“O trem da vida” ou estórias contadas por loucos

12 out

“A vida é uma estória contada por um louco, cheia de som e fúria, significando nada”. A imagem, como se sabe, é de Shakespeare e sai da boca do tirano Macbeth ao ter notícia da morte de sua esposa.

Pois essa imagem vem gerando narrativas ao longo dos séculos. Aquele romance de Faulkner que dá voz a um débil mental tem justamente o título de O som e a fúria, porém, nem sempre a relação com a imagem original é tão assumida. O filme O gabinete do Dr Caligari (1919), do alemão Robert Wiene, narra uma estória sonhada por um louco sem sugerir a relação. Idem para o seu remake A mansão de Dr Caligari (1962) de Roger Kay.

Bem, supostamente a estória a sair da boca de um louco só poderia ser uma tragédia. Não poderia ser uma comédia? O cineasta romeno Radu Mihaileanu acha que sim. E é isso que acontece no seu filme, amplamente laureado, O trem da vida (1998), em cartaz no Cine Bangüê.

Que a estória do filme a que se assiste é invenção da mente brincalhona de um louco, a gente só sabe nos últimos fotogramas, quando se passa do close no rosto do protagonista Shlomo (Leonel Abelanski) para um plano de conjunto onde se vê o campo de concentração em que ele espera a morte, em seu uniforme de prisioneiro do Nazismo.

Mas, como dito, embora a tragédia do Holocausto seja o tema, os “sons” e as “fúrias” da estória provocam menos o choro que o riso. Em 1941, numa pequena aldeia judia da Romênia, a população decide, sob orientação do louco local, fugir da iminente invasão nazista em direção à Terra Prometida, num falso trem de deportação. A preparação e a execução da viagem, com metade dos judeus disfarçados de soldados alemães, consistem numa série de truculências que, no geral, servem para descrever e discutir, com auto-ironia mas também com muita alegria, o modus vivendi judaico.

No caso de um confronto com os nazistas, como falar alemão sem sotaque? O professor de línguas explica, é fácil: é só falar o Yiddish (a língua judaica) sem humor, que fica a cara do alemão, essa língua triste e sem graça. Ao ouvir do professor que o Yiddish foi criado como uma paródia gozadora da língua alemã, o pasmo Mordechai, encarregado de comandar a pseudo-tropa alemã no trem, se indaga: não será por isso que a Alemanha está nos invadindo?

O resultado é um filme divertido, leve, agradável de ver, contudo, nada da obra de alta qualidade que as suas muitas premiações mundo afora sugerem. Por exemplo, no ano de sua estréia ganhou, na Itália, do nosso Central do Brasil, o prêmio de melhor filme estrangeiro, quando o filme de Walter Salles é decididamente bem melhor.

E para quem estiver cogitando que já assistiu a essa brincadeira com o Holocausto em A vida é bela, vale a pena ficar sabendo da seguinte estória, não sei se também contada por um louco. Consta que Roberto Begnini havia sido convidado por Mihaileanu para desempenhar o papel de Shlomo; foi lá, leu o roteiro, disse não, e voltou correndo para casa para bolar o seu roteiro de A vida é bela, que, como se constata, tem a mesma atitude nuclear de brincar com a tragédia judaica. Na ocasião, a imprensa européia fez um certo alarde do suposto plágio, mas depois, o que é que o tempo não esquece? E, uma ironia a mais, o filme de Begnini (por sinal, outro vitorioso em cima de Central, lembram?) é melhor que o de Mihaileanu. Fazer o quê?

Bem, a checar, O trem da vida está em cartaz no Bangüê, para cuja seleta programação chamamos a atenção do leitor.

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