Filmes que vi no Brasil

8 nov

Fui, em minha juventude, um cinéfilo ávido e freqüentei quase todos os cinemas da cidade que, entre os anos cinqüenta e sessenta, eram – contados nos dedos – catorze.

Hoje em dia, ao conversar com amigos sobre cinema e ouvir citado um certo filme importante na história da sétima arte, vez por outra, faço, sem ninguém perceber, o exercício mnemônico de tentar lembrar onde foi que vi o tal filme, digo, em que cinema da cidade.

Ora, aqui e acolá, me vejo surpreso em lembrar que vi o tal filme importante no Cine Brasil. Digo surpreso porque o Cine Brasil nunca foi uma casa de espetáculo importante na cidade, e não posso dizer que lhe fui assíduo. Pertencente à cadeia distribuidora do Plaza (Fox, Universal, Warner, Art Films, etc), nunca foi “lançador” e seu público, como mantém o historiador Wills Leal, era um pessoal mais humilde, formado de comerciários e estudantes. Eu era estudante e humilde, porém, quando podia ir a um cinema mais confortável, não ia ao Brasil.

Fundado em 1934, o Cine Brasil já era decadente no tempo em que cheguei a visitá-lo e guardo dele muito bem a imagem de sua sala comprida e estreita, quente e abafada, escura até quando as luzes estavam acesas, suas cadeiras duras e surradas, e seu cheiro enjoado, mistura de suor e urina, possivelmente também de esperma, conforme sugere certo famoso poema de Sérgio de Castro Pinto.

Pois bem, outro dia, conversando com amigos, veio à tona o ainda hoje impressionante thriller do francês G.H. Clouzot “O salário do medo” (“Le salaire de la peur”, 1953), que contava – vocês lembram, não é? – o caso desses dois caminhoneiros que, pela grana, topam conduzir um carregamento de perigoso explosivo, numa viagem em que um mero catabi poderia lhes custar a vida.

Fiz o exercício mnemônico de sempre e onde foi que vi o filme de Clouzot? Sim, no Cine Brasil, por que não sei. Perdi a sua exibição no Plaza, ou será que não foi exibido lá?

O fato é que ainda hoje me vejo agarrado aos braços da velha cadeira do Brasil, tenso, suado, arfante, o fôlego preso, esperando a qualquer momento a explosão que levaria pelos ares o caminhão, o motorista e meu coração.

Eu poderia ter visto “Minha vontade é lei” (“Warlock”, 1959, de Edward Dmytryk) no Plaza, ou mesmo no Bela Vista, mais perto de casa; mas não  – foi no Brasil que o vi.

Nesse dia – deve ter sido matinée – a tela do cinema se fez maior para caber o cinemascope Deluxe da Fox e as figuras imponentes de Dorothy Malone, Anthony Quinn, Richard Widmark e, claro, Henry Fonda com suas pistolas de ouro. Mas todo o luxo não impediu que esse faroeste ambíguo, sombrio e perverso estivesse menos para a ação e mais para a emoção, na verdade um caminho que o gênero vinha tomando havia tempo, um caminho que me fascinava, porém, não tanto aos meus companheiros de cinema, amigos de minha faixa etária, que persistiam apegados aos heróis descomplicados, do tipo Tom Mix e Roy Roger.

Em alguns casos, mais raros, consigo lembrar, sim, por que vi um determinado filme importante no Brasil, e não noutro cinema. Foi o caso, por exemplo, do melodrama de Douglas Sirk “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Ouvi falar um bocado do filme em casa, pois uma de minhas irmãs o tinha visto e adorado, possivelmente no Plaza. Seus comentários emocionados me deixaram interessado, mas quando fui atrás, o filme tinha saído de cartaz. Sabia que, tendo sido exibido no Plaza, não viria aos cinemas de Jaguaribe, onde morava, todos da companhia distribuidora do Rex (MGM, Paramount, Columbia, etc) e fiquei atento. Quando soube que estava no Brasil, não contei conversa: tomei um ônibus, e me mandei para assistir, sozinho, à sessão da tarde de um domingo. Depois do triste The End, com o enterro da empregada negra, saí do velho Brasil com lágrimas nos olhos.

A sala estava lotada? Ou só havia uns gatos pingados para ver essa tocante despedida de Douglas Sirk, que na época eu nem sabia quem era? Infelizmente não consigo lembrar. Lembro, sim, de, na curtição desse melodrama, haver experimentado uma certa sensação de isolamento, porque, nesses tempos já começava a notar que os meus companheiros de cinema se distanciavam de mim, (ou era eu que me distancia deles?), preferindo o que eu não preferia mais: preferindo os filmes de ação e aventura a películas que perdiam tempo com sentimentos e emoções. Essa sensação de isolamento se misturava à decadência do Brasil e me fazia mais triste.

Vocês não vão acreditar (e continuo sem ter explicações), mas também vi no Brasil grandes estréias. Quando a charmosa Nouvelle Vague francesa estourou, foi no Brasil que vi os seus primeiros rebentos.

Foi no Brasil que vi, pela primeira vez, “Os incompreendidos” (“Les 400 coups”, 1959) de François Truffaut.

Nunca vou esquecer a impressão que me causou esse garoto fugindo da família, e depois, do reformatório, correndo feito um louco para chegar a lugar nenhum, porque o mar é lugar nenhum, e perante o mar imenso e frio, sem saber o que fazer, correndo então em nossa direção, como se fosse pedindo socorro, e nesse momento a tela congelando e…

Até então, eu nunca tinha visto um filme que se findasse sem fim, e saí do velho Brasil perturbado. Se o garoto tivesse voltado para o seio da família, ou se tivesse sido recolhido ao reformatório, ou mesmo se tivesse morrido, como a negra no final de “Imitação da vida”… teria havido um fim. Congelado na praia, aquilo era demais para mim, que estava acostumado ao terceiro tempo dos roteiros hollywoodianos, sintomaticamente chamado de “resolução”. Enfim, mais uma tristeza que a sala triste do Brasil me proporcionou.

Embora de 59, “Os incompreendidos” deve ter chegado em João Pessoa lá por volta de 62 ou 63, e não  creio que o Cine Brasil tenha durado muito tempo depois disso. Qual foi o último filme que vi lá? Gostaria de poder dizer. Uma de minhas derradeiras lembranças é, na sua fachada gasta, o cartaz ostensivo e ridículo de “Cleópatra”, com a cara maquiada de Elizabeth Taylor. Como se sabe, essa superprodução marcou a decadência dos estúdios hollywoodianos e marcou o fim de uma época. Com ela, caiu também o Cine Brasil.

Mas, enfim, em que data fecharam o Cine Brasil? O livro de Wills não me informa e a minha estória se finda sem fim.

 

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