Se não fosse Hedy Lamarr, você não teria o seu celular

4 dez

Hoje quase ninguém mais lembra quem foi Hedy Lamarr (1914-2000), mas, para o cinéfilo que tem idade e memória, ela foi uma das maiores musas do universo cinematográfico, considerada por muitos um dos rostos mais belos da história do cinema.

Para refrescar a memória do leitor, o seu papel mais conhecido, possivelmente o mais lembrado, foi, ao lado de Victor Mature, o da protagonista em “Sansão e Dalila”, a superprodução bíblica de Cecil B. DeMille que encantou multidões, em 1949 e muitos anos adiante. Quem pode ter esquecido a paixão convulsa entre esse herói danita e essa bela filistéia que descobre onde reside a sua força – no cabelo – e o trai por puro despeito? No Brasil dos anos cinqüenta, – vocês lembram – era um dos filmes que se exibiam na Semana Santa, em cidades do interior, quando “A paixão de Cristo” não estava disponível.

Outros desempenhos de Hedy Lamarr que o leitor pode talvez lembrar são: com Charles Boyer em “Algéria” (1938); com Clark Gable em “Fruto proibido” (1940); com James Stewart em “Pede-se um marido” (1941); com Spencer Tracy em “Boêmios errantes” (1942); com Walter Pidgeon em “Demônios do Congo”; com John Hodiak em “A mulher sem nome” (1950).

Aos quarenta e quatro anos, em 1958, Hedy Lamarr roda o seu último filme, “Naufrágio de uma ilusão” e nunca mais retorna ao mundo cinematográfico. Sintomaticamente, o filme era a estória trágica de uma atriz em fim de carreira.

Com o sobrenome de Kiesler, Hedy nasceu em Viena, Áustria, e, muito jovem, abandonou a escola secundária para atuar no cinema alemão, na companhia do expressionista Max Rheinhardt. Filma daqui, filma dali, terminou atuando numa película checo-austríaca, “Êxtase”, que lhe daria fama internacional. É que nesse filme ela aparecia completamente despida e o ano era apenas 1933.

Em 1937 foge de um casamento mal sucedido para Londres, onde é contratada pela MGM e, imediatamente, embarca para Hollywood, com o novo sobrenome dado por Louis B Meyer, e a promessa – também de Meyer – de vir a ser uma nova Greta Garbo.

Apesar da beleza e do talento, Hedy Lamarr nunca teve a fama da Garbo, o que é atribuído pelos seus biógrafos à falta de um agente que administrasse a sua carreira, cheia de erros inconvenientes ou mesmo drásticos. Por exemplo, em 1941, tendo sido a atriz cogitada pela equipe da Warner Brothers para ser a Ilsa Lund de “Casablanca”, simplesmente recusa o papel.

De qualquer forma, a história do show business ainda hoje mantém o seu nome nas alturas, e o seu rosto continua ilustrando os mais belos álbuns da Hollywood clássica.

E, no entanto, me desculpem, mas não é propriamente da atriz famosa que quero tratar aqui. Poucos sabem disso, mas, Hedy Lamarr foi, nas horas vagas, entre um casamento escandaloso e outro (foram seis ao todo), uma grande cientista.

Sim, isso mesmo: uma grande cientista. Quando estoura a Segunda Guerra Mundial, ela e um vizinho hollywoodiano, o músico de vanguarda George Antheil, começam a pensar numa maneira de ajudar a combater o nazismo. Ainda em Viena, Hedy havia sido casada com um homem mais velho que negociava com armamento e, por tabela, adquirira ela uma certa familiaridade com a produção de armas.

Pois bem, junto com o seu vizinho, ela passa a imaginar uma maneira de tornar mais eficaz o movimento e a pontaria dos torpedos e desenvolve um mecanismo que vem a ser chamado de “frequency hopping”, mais ou menos ´frequência alternada´, cujo objetivo era justamente este: o de direcionar o movimento dos torpedos a fim de que atingissem o alvo com o mínimo de erro.

Concebe o mecanismo com extrema precisão, e submete o invento aos militares americanos, que o recusam, alegando que ela seria mais útil ao país vendendo beijos aos soldados para levantar fundos de guerra. O que ela faz, sem desistir da ideia do invento, devidamente patenteado no “National Inventors Council” – o conselho nacional de inventores.

Ora, mais de uma década depois disso, engenheiros americanos redescobrem o invento de Lamarr que é, com novo nome, “spread spectrum” (´espectro de abertura´), utilizado com sucesso na crise dos mísseis cubanos nos anos sessenta.

Com o advento da eletrônica, o invento de Lamarr e seu amigo músico ganha nova dimensão e novo emprego, sendo fundamental para o desenvolvimento de micro-chips, mas, sobretudo, sendo essencial no aperfeiçoamento da tecnologia relativa à telefonia celular. Segundo consta, a tecnologia celular não teria tido o desenvolvimento que teve no final do século XX sem o invento básico de Lamarr, tanto é assim que, em 1998, ela recebe, da importante E.F.F. (Electronic Frontier Foundation) o prêmio máximo pelo invento.

Idosa e reclusa, ela fica em casa e manda o filho receber o prêmio, a quem comenta quando lhe chega a notícia do reconhecimento: “Já era tempo”.

Pois é, desculpem as rimas, mas de uns tempos para cá, toda vez que faço uso do meu celular, fico pensando em Hedy Lamarr.

Com um pequeno adicional de ironia lingüística: hoje em dia, como se sabe, as mensagens entre celulares se chamam, metaforicamente, “torpedos”, quando os torpedos reais estiveram na origem do invento científico de Lamarr. Caprichos da linguagem.

 

Anúncios

3 Respostas to “Se não fosse Hedy Lamarr, você não teria o seu celular”

  1. sérgio de castro pinto dezembro 10, 2011 às 6:09 am #

    joca:
    muito bom o blog. textos excelentes. abraço amigo do sérgio

  2. ségio de castro pinto fevereiro 12, 2013 às 7:33 am #

    me deleitando com a suas palavras, joca. abraços.

  3. Bernardete fevereiro 21, 2013 às 1:40 am #

    Bernardete M. guiotto Zeni
    Amei conhecer essa história!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: