Cinéfilos equivocados

7 jan

Um amigo me liga para tomar informação de cinema. Queria saber o ano de lançamento do filme “Um dia de cão”. Eu disse (1974) e ficamos papeando sobre o filme de Sidney Lumet.

“Para mim – me confessa ele – foi o melhor desempenho de Dustin Hoffman. Ali ele está melhor do que em “Perdidos na Noite” e mesmo do que em “Rainman”. E assim prossegue com as comparações e os elogios a Hoffman.

Esperei que ele terminasse, para fazer a correção. “Só tem um problema” – fui dizendo… E ele: “Não me diga que você não concorda!”

“O problema não é este. O problema é que “Um dia de cão” não é com Dustin Hoffman, e sim, com Al Pacino”.

Houve, então, um longo silêncio do outro lado da linha. “Alô, alô, alô…” gritei, intrigado. Depois de um tempo, a voz do meu amigo, arrasado:

“Rapaz, você destruiu o meu mundo…”

Em cinema, quem é que não se engana? Ao contrário da literatura, o cinema é uma arte fugaz, efêmera, passageira. Você vê um filme, o tempo passa e você esquece ou confunde cenas, nomes, trechos de diálogo… Não há como evitar.

Converso muito sobre cinema com amigos e amigas e sempre me deparo com esses pequenos equívocos, quando não sou eu mesmo que os cometo. (Vide adiante).

Um caso engraçado é quando o equívoco é recorrente, digo, se repete de cinéfilo para cinéfilo. Falando do melodrama de Douglas Sirk “Imitação da vida”, os amigos recordam o elenco principal sem problemas, porém, quando o assunto cai naquela moça mestiça, filha da empregada negra, o nome da atriz que vem é quase invariavelmente: Natalie Wood.

A atriz é, na verdade, Susan Kohner, de quem – estranhamente – ninguém sequer lembra. Uma amiga minha só acreditou porque fui em casa buscar um guia de filmes para provar. A repetição do equívoco (já me deparei com ele pelo menos seis vezes) tem, claro, uma justificativa: é que Susan Kohner e Natalie Wood eram ligeiramente parecidas.

Já é tempo de relatar os meus equívocos, ao menos os que lembro.

Conversando com meus filhos sobre o passado, eventualmente lhes faço ver como muitas das coisas que hoje são comuns por aqui, inexistiam, dos anos sessenta para trás, e, como, na época, só ouvíamos falar delas no cinema. Pizza, por exemplo. E aí descrevo uma cena de “Limite de Segurança” (1964), que vi em estréia local.

Por causa de uma crise nuclear, o presidente dos EUA se reúne com sua equipe para decidir o que fazer. A reunião se estende e, no meio da noite, ele pede a alguém para providenciar uma pizza, e como a pizza demora a chegar ele reclama, irritado: “será que não tem uma criatura de Deus que nos traga uma pizza?” O que digo a meus filhos é que, naquele tempo, eu lia o nome “pizza” nas legendas do filme sem saber o que era, salvo que se tratava de uma comida. Como sabemos, João Pessoa só veio a conhecer este prato italiano lá pelo final dos anos setenta.

Ora, revendo “Limite de segurança” em DVD um dia desses, constatei, perplexo, que a cena não existe. A reunião presidencial acontece, mas… nada de pizza! Como é possível? Onde fui buscar essa pizza anti-diegética? Criei-a? Ou ela está noutro filme, e minha memória confusa a pôs lá? A segunda opção deve ser a mais provável.

O pior é quando os equívocos ficam impressos, para a posteridade.

Quem consultar, no meu livro “Imagens Amadas”, o ensaio sobre “Blade Runner” vai notar que dou o nome errado à atriz que faz o papel da robô que, no desenlace, foge com Harrison Ford. No mesmo livro, reconto errado (troco um personagem pelo outro) o final de “Vício Maldito”, filme a que assistira no começo dos anos sessenta, e só revi muito tempo depois do livro publicado, quando o filme de Blake Edwards saiu em DVD.

O problema todo é que a nossa memória é traiçoeira, e, se o filme foi visto há muito tempo, temos a tendência – não sei se saudável ou malsã – de modificá-lo a nosso bel prazer.

Recentemente, fiz esta constatação revendo “Ascensor para o cadafalso” (1957), a que assistira em sua estréia local e nunca mais. Hoje, o filme de Louis Malle me parece outro, essencialmente diferente do que eu trazia na cabeça e contava aos amigos – um excitante thriller cheio de suspense e de cálculo; agora ele é um filme devagar e monótono, sem o suspense e o cálculo que coloquei nele. Conclusão: a minha memória de cinéfilo “modificou-o”, e quando, entusiasmado, o contei tantas vezes aos amigos e parentes, a rigor, estava mentindo.

Em literatura a checagem, para conferir uma impressão duvidosa, é fácil – você pega o romance, ou livro de contos e relê o que interessa, e pronto. Mas, em cinema, como saber se sua lembrança de um filme que você viu na infância é fiel?

Hoje em dia, é verdade, a eletrônica tem ajudado os cinéfilos a refazerem suas impressões de filmes antigos, mas, como sabemos, a selagem dos clássicos tem seus limites.

Hoje a eletrônica já desfez o equívoco, porém, antes dela, todo mundo achava que a frase que Ilsa Lund dizia ao pianista, no cassino de “Casablanca” fosse “play it again, Sam” (´toque de novo, Sam´) e o advérbio ´de novo´ se justificava, na cabeça dos espectadores, porque se tratava, efetivamente, de um reencontro, depois da aventura de Paris.

Para piorar a situação, em 1971 Herbert Ross lançou um filme que se chamou justamente “Play it again, Sam”. No Brasil, o título foi diferente (“Sonhos de um sedutor”), mas, com certeza, os ecos do título original reverberaram junto ao imaginário dos espectadores e ajudaram a prolongar o equívoco. Até que o filme saísse em VHS e DVD.

Mas, enfim, para não nos sentirmos inferiorizados nesta espécie de errata coletiva que ora se lê, consideremos que até as memórias privilegiadas, como a do nosso querido e admirado Ivan Cineminha, cometem os seus equívocos.

Em sua primeira vez no programa de Jô Soares, logo no início da entrevista, Ivan e Jô, os dois juntos, gastam um tempo enorme confundindo, por causa da semelhança nos títulos, dois filmes completamente diferentes: “O vento será tua herança” e “Meu ódio será sua herança”, e, claro, não  chegam a lugar nenhum. Drama de júri sobre um professor darwiniano, o primeiro é de 1960 e foi dirigido por Stanley Kramer; faroeste cheio de violência estilizada, o segundo é de 1969 e foi dirigido por Sam Pekimpah.

 

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