O contador de filmes

14 dez

Quem foi que disse que Picuí só dá carne de sol? Essa pequena cidade do interior paraibano, incrustada no seio seco do Curimataú tem outros tantos valores…

Um deles se chama Ivan Araújo Costa, que todos conhecem como Ivan Cineminha, e o apelido não é nada gratuito.

Fã de cinema desde tenra idade, e possuidor de uma memória fabulosa, Ivan é capaz de lhe dar, assim de chofre, a ficha técnica de uma quantidade absurda de filmes, filmes que ele viu ao longo da vida, desde o tempo em que o seu pai era proprietário do “Cine Guarani”, em Picuí.

Por causa desse raro dom mnemônico, Ivan já esteve duas vezes no programa de Jô Soares, e até convidado para o Fantástico já foi.

Mas, estou chovendo no molhado, porque, em João Pessoa e mesmo na Paraíba, todo mundo conhece (ou ouviu falar de) Ivan Cineminha. E se você é cinéfilo, então! Quem é que não já consultou Ivan para tirar uma duvidazinha sobre o elenco de um certo filme antigo, visto 20, 30 ou 40 anos atrás? Eu mesmo já fiz isso várias vezes.

Pois bem, de tanto ir ao cinema, o cinema veio a Ivan.

É que acaba de estrear, no último Fest-Aruanda, o curta-metragem “O contador de filmes”, que tem por assunto ninguém menos que o nosso herói de Picuí.

Realizado pelo cineasta Elinaldo Rodrigues, a partir de um projeto submetido e premiado pelo MEC, o filme “conta”, em breve quinze minutos, a estória de Ivan e sua paixão pelo cinema.

Trata-se de um documentário que não se importa de ser ficcional. Abre-se com uma encenação da infância de Ivan, quando ele vai ao cinema com o irmão menor. Com atores infantis, o filme mostra Ivan criança, de lápis e caderno na mão, anotando, do cartaz na parede, o título do filme que vai ver, enquanto o seu irmão, Tonheco, o apressa que “o filme já vai começar”.

A cena toda é mostrada em pedaços, entre os quais se intercalam momentos do tempo presente: Ivan hoje, com seus 65 anos de curtição cinematográfica e seus cabelos brancos, comprando ingresso no Cine Box Manaíra para ver o filme do dia.

O filme do dia ninguém sabe qual seja, mas, aquele a que Ivan assiste na infância só podia ser “O intrépido General Custer” (“They died with their boots on”, de Raoul Walsh, 1941) e por que? Porque foi este o primeiro filme a que o menino Ivan assistiu. O primeiro a que assistiu e o primeiro que anotou, hábito que nunca perdeu, até hoje.

A partir daí tem-se um longo depoimento do próprio Ivan que, à vontade como sempre está – na telona, na telinha ou na vida real – relata os momentos importantes de sua trajetória de fã.

Quem não sabe fica sabendo como nasceu o apelido, começo dos anos sessenta, nos bancos do Lyceu Paraibano, que Ivan mal freqüentou porque, na hora das aulas, estava sempre no cinema. Ao ponto de uma professora de desenho solicitar uma reunião discente, exclusivamente para conhecê-lo, já que, às quartas-feiras, dia da aula dela, ele nunca comparecia ao colégio.

Na garupa de uma moto (veículo predileto de Ivan), o espectador é transportado ao Picuí de hoje, onde Ivan nos mostra o prédio do antigo cinema do pai, atualmente um prosaico depósito de mercadorias. Com ele, entramos no prédio e somos informados de como era o cinema por dentro, onde ficava a tela, e, curioso, medido com três passos do próprio Ivan, o lugar onde ele sentava porque “queria se sentir perto dos atores, dentro do filme”. Ou seja, somos, desta forma, transportados ao Picuí de ontem.

Ainda nesse Picuí de hoje/ontem, outro momento comovente é quando a produção do filme leva Ivan à casa onde ele nasceu, hoje pertencente a outras pessoas, e que ele não visitava havia mais de cinqüenta anos. Com ele, entramos no imóvel e Ivan, remontando ao passado saudoso, nos aponta, entre outras nostalgias, o local onde dormiam ele e os irmãos, os resquícios desses leitos sendo os armadores das redes, por sorte ainda existentes nas paredes da residência.

Falando de sua vida presente, Ivan nos conta uma prática curiosa. Um grupo de amigos costuma com ele se reunir em algum restaurante da cidade, e um deles, sempre leva uma sabatina, preparada com antecedência, para testar a sua memória cinematográfica. Ele não diz, mas o grupo referido são os “cinéfilos do Ponto de Cem Réis”, academia fundada pelo professor e intelectual Silvino Espínola.

“Em que filmes trabalhou a grande coadjuvante do cinema americano Thelma Ritter, nos seguintes anos?” Ivan vai respondendo e os presentes, com as respostas nas mãos, vão conferindo, deslumbrados.

Um detalhe dessas reuniões de cinéfilos é que um dos membros, o juiz Gustavo Urquiza, sempre brinda os presentes com belas execuções, ao piano, de músicas de cinema, e a escolhida para constar de “O contador de filmes” foi a deslumbrante “Por una cabeza”, do filme “Perfume de mulher”.

Tudo isso e um pouco mais está no filme de Elinaldo Rodrigues. Digo um pouco porque não deve ter sido fácil para a direção imprensar em 15 minutos toda a estória de Ivan Cineminha.

Na verdade, o hábil diretor quis fazer caber pelo menos três temas entrecruzados e interdependentes: a figura ímpar de Ivan, a estória dos velhos cinemas de interior, e a força do cinema sobre o espectador de qualquer tempo. Para tanto, o filme está repleto de colagens onde se misturam as três temáticas.

Exemplos: quando o antigo operador do cinema picuiense se refere à preferência do público pelos filmes de Tarzan, vemos o próprio articulando o seu grito famoso. Para cada resposta correta de Ivan à sabatina, temos uma cena do filme em questão. Quando, em Picuí, Ivan nos mostra a fachada do antigo Cine Guarani, esta imagem, em sobreimpressão, se mistura a imagens cinematográficas que trazemos na memória: Carlitos manipulando talheres, Janet Leigh sendo morta no banheiro de “Psicose”, os motoqueiros de “Easy Rider” em plena estrada, o garoto de “Cinema Paradiso” de carona na bicicleta do padre… E claro, tudo isso ao som do “Danúbio Azul” de Strauss que, segundo Ivan, era a música que tocava no cinema de seu pai, antes de a projeção começar.

“Nunca passou pela minha cabeça me formar em cinema, ou ser cineasta, ou montador, ou mesmo ator, mas, um simples espectador, que ama o cinema” – nos confessa um Ivan comovido na sua fala final. O que ele não disse é o que sabemos: que ele não é um simples espectador, mas um especialíssimo.

Em suma, o mal do filme de Elinaldo Rodrigues é ser curto, e, pela dimensão, não corresponder à incomensurável memória cinematográfica de Ivan Cineminha.

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2 Respostas to “O contador de filmes”

  1. Gilberto de Sousa Lucena dezembro 24, 2011 às 11:28 am #

    Meu estimado amigo João:

    Só agora pude ver e ler esta bela homenagem ao nosso querido Ivan e ao documentário feito por Elinaldo Rodrigues sobre a história do nosso incrível cinéfilo. Como é bom ter amigos como você! Por sua paixão pela sétima arte e pelo seu caráter, Cineminha merece toda esta atenção.

    Um abraço.

    Gilberto Lucena

  2. Wellyson Marlon Jr. maio 21, 2016 às 3:18 am #

    Por Waldemar José Solha:
    “CENAS INDELÉVIS” Nº 169:

    IVAN CINEMINHA.
    – Ivan, vi você dar show em dois programas do Jô Soares, mostrando que realmente sabe tudo sobre cinema, daí que gostaria – se possível – que matasse uma antiquíssima curiosidade minha. Eu era muito, muito criança, e minha mãe – que não tinha com quem me deixar – me levou a uma novena ou trezena da igreja de São Judas Tadeu, na periferia de Sorocaba. Enquanto ela rezava, lá dentro, vi cinema, num telão do lado de fora, pela primeira vez na vida. Do filme só me ficou uma cena: um homem corre de um cão, na praia. Nela há um portal no meio do nada. O cara abre a porta, o cão quase o alcança, ele faz com que a porta gire sobre si mesma, entra nesse carrossel, o cão sempre no seu encalço. Tem ideia do que se trata?
    – Escola de Sereias, dirigido por George Sidney, com Red Skellton e Esther Williams, 1944!”

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