Ah, os anos sessenta…

10 jan

Hoje ninguém tem dúvidas – do ponto de vista comportamental, o Século XX se dividiu em duas distintas metades, e a dobradiça foram os anos sessenta. Foi aí que tudo aconteceu e o conjunto complexo dessas mudanças deu à década o seu charme.

No Brasil, por exemplo, era tanta coisa ocorrendo que nem dá para listar tudo – concretismo, arquitetura de Brasília, Bossa Nova, Cinema Novo, Garrincha, Eder Jofre, Ieda Maria Vargas, Jovem Guarda, fusca, tropicália, Leila Diniz, sem falar no que vinha de fora e se incorporava, como lambreta, pílula, mini-saia, Beatles, nouvelle vague…

Claro que, no bojo, vieram coisas nada agradáveis, como o golpe militar de 64, e depois, mais drástico, o de 68, mas digamos, com pesar, que tudo fez parte do contexto.

No terreno do cinema, uma coisa que estava no auge eram os cineclubes. João Pessoa teve vários, que formaram toda uma gama de futuros cinéfilos, eu inclusive.

De repente, ir a cinema não era mais só um mero divertimento, mas, também cultura, arte, sofisticação. Aparecia, pela primeira vez, a oposição entre “cinema comercial” e “cinema de arte”.

Localmente, quem teve um papel decisivo nessa mudança de comportamento do público foi a ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba), particularmente com a instituição do chamado “Cinema de Arte” que funcionava no Cine Municipal, às quintas-feiras.

Só tendo vivido a época para saber o quanto era existencialmente fundamental freqüentar essas sessões das quintas-feiras no Municipal, onde você encontrava a nata da intelligentsia pessoense (“aquele pessoal que escreve em jornal”, dizíamos), e era introduzido a filmes que o circuitão jamais mostraria – geralmente, as últimas invenções vanguardistas do cinema europeu, tipo, Truffaut, Godard, Fellini, Visconti, Bergman…

Tudo bem, no final de semana você até podia (escondido dos intelectuais) ficar na fila do Rex para ver – digamos – Gregory Peck em “Os canhões de Navarone”, ou na do Plaza, para ver Susanne Pleshette em “Candelabro italiano”, mas isto não devia, de modo algum, perturbar a noção recém-aprendida de que, no fundo, cinema era arte. Tinha que ser.

Se você tivesse sorte, a próxima sessão de quinta-feira no Municipal corrigiria os seus vícios hollywoodianos. Assistir lá – digamos – a “O Eclipse” de Michelangelo Antonioni devia limpar os seus olhos e mente dos vícios comerciais, ainda que você não entendesse nada do filme de Antonioni e, por ironia, tivesse entendido tudo de “Os canhões de Navarone” e de “Candelabro italiano”.

Já deu para sentir que estou escrevendo em tom de brincadeira, porém, a brincadeira se justifica: é que quero chegar a uma das criações sócio-culturais mais patéticas e engraçadas da década de sessenta, que foi – como defini-la? – a da figura do espectador de baixa estima, submisso, subalterno, o espectador que sabia de antemão que o filme (de arte, claro!) a que ia assistir estava, necessariamente, acima de seu nível intelectual. E mais, que só havia esperança de entendê-lo, se lesse os comentários dos críticos de cinema. De alguma maneira, eram filmes com bulas.

Com o cinema dito comercial nunca tinha havido esse problema: perante ele, todos eram iguais e todos entendiam tudo; com a noção de “cinema de arte” aparecia a inevitável separação recepcional: de um lado, os entendidos (críticos, especialistas, intelectuais), do outro, os leigos, que deviam humildemente esforçar-se para chegar lá, ouvindo atentamente os entendidos.

Eventualmente, nem os críticos conseguiam fazer você entender – vamos supor um caso extremo – “O ano passado em Marienbad”, e a razão (sabe-se hoje) era simples: eles mesmos não haviam entendido nada, por outra razão igualmente simples: a obra prima de Alain Resnais fora feita, de propósito, para não ser decodificada. E se não podia ser decodificada, como poderia ser explicada?

Como já dito, essas sessões de arte do Municipal foram determinantes de muitos caminhos e difícil seria diminuir a sua importância na formação do sistema cinematográfico local, porém, convenhamos aqui para nós, um ou outro desses filmes com rótulo de “cinema de arte”, podia eventualmente ser chato, desinteressante e pouco digerível; desse eventual filme chato acho que ninguém gostava – nem os intelectuais -, mas, quem, naquela época de vanguardismo ideológico, estaria doido para dizer uma coisa dessas de um filme concebido, rodado, distribuído e encarado com tal rótulo?

Bem, só se fosse o pessoal que lidava com humor e que tivesse autoridade para tanto. No Rio de Janeiro, foi o que fez Jaguar, em famosa charge de março de 1966, publicada no número 5-6 da Revista “Civilização Brasileira”.

A charge mostrava o público saindo de um cinema, onde acontecia um festival de cinema brasileiro. Saía todo mundo de cara feia, como quem comeu e não gostou, enquanto, lá num cantinho da calçada, um amigo explicava a outro, com o entusiasmo de quem houvesse descoberto a mais nova sacada da arte cinematográfica: “O filme é uma droga, mas o diretor é genial”.

À parte a maldosa ironia da frase de Jaguar, essa noção de que você devia ir a cinema para sofrer, porque o que estava em questão não era tanto o filme em si, esse mistério indecifrável, e sim, a revolucionária proposta estética do cineasta que o concebeu… essa noção foi levada a sério, perdurou e fez muitas vítimas, acho que algumas incuráveis.

Mais tarde, a mesma ideia penosa de que você devia ir a cinema para “ver” o diretor, e não o filme, deu até teorias, como a da pensadora americana Susan Sontag, que se aproveitou de Lacan para falar de um “cinema do significante”, em detrimento de um “cinema do significado”, aquele primeiro esteticamente superior porque feito, não para ser compreendido, mas “usufruído”.

Antes de Sontag, as socialites da vida, com a convicção de quem estava na moda, já diziam para não nos preocuparmos com o filme, pois “é chique não entender”.

Não sei que diretor brasileiro Jaguar tinha em mente na sua charge, e fico imaginando o rancor que ela deve ter provocado junto aos cinemanovistas de então.

De minha parte, aplico a ironia da frase de Jaguar a um ou outro cineasta europeu, que não cito para poder deixar aos leitores que, como eu, tenham vivido as dores e as delícias da década de sessenta, a liberdade de (re)considerar quais cineastas teriam sido, para eles, os criadores “geniais” de filmes “droga”.

Ah, esses controversos, essenciais e inesquecíveis anos sessenta…

 

Em tempo: esta matéria é dedicada a Yolanda e Cláudio Limeira.

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