, ao trocar de roupa, a repassasse de um bolso a outro, isso durante anos. No desenlace, quando, levado meio por acaso ao limiar de sua antiga residência em Melbridge, e portanto, em vias de recuperar a memória completa depois de mais de uma década passada, ele tira a chave do bolso e abre a porta, o gesto, de tão inverossímil, parece mais licença poética do que outra coisa.

Hoje essas improbabilidades parecem absurdas, mas, na época, faziam parte natural do gênero folhetinesco que os melodramas assumiam sem problemas, e que, não esqueçamos, os espectadores adoravam.

Eu pelo menos adorei o uso absurdo da chave e seu efeito no drama, a ex-corista – que seguira o marido às escondidas – gritando, lá de trás, o nome do ex-soldado – “Smithy!” – e, ele, em êxtase, respondendo com o verdadeiro nome dela: “Paula!”. Num momento eufórico assim, o espectador distraído pode nem notar, porém, o jardim da casa ainda mantém – cerca de dez a doze anos depois – as mesmíssimas flores (ramos de cerejeira, se não me engano) que, agora como antes, adornam o enquadramento como se a tela que vemos fosse um belo cartão postal. E é.

O happy end não poderia ser melhor, nem mais convincente – não no sentido realista da palavra, mas no sentido estético, poético, cinematográfico.

“Na noite do passado” (“Random havest”, no original: algo como ´colheita casual´) foi indicado a sete Oscars e não levou nenhum. De alguma maneira foi ofuscado pelo vencedor do ano, “Rosa da esperança” (“Mrs Minniver” de William Wyler), onde a mesma Greer Garson fez o papel principal, pelo qual recebeu, sim, o Oscar.

A respeito do diretor, os críticos gostam de lembrar o Mervyn LeRoy dos filmes policiais da Warner dos anos trinta, a exemplo de “O fugitivo” (1931); creio, porém, que o público recorda muito mais os seus sucessos da Metro das décadas seguintes, como: o romântico “A ponte de Waterloo” (1940), o intimista “Quatro destinos” (1949) e o épico “Quo Vadis” (1951).

Em tempo: a amiga autora da frase com que abro esta matéria é Glória Gama, professora de língua e literatura de língua inglesa na UFPB.

 

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Uma resposta to “Na noite do passado”

  1. Glória novembro 28, 2011 às 7:52 pm #

    Caríssimo Johninho,

    na qualidade de homenageada do post, quero deixar registrada toda a minha emoção ao percorrer por vários artigos do blog. Aliás, ele está lindo, um caso raro de blog que concilia beleza e conteúdo! Já estou ficando viciada, mas o melhor desse vício em particular, é que ele não tem contra-indicação, efeito colateral, ou outro mal qualquer. Ao contrário, só alimenta nossa fome de conhecimento sobre o cinema. Meus parabéns e um grande abraço!

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