“A sintomática narrativa de Constantino” – repolhos e filosofia –

1 out

Em sessão aberta no Parahyba Café, noite de 28 de setembro, o público pessoense teve a chance de ver A sintomática narrativa de Constantino, o mais recente curta-metragem de Carlos Dowling.

Com dois filmes realizados dentro de mais ou menos três anos (o outro é Funesto: uma farsa irreparável em três atos), o jovem Dowling já seria – se não fosse por outros méritos – uma revelação. Consideradas as intransponíveis dificuldades de se fazer cinema na Paraíba, esses dois títulos já constituem uma façanha, para usar o clichê, homérica, em si mesma digna de todos os encômios.

A sintomática narrativa de Constantino é um filme inquietante em vários sentidos, porém, comecemos com o contextual. Como sabido, desde Aruanda o cinema paraibano carrega uma tradição de documentarismo antropológico e social. Embora os filmes paraibanos recentes, os feitos e a fazer, assumam cada vez mais a ficção, esse “antropologismo-social” persiste. A proposta de Dowling vem, não destruir essa tradição, mas a ela acrescer novos elementos, contribuindo saudavelmente para diversificar e enriquecer uma cinematografia marcada pelo compromisso ideológico. Um desses elementos é a atitude (pós)moderna, discursiva, metalingüística, de narrar refletindo sobre o narrar.

Na verdade, o próprio Dowling é um cineasta em busca de um estilo. E aqui friso que o termo estilo, como modernamente se entende, compreende o conjunto de forma e conteúdo. Quem conhece o seu filme anterior percebe o enorme progresso ocorrido, dele para este, e pode até afirmar que Dowling não está nada longe de “definir” (o que em termos estéticos, significa “dominar”) esse estilo.

De fato, A sintomática narrativa de Constantino já tem, sim, muito desse estilo. Para resumir seu roteiro (premiado pelo MINC, que forneceu a verba para a realização), um desempregado da Bolsa de Valores decide residir dentro de um supermercado: dorme em cima dos repolhos, passa lições de moral no gerente, farra com os faxineiros, filosofa com os empregados, faz amor com uma das funcionárias, até que um dia sofre um ataque e falece: o seu corpo é levado ao setor de congelados e depois quase comprado pelos fregueses. Tudo isso, assistido num monitor da Empresa por um casal de funcionários que, no final, tece comentários críticos sobre a “narrativa”, exibida para ele e para nós.

A “narrativa” tem o comportamento estrutural de uma novela de Kafka: admitido o absurdo nuclear, tudo, a partir daí, passa a acontecer dentro da mais natural normalidade. De modo tal que essa mistura de repolho e filosofia não deve ser encarada como desordem, e sim, como a lógica do absurdo. Por isso, (um exemplo entre muitos!) um dos casuais fregueses não se espanta ao descobrir, no setor de frios, a mão congelada do cadáver de Constantino: ao invés de se alarmar, empurra-a para um lado e escolhe outro produto na maior naturalidade. Aqui, como em todo o filme, estamos naquele limbo informe entre o nonsense e a realidade, mas também, entre o escatológico e o cômico.

Bem dirigido, bem montado e bem ritmado, o filme está repleto de “achados” e o primeiro já vem nos créditos de abertura, com os títulos e nomes afixados nas embalagens dos produtos comprados. Isto para não dizer que o filme inteiro já é uma brilhante “trouvaille”. Por essas e por outras, um espetáculo plástico para ser visto e curtido muitas vezes.

O único problema que diviso em A sintomática narrativa de Constantino já vem de Funesto, que é o diálogo. Dá para perceber que o “calcanhar de Aquiles” de Dowling é a língua portuguesa. Suas falas, em que pese toda a atmosfera de absurdo assumido, soam mal, da formulação até a prosódia, e, artificiosas, prejudicam os desempenhos. Repensando o filme, a gente percebe o quanto os atores (em princípio, bem dirigidos!) rendem nas cenas sem falas, e como “caem” nos momentos do diálogo. Eu pessoalmente, depois de ver o filme, não pude evitar uma conjetura privada: que filme genial não seria este, se simplesmente fosse mudo!

Esse problema da língua está, por sinal, traído na intitulação. A “narrativa” de Constantino é “sintomática” demais, quando não precisava sê-lo. Aliás, nesse sentido toda arte já é “sintoma” (leia-se: signo). Parece que o esforço de fazer metalinguagem sobrecarregou o filme de um excesso de conceitos (Vide: as elucubrações filosóficas dos empregados) que faz – para ficarmos no campo semântico do supermercado – a mercadoria pesar demais, quando poderia, creio eu, ser mais leve.

Bem entendido, não é a filosofia o que prejudica o filme, mas a sua formulação oral, no geral, redundante. Acontece que residir num supermercado já é um gesto suficientemente filosófico, “chapliniano” eu diria, e em princípio, dispensaria explicação  verbal. (Lembram de Carlitos numa enorme Loja de Departamento em Tempos modernos?).

De qualquer forma, – como não ver? – Dowling detém talento de sobejo e a gente fica pensando o que ele ainda não vai realizar se lhe forem dadas as oportunidades que merece! Tomara que sejam!

 

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