D´accord, Mr Godard

19 mar

Não vou dizer que o western seja o meu gênero de filme preferido. Não é. Não é, e, contudo, toda vez que faço as minhas listinhas de filmes amados, nelas aparecem vários westerns. Atribuo o mérito, não ao gênero, mas aos filmes em si, até porque já é patente que o gênero praticamente não admite meios termos: um western ou é muito bom ou é muito ruim.

Uma coisa é certa: tenho o hábito de rever os westerns que amo, isto, quando o acesso é possível, o que nem sempre ocorre, já que o gênero, para muitos distribuidores, é coisa do passado.

Esta semana pude rever um que amo e que tem título sintomático, “O homem do Oeste” (“Man of the West”, de Anthony Mann, 1958), sendo ele também sintomático.

Quando o cinemascope colorido do fotógrafo Ernest Haller abre-se vemos Gary Cooper chegando a essa cidadezinha meio típica do Arizona de 1874. Vem de cavalo, mas aí, o que faz? Pagando uns centavos, deixa o animal num estábulo e segue para a estação ferroviária, para tomar um trem que vai conduzi-lo a uma cidade mais adiantada onde – saberemos mais tarde – pretende contratar uma professora, missão que lhe fora incumbida pelos cidadãos do seu distante povoado.

O trem é assaltado e os bandidos levam o dinheiro de Cooper, uma cota que o povo do seu lugar fizera para poder ter professora entre eles. Quando a locomotiva torna a partir, Cooper, no meio de uma paisagem desolada e inóspita, é deixado com uma dançarina e um dandi ferido que, meio a contragosto, conhecera no trem. Caminham a esmo até encontrar esse rancho decadente em cujo celeiro vão se esconder o dandi e a moça, enquanto Cooper se dirige ao interior da casa para solicitar abrigo. Ao invés disso, ele se depara com o bando que assaltara o trem, e pior, o chefe da gangue fora seu amigo, num tempo ido quando o próprio Cooper era um malfeitor como eles.

A partir daí, o filme se torna um fluxo de suspense que deixa o espectador tenso e curioso sobre o desenlace.

Não vou contar o final, mas preciso dizer que os bandidos (o ex-colega de Cooper incluído, feito por um ótimo Lee J. Cobb) são pessoas sujas fazendo coisas sujas, como não se costumava ver nos anos cinqüenta. Por exemplo, quando lhes trazem a moça, eles, de armas apontadas, e sem se importarem com Cooper – que mentindo, diz ser ela sua companheira – exigem um strip-tease, uma das cenas mais constrangedoras no enredo.

Nesse contato com o seu passado sujo, o próprio Cooper se suja e quando, mais tarde, luta com um dos bandidos ao ar livre, cobra o mesmo strip-tease ao rival, lhe arrancando enfurecidamente as roupas do corpo a todo custo. E, convenhamos, homem tirando a roupa de homem era coisa inviável nas telas hollywoodianas de 1958…

É claro que Cooper, que aposentara o seu revólver havia muito, é obrigado a pegar em armas e matar para poder reconquistar a vida honesta que conquistara a duras penas. Só exterminando o bando, numa cidade fantasma, resgata o dinheiro roubado e volta a ter a paz desejada, uma paz – agora sabemos – sempre precária e nada garantida.

Falei em sujeira a propósito dos personagens e a palavra é cabível. Revendo “O homem do Oeste” hoje é fácil perceber como nele estavam embutidas as raízes do cinema que se cometeria na segunda metade do século XX. Meio século atrás, o Oeste fílmico já era a terra “onde os fracos não têm vez”. Deve ter sido dele que Sam Peckimpah, por exemplo, retirou os principais ingredientes do seu estilo meio pornográfico e sanguinário. Não ficaria surpreso se viesse a saber que Tarantino, que nunca rodou faroeste, inclui o filme de Mann entre os seus preferidos. Ou, mais a propósito ainda, os bravos e indomáveis irmãos Cohen…

Decididamente, “O homem do Oeste” é um exemplo ostensivo do rumo que o western, enquanto gênero, tomou na década de cinqüenta, cada vez mais distante do modelo de divertimento infantil e cada vez mais próximo do filme para adulto.

A forma mesma como o filme se prende ao gênero é crítica. Vejam como um dos seus temas mais freqüentes – a dicotomia entre selvageria e civilização, que marcou a conquista do Oeste americano – é tratado com lucidez e desencanto. Quando, no início, Cooper troca o cavalo pelo trem, ele está fazendo uma troca do primitivo pelo moderno, e, contudo, é no espaço do moderno que a selvageria acontece. A professora buscada é outro elemento civilizatório perdido, pelo menos temporariamente.

Como o cavalo, o trem e a professora, a paisagem, no filme, contém igualmente simbolismos relativos à dicotomia em questão: primeiramente, a pradaria verdejante vista da janela de Cooper; depois a região seca e inóspita onde fica o antro dos bandidos; e por fim, a desolada e triste imagem da cidade fantasma, espécie de índice da marcha oeste que não deu certo. Como muito bem coloca um certo comentarista do filme, essas nuances paisagísticas são também nuances psicológicas do protagonista, e, – acrescento – por tabela também do espectador, que, vendo o filme de Mann, hoje ou em 1958, deve se dar conta de que a dicotomia violência/civilização perdura e se confunde no real e moderno Oeste americano do presente, para não dizer no país todo.

Uma curiosidade sobre “O homem do Oeste” é que sua fortuna crítica ilustra bem os conflitos entre os críticos de cinema, os quais o avaliam, da forma mais antagônica e inconciliável, ora como uma obra prima, ora como um filmezinho menor. Para dar apenas um exemplo, o crítico britânico Leslie Halliwell considera totalmente “dispensável” (´missable´) esse – palavras dele – “faroeste tagarela, artificial e cheio de clichês”. Já o crítico americano Paul Taylor o vê como – cito – “um western soberbo, grandioso, admirável e rico, para eternas descobertas e celebrações”.

Um fervoroso entusiasta de “O homem do Oeste” foi, e ainda hoje é, o cineasta francês Jean-Luc Godard, que o viu na sua estréia parisiense, em 1959, época em que estava rodando o seu “Acossado”… e se deslumbrou. Na revista Cahiers du Cinema escreveu: “jamais vi nada tão inovador desde Griffith. Anthony Mann – diz Godard – reinventa o western com o crayon de Matisse e o traço de Piero della Francesca. O rosto amorfo de Gary Cooper pertence ao reino mineral. É a prova de que Mann retorna às verdades primeiras.” E conclui: “uma admirável lição de cinema”.

Pois é, nunca pensei que um dia na minha vida pudesse concordar tão plenamente com Jean-Luc Godard.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: