Adaptação: um caso clássico

6 out

Numa noite qualquer de um outubro londrino, Emily Jane French é encontrada morta em sua casa, e o principal suspeito do crime é Leonard Vole, que sempre visitava essa senhora rica, embora fosse ele casado. Para piorar a situação de Vole, no seu último e recente testamento, a vítima deixara toda a sua fortuna para ele. Incriminado até o pescoço, Vole contrata o melhor advogado da cidade, o Sr Wilfrid Robarts, que, mesmo acreditando em sua inocência, quase nada pode fazer pelo réu. A situação se complica mais ainda quando a mulher de Vole decide ser testemunha, não da defesa, mas da acusação. No júri, ela confessa que Vole cometera o crime, e o processo está para ser encerrado quando uma mulher misteriosa procura o advogado, com cartas que comprometem a depoente; levadas ao julgamento, essas cartas revertem a situação e Vole é, finalmente, declarado inocente. Pronunciada a sentença, fica o perplexo advogado sabendo que a mulher misteriosa que o procurara era, na verdade, um disfarce da mulher de Vole, atriz profissional, a qual tramara tudo para poder inocentar o marido, o qual, por sua vez, era, afinal das contas, o autor do crime, agora livre e herdeiro da fortuna da vítima.

Em linhas gerais, este é o enredo de ambos, a peça de Agatha Christie, “Witness for the prosecution” (“Testemunha de acusação”, 1953) e o filme homônimo de Billy Wilder (1957).

Válida para as duas obras, esta sinopse pode passar a impressão de que se trata de uma adaptação cinematográfica completamente fiel ao texto adaptado, quando esta não é propriamente a verdade. Assim como na estória de Leonard Vole, as aparências enganam.

Cotejados de perto, peça e filme exibem um número considerável de diferenças, que aqui pretendo apontar, mas, uma há, de natureza actancial, que, no meu entender, antecede a todas e, de alguma maneira, as determina.

Com efeito, um eixo actancial que vai fazer toda a diferença entre as duas obras está na construção do personagem de Sir Wilfrid Robarts, o advogado de defesa. Na peça, ele é um profissional hábil e nada mais: todo o seu arguto trabalho vem a serviço do enredo, e, por exemplo, a figura da esposa de Vole tem até mais peso actancial que ele. No filme, ao contrário, Sir Wilfrid recebe um destaque todo especial, que por vezes nos faz esquecer os meandros da trama.

O Sir Wilfrid do filme acabara de ser hospitalizado por conta de um problema cardíaco e, em princípio, não  deveria assumir a defesa do réu num caso tão sério. Quando o avistamos pela primeira vez, ele vem do hospital, no banco traseiro do carro, ao lado de sua – imposta pelas circunstâncias – enfermeira particular, a competente e rigorosa Srta Primsoll, que nunca o largará, com seus cuidados clínicos, os seus remédios e sua eterna vigilância. Contrariando os médicos, Wilfrid assumirá o caso Vole, porém, metade da sua luta pessoal, durante o filme inteiro, é com a desagradável enfermeira. E, mais importante, o desenlace do filme (como veremos) está preso à relação paciente-enfermeira.

De início e por algum tempo, essa relação é de completo antagonismo, aparentemente inconciliável: a enfermeira está lidando com um paciente impossível, e o advogado está lidando com uma enfermeira intrometida e incômoda que, aparentemente, só existe para atrapalhar o seu desempenho num caso tão difícil. Na medida, porém, em que o caso Vole prossegue, a Srta Primsoll – que acompanha o advogado mesmo durante as sessões no tribunal – vai desenvolvendo uma crescente admiração pelo impressionante talento do seu paciente. No final ela já terá virado sua fã e, depois do segundo crime cometido (Vole é esfaqueado pela esposa) a Srta Primsoll é a primeira a sugerir que Sir Wilfrid terá novo caso a defender e – o mais sintomático – ela imediatamente providencia, para o seu paciente, a sua garrafa térmica, contendo, não mais o chocolate recomendado pelos médicos, mas o conhaque que o paciente adora bebericar e que, antes, só tomava às escondidas. Da parte de uma enfermeira, pode não ser uma atitude clínica recomendável, mas, é uma ótima licença poética que faz o espectador esquecer que viu apenas um filme policial. E, claro, os magníficos desempenhos de Charles Laughton e Elsa Lanchester contribuem enormemente para tal efeito.

A outra personagem que, no filme, também suplanta a trama é a figura de Christine (na peça chamada Romaine), a ardilosa esposa do réu – interpretação marcante de Marlene Dietrich. De alguma maneira, pode se dizer que a estória do caso Vole se desenrola como um duelo – não tanto entre os dois advogados do júri – mas muito mais entre Sir Wilfrid e essa mulher forte e decidida que testemunha contra o marido e, assim fazendo, consegue o que desejava: inocentá-lo. Considerem que, na peça, depois de saber a verdade (o plano ardiloso da esposa para livrar o marido da forca), Sir Wilfrid se retira do palco e vai embora, ao passo que no filme, ao contrário, ele assume que vai defendê-la no que será o seu próximo trabalho, – como já dito – agora com a conivência de sua mais recente conquista afetiva, a enfermeira Primsoll.

Em termos genéricos, diríamos que a peça enfatiza a trama, ao passo que o filme, sem desconsiderar a engenhosidade dessa trama, enfatiza os personagens.

Como dito, esse deslocamento de ênfase vai operar, na passagem da peça ao filme, toda uma série de pequenas e grandes mudanças, no enredo, que passo a mencionar.

Peça ou filme considerado, com certeza um elemento importante no nível do enredo diz respeito ao modo como os personagens principais se conheceram. Vejam o caso do réu, Leonard Vole, em relação a duas pessoas chave na sua vida: a esposa e a sua vítima.

Na peça, pouca informação é fornecida sobre o primeiro encontro de Leonard e Romaine (nome da esposa), enquanto que, no filme, todo um longo flashback nos é dado a partir do momento em que Leonard começa a contar ao advogado como conheceu Christine na Alemanha do pós-guerra, ela, uma cantora de cabaré, ele, um soldado libertador e pródigo. Mais tarde, no júri, quando o advogado alegar que o réu deu cidadania inglesa a essa alemã desgarrada, o espectador lembrará não apenas do que soube oralmente, mas – por causa do flashback – do que viu com seus próprios olhos.

O encontro de Vole e sua futura vítima também difere de peça a filme. Na peça, ele apanha os pacotes, caídos no chão, dessa senhora idosa que atravessava a rua, e dias depois, por coincidência, senta atrás dela numa poltrona de teatro. No filme, o teatro é mudado para cinema, e o segundo encontro é motivado pelo primeiro. Sentado atrás da Sra French no cinema, Vole não pode ver a tela direito por causa do chapéu que ela usa. Ora, quando a viu a primeira vez, ela estava comprando chapéus e compra justamente este, que agora usa, por sugestão dele, que, através da vidraça da loja, a observava por acaso.

Sente-se que algumas das transformações ocorridas na adaptação são devidas à diferenças entre os dois meios, teatro e cinema. Por exemplo: na peça a mulher misteriosa, com as cartas decisivas nas mãos, visita Sir Wilfrid no seu escritório para poder se economizar cenário. Em três atos, a peça tem apenas dois cenários (a corte e o escritório de advocacia) e sente-se que seria custoso engendrar mais um, somente para esta cena. No filme, Sir Wilfrid recebe um telefonema da mulher e, com o seu companheiro de trabalho, se dirige às pressas à Estação Euston onde barganha as tais cartas, com a vantagem de que, desaparecida na multidão depois da barganha, a mulher parece mais misteriosa, o que é mais conveniente para o plano de Christine e mais convincente para o espectador.

No depoimento da empregada da Sra French, o som escutado por trás da porta era, supostamente, o de um rádio; no filme, teria sido o som da televisão – como se nota, um esforço dos roteiristas do filme em atualizar a estória para os dias modernos, já que em 1957 a televisão já era popular na Inglaterra.

Motivada ou não pela diferença entre os dois meios, uma enorme lista das transformações semióticas pode ser levantada, porém, o interessante é observar quando a transformação da peça para o filme não é obrigatória, e sim, opcional. Acho que o exemplo mais flagrante está num momento chave, durante a segunda e última sessão no tribunal, quando Sir Wilfrid, de posse das cartas incriminatórias, intima Christine a depor uma segunda vez. Na peça, depois de lhe perguntar se ela conhecia um tal Max, ele lê, para ela, a primeira frase da carta e faz com que ela, inadvertidamente, adiante um trecho seguinte. E é este truque que a incrimina e faz com que ela seja forçada a admitir o perjúrio que cometera no seu primeiro depoimento. No filme, mui apropriadamente, esse truque estritamente verbal, passa a ser visual: Sir Wilfrid apresenta primeiro papéis brancos, e Christine retruca que só escreve cartas em papel azul, e ele, só então, retira as tais cartas azuis, estrategicamente escondidas sob a sua pasta, perguntando, vitorioso: “assim?”

Se o filme faz acréscimos à diegese da peça, também faz subtrações: na peça, é cortada a longa conversa de Sir Wilfrid e seu colega sobre como suas esposas eram tão imaginativas quanto o réu havia sido, ao admitir que, semanas atrás, consultara uma agência de viagem. Do mesmo modo, também não constam os muitos empregos que Leonard Vole tivera, no passado, ficando tudo resumido ao seu invento, no caso, um aparelho para separar a gema do ovo da clara, que fascina a Sra French, e que a empregada joga no lixo. Na peça, o último invento de Vole foi uma escova-pente para os oito gatos que a Sra French cria, ao passo que, no filme não há sinal de felino algum.

As referências ao fictício amante de Romaine/Christine como sendo um subversivo, infiltrado no país, foram consideradas irrelevantes no filme, mas, em compensação, a câmera dá corpo gráfico à moça a que Vole se refere, no seu depoimento, como a loura que estava com ele no momento da consulta à agência de viagem. Na peça, essa moça aparece no final, surgida quase do nada, enquanto que no filme, estávamos acostumados a vê-la na platéia, por coincidência, sentada ao lado da enfermeira Primsoll, com quem trocava palavras casuais.

A propósito dessa moça loura, confesso que, conhecendo o filme antes de conhecer a peça, supus que esse derradeiro dramático turning point em pleno desenlace, digo, Vole, depois de absolvido, relegando a esposa em favor dessa moça loura, e sendo por isso, esfaqueado – tudo isso me pareceu uma invenção (nem sei se interessante) dos roteiristas do filme, e me surpreendi ao constatar que estava na peça. Mas enfim, conforme já posto, o que não estava na peça era o subplot da enfermeira Primsoll e o modo genial como ele conduz a que o crime de Christine passe a ser um mero aviso de que, se o filme termina ali, no The End, a estória, não.

De qualquer forma, diferenças à parte, é bom não esquecer que peça e filme, ambos, atacam, com a mesma ironia, a fragilidade do sistema judiciário, ao conceber o paradoxo – nada inverossímil, aliás – de que só um testemunho, aparentemente falso, mas a rigor, verdadeiro, seria capaz de inocentar um culpado.

Contava Alfred Hitchcock que, com enorme freqüência, as pessoas pensavam que “Testemunha de acusação” fosse de sua autoria. Curioso seria investigar o quanto o filme foge, ou não, ao estilo do cineasta Billy Wilder, mas isto é outro assunto, que fica para uma outra ocasião.

 

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