Dois alemães na América

13 out

Banal já é a estória de cineastas europeus que migraram para os Estados Unidos. Uma variante, a que aqui enfoco, é a de cineastas europeus já consagrados em seu país que passaram um tempinho na América, lá fizeram um filme-chave, e retornaram. O caso que me interessa são dois alemães de épocas completamente diferentes, mas cujos “filmes americanos” têm tanto em comum que não dá para desviar o olhar: o primitivo F. W. Murnau e o moderno Wim Wenders, com os filmes Aurora, de 1927, e Paris Texas, de 1984.

Separados de mais de meio século (a rigor, 57 anos), os dois filmes tratam do tema da desagregação da família e, embora diversos em seus detalhes, podem ser resumidos ao seguinte esqueleto narrativo: com um filho único ainda pequeno, um casal entra em crise conjugal e se separa; depois do que, o marido, passando por um processo de sofrimento sobre-humano, “volta ao normal”, procura a mulher e refaz a situação.

Em Aurora o motivo da crise é uma amante, em Paris, ciúmes recíprocos; em Aurora, a reconciliação acontece rápido, pouco tempo depois de o marido haver planejado assassinar a esposa, em Paris, o retorno à normalidade toma quatro anos; em Aurora, a esposa é literalmente reconquistada, em Paris a reconquista é conseguida em função do filho, agora com sete anos de idade, ficando em aberto se o casal um dia viverá junto ou não.

Estas diferenças não afastam os dois filmes, que são – pode-se dizer – dois dos mais marcantes no século sobre o tema das relações conjugais\familiares. Guardadas as diferenças técnicas (um mudo e em preto-e-branco, o outro falado e colorido), detêm a mesma atmosfera, lenta, sombria, disfórica, e fazem o mesmo tratamento do tema. No confronto, é possível que o filme de Murnau pareça um pouco mais maniqueísta, e o de Wenders, um pouco mais ambíguo, mas não ao ponto de apagar as afinidades.

O interessante é que, com todas as mudanças de comportamento verificadas entre as décadas de 20 e 80, os dois filmes resguardem a mesma atitude perante a instituição familiar, e, a serem julgados por um viés ideológico, possam ser dados como “conservadores”, no sentido em que se concluem com o re-estabelecimento do (des)estabelecido. Talvez seja mesmo sociologicamente significativo o fato de Aurora e Paris Texas se situarem em momentos históricos simétricos, respectivamente, anterior e posterior à revolução dos anos sessenta. Talvez um sociólogo da cultura possa nos explicar que o antes e o depois do radicalismo sexual sessentista tendem, de alguma forma, a confluir para uma mesma coisa.

Bem entendido, nenhum dos dois filmes faz a apologia do lar doce lar burguês. Apenas enfocam a crise conjugal como um elemento de fatalismo, desenvolvendo a fabulação na direção da dolorosa, mas emocionalmente compensadora, reparação desse mal. Não exibem propriamente happy ends, e no entanto, o espectador sente que, se o mal na estória foi inevitável, como todo fato trágico o é, a sua superação – pelo menos em termos poéticos – também o foi..

Além da semelhança nas circunstâncias (um grande cineasta alemão trabalhando temporariamente na América),  e a parte explicações sociológicas, por que esses dois filmes teriam de abordar o mesmo tema de modo tão similar, Aurora rodado, mais ou menos, duas décadas depois de o século começar, Paris Texas mais ou menos duas décadas antes de o século findar? Causas astrológicas? Não sei, mas gosto das coincidências.

Em tempo: nos seus escritos nunca vi Wim Wenders se referir ao Aurora de Murnau como um precursor seu, o que, naturalmente, alimenta o meu gosto esotérico pelas

 

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