Quando a linguagem é o tema

10 jan

Para muita gente boa, o cinema moderno sofre de um mal grave, não se sabe se passageiro ou incurável: a exaustão semiótica. Parece que todos os assuntos já foram abordados e todos os recursos expressivos tentados. Será verdade?

Verdade ou não, dúvidas não há de que muitos dos cineastas atuais – sentindo a crise ou não, por causa dela ou não – vêm tomando o caminho da metalinguagem, isto é, vêm rodando filmes sobre a linguagem e seus problemas. Não necessariamente a linguagem cinematográfica, mas a linguagem humana, no sentido amplo de comunicação entre emissores e receptores.

Um bom exemplo está aí, entre os concorrentes ao Oscar de melhor filme deste ano. Sim, pelo menos três dos favoritos fazem isso: enfrentam o tema da linguagem e seus problemas e o fazem de modo radical.

O espectador apressado pode até achar que “O discurso do rei” (“The king´s speech” de Tom Hooper), “A rede social” (The social network” de David Fincher) e “O cisne negro” (“The black swan” de Darren Aronofsky)  não têm nada em comum. Parando para refletir, ele vai começar a notar que, com roteiros, cenários e personagens diversos, os três filmes tratam da mesma questão: a superação de ruídos de comunicação e a dura tentativa de construção/aperfeiçoamento de um código, se não ideal, ao menos eficaz.

A enunciação da fala, em “O discurso”; a criação de um dispositivo que viabilize a comunicação entre milhares, em “A rede”; a performance que expresse as contradições internas de uma ópera, em “O cisne”: cada coisa dessa é a tentativa de superar ruídos (tanto objetivos como subjetivos, psicológicos, psicanalíticos) e construir um código otimamente eficiente.

Em “O discurso” é um rei gago que precisa superar a gaguez para ser rei, isto num tempo em que a fonoaudiologia ainda era incipiente e prescrevia bolas de gude na boca. Em “A rede” é um nerd que quer criar a possibilidade de comunicação virtual entre o maior número possível de pessoas, embora ele mesmo, na vida real, não se comunique com ninguém. Em “O cisne” é uma bailarina que luta para encontrar a performance ideal, misto de Bem e Mal, e sucumbe nessa luta.

Prestem bem atenção: são personagens com perfis análogos, cada um deles com um problema psicanalítico básico – vencer aspectos limitados de sua personalidade, no sentido de viabilizar um estado de comunicação. A esse propósito, vejam como o pai opressor em “O discurso” equivale à mãe castradora em “O Cisne”, e, com certeza, o misantropo megalomaníaco de “A rede” não deve ter tido relações familiares muito agradáveis.

Cada um dos protagonistas, aliás, encarna um paradoxo que pode ser formulado de várias formas e que formulo assim: (1) um rei que é a voz da nação e não fala; (2) um anti-social que cria uma rede social; (3) uma atriz perfeita morta pela perfeição.

Linguagem oral, linguagem virtual, linguagem teatral – os domínios são diferentes, porém, a questão é a mesma: em outras palavras, é tudo linguagem. E isto com um ponto maior de similaridade – nos três filmes a ênfase recai nos ruídos (estou usando a palavra na acepção técnica que ela tem na Teoria da Comunicação), a saber, a gaguice psicológica do rei, a antissocialidade do nerd, e a inabilidade da atriz.

Se for o caso, notar a gradação do conflito, do mais simples ao mais complexo: a articulação vocal desejada pelo rei é mais simples que a codificação virtual almejada pelo nerd, que, por sua vez, é menos complexa que a expressão dramatúrgica intentada pela atriz.

Bem entendido, não é que os três filmes sejam idênticos. Se já não fossem as diferenças diegéticas citadas, o estilo os diferenciaria. “O discurso” é fleumático e lento, “A rede” é frenético e tagarela, “O cisne” é gótico e escatológico. Como já dito, os seus protagonistas (um rei, um nerd, uma bailarina) não poderiam ser pessoas mais diferentes. Aliás, até na relação com o espectador se diferenciam: o rei é mais empático, o nerd mais enigmático, a atriz mais vertiginosa.

O que nos sugere a associação entre os filmes é o modo particularmente coincidente como a fabulação está elaborada, especialmente na maneira de fazer confluir duas coisas essenciais em qualquer filme: construção de personagem e desenvolvimento do enredo – o crescendo actancial sendo da mesma intensidade em três filmes igualmente lineares, os três com um ponto de clímax no desenlace.

Talvez seja o caso de se dizer que são filmes, não semelhantes, mas, simétricos. Assim, o pselismo do rei está para a misantropia do nerd e para a inabilidade da atriz, assim como expressão oral está para acesso virtual e para performance teatral.

Para mero efeito de análise, seria até possível colocar os actantes dos três filmes dentro do esquema de comunicação conhecido, desta forma: EMISSOR (rei, nerd, bailarina); RECEPTOR (a comunidade britânica, os internautas, as platéias de teatro); MENSAGEM (os editais da corte, os contatos virtuais, a construção da personagem na ópera); CANAL (rádio, computador, palco), CÓDIGO (a articulação da fala, a ´rede social´, o desempenho ideal).

Em “O discurso do rei” o ruído é, no final, precariamente superado; em “A rede social” ele só o é no plano objetivo; em “O cisne negro”, ele desestrutura e destroi a emissora. Em suma, desenlaces diferentes para o mesmo problema semiótico: como ser eficiente no gesto de produzir a comunicação, repito, oral, virtual, ou artística, tanto faz.

O interessante é que a simetria fabulatória nos três filmes não fica só nisso, e pode render, se for o caso, um longo ensaio de “cinema comparado”, no modelo do que se faz nas universidades, na área de pesquisa em Literatura Comparada; um ensaio que evidentemente não vou escrever, mas que deixo aqui anotado.

Enfim, acho que não precisa dizer, mas digo, que a relação semiótica aqui estabelecida entre “O discurso do rei”, “A rede social” e “O cisne negro” não está presa à questão da qualidade estética, que, no meu entender, varia de um para outro – sabe-se lá se o Oscar vai realmente para o melhor…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Renato Felix.

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