Formigas fazendo trovão

29 set

Não há símbolo maior das mudanças comportamentais do século XX do que Woodstock, o hoje lendário festival de música que, no verão americano de 1969, agregou meio milhão de jovens em – como mantinha o cartaz do mega evento – “três dias de paz e música”.

Apesar do nome, o festival não aconteceu exatamente, como queriam os seus organizadores, na cidade de Woodstock – onde morava o cantor Bob Dylan – e, sim, a uns setenta quilômetros adiante, na área rural da pequena Bethel, Nova Iorque. Os residentes da cidade de Woodstock não aprovaram a realização do festival nos seus domínios, e nada teria acontecido se, na vizinha Bethel um jovem, tímido e inexperiente designer chamado Elliot Tiber não tivesse convencido os comerciantes locais a hospedar o evento.

Pois bem, todo o nascedouro e os bastidores do festival podem ser acompanhados no último filme do cineasta Ang Lee, “Taking Woodstock” (“Hospedando Woodstock”, no Brasil: “Aconteceu em Woodstock”, 2009).

Baseado em livro homônimo e autobiográfico de Elliot Tiber (2007), o filme recria a gênese do festival, desde o momento em que Tiber, informado da recusa dos residentes de Woodstock, liga para os organizadores lhes oferecendo os arredores de Bethel, em especial o motel que seus pais mantêm no local, supondo naturalmente que o evento não ultrapassaria cinquenta mil pessoas. O terreno dos Tiber era pantanoso e imprestável, mas em compensação a fazenda vizinha, White Lake, imediatamente alugada pelos organizadores, se prestava ao evento como uma luva, embora uma luva apertada, já que os duzentos mil cogitados pelo organizador Michael Lang dobrou imediatamente e, no final, perdeu-se o controle com as vendas de ingresso, e uma multidão a mais entrou de graça mesmo.

Mas quem estiver pensando que vai assistir a uma nova edição dos shows está enganado. A câmera de Ang Lee fica na periferia dos palcos, e nem por isso o seu filme é menos interessante. Embora fiel aos fatos no livro e bolado em estilo documental, não se trata a rigor de um documentário, nem se utilizam quaisquer metragens antigas dos registros do festival. Até porque isto já foi feito no hoje clássico filme do Michael Wadleigh, chamado exatamente (vocês lembram, não é?) “Woodstock” (1970), todo rodado in loco.

Em dado momento do festival, uma “woodstockiana” bem “era aquário”, respondendo ao uso da palavra “perspectiva” por Tiber, comenta que “são as perspectivazinhas das pessoas que nos desviam do todo, o universo, e deixam o amor de fora”.

Ora, por ironia, é isso o que faz o filme de Lee: sem deixar o amor de fora, escolhe uma perspectiva – a de Tiber e sua família – e nos desvia um pouco do todo, o festival.

Morando modestamente em Greenwich Village, onde trabalhava como designer e free-lancer, Tiber vinha todo final de semana a Bethel para ajudar os pais na administração desse Motel “El Mônaco”, decadente e em vias de ser tomado pelo Banco. Vítima de uma mãe dominadora e mesquinha e um pai molenga e covarde, Tiber tentava levar a empresa como podia. Só que era difícil agüentar a sovinice paranóica da mãe que dava lençóis sujos aos hóspedes para fazer economia de água, e ver a passividade do pai diante disso.

Até que pinta Woodstock e tudo, de súbito, se transforma. Não apenas porque a grana entra na contabilidade do Motel, mas, sobretudo, porque, para Tiber, voltando à palavra criticada de antes, a sua “perspectiva” muda. Talvez se possa dizer: de Bethel para o universo.

Se não contados os homéricos esforços para fazer o festival acontecer e, mais ainda, para lhe dar uma estrutura mínima, a sua participação em Woodstock propriamente dito quase que se limitou a mal divisar um ou outro show de longe, curtir uma noitada inaugural de LSD e escorregar na lama depois da tempestade que caiu sobre o local, e, no entanto, quando Woodstock – essa “calamidade pública”, na opinião das autoridades de Bethel – passa, Elliot Tiber não é mais o mesmo. Aprendera uma lição básica com meio milhão de companheiros desconhecidos.

“São como formigas fazendo trovão” – do alto da colina, comenta um amigo de Tiber, a propósito da multidão de jovens ouvindo música a frente deles. Os ecos desse trovão – como se sabe – ainda hoje se escutam. Outros festivais houvera, e haverá, mas só Woodstock teve a magia e a repercussão que teve.

Ainda que não se vejam os shows, o filme de Ang Lee recria muito bem a atmosfera do festival. Uma quantidade absurda de extras foi contratada para representar a multidão de hippies e simpatizantes que acorreu ao local, e, em vários momentos, a tela é partida, em dois, três ou mais partes, para dar a idéia de multiplicidade. Na verdade, o recurso básico da direção parece ser o da metonímia, cada imagem, cena ou sequencia mostrada representando um todo nunca visto, e contudo, muito bem evocado. Por exemplo, o alvoroço no motel dos Tiber e no lago vizinho, sugere todo o clima de tranqüila e saudável promiscuidade em que Woodstock parece ter decorrido.

De Tiber se diz, com propriedade, no tagline do filme, que “uma geração começou no seu quintal”. Vendo o filme de Ang Lee, a gente, mesmo adivinhando a resposta, fica com vontade de perguntar: para onde foi essa geração? Que rumo tomou?

Quarenta anos depois da proposta de contracultura de Woodstock o mundo é outro, naturalmente. Aliás, um sinal melancólico dos tempos é dado por Ang Lee quando, entrevistado sobre o filme, conta que a maior dificuldade para recrutar extras para as filmagens consistiu em que não havia mais tantos jovens desocupados assim, e, para as cenas de nudez (que são muitas no filme) não havia mais “gente com pelos pubianos”. E, convenhamos, pelos pubianos postiços seria ridículo.

Para quem não lembra, altamente prestigiado na Hollywood de hoje, o asiático Ang Lee é autor de filmes tão sensíveis e inteligentes quanto “O segredo de Brokeback Mountain” (2005), “Hulk” (2003), “O tigre e o dragão” (2000), “Razão e sensibilidade” (1995), “Comer, beber, viver” (1994) e “O banquete de casamento” (1993).

“Aconteceu em Woodstock” não veio a João Pessoa, uma pena. Estreou no Festival de Cinema de São Paulo em dezembro do ano passado, e pronto. O jeito, assim, é apelar para a selagem eletrônica ou, se for o caso, para os canais pagos.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: