Espectadores na berlinda

15 maio

Há não muito tempo, me liga alguém da imprensa local, para saber o que eu achava do comportamento dos espectadores da atualidade. O gancho, para uma matéria sobre o assunto, era que as pessoas mais adultas que frequentam os cinemas da cidade, estavam se queixando da algazarra que bandos de adolescentes maleducados andam fazendo nas salas de projeção, com isso atrapalhando a espectação.

O jornalista que me ligou queria saber como eram as sessões de cinema nos velhos tempos – provavelmente anos cinquenta – para fazer o contraponto com o presente. Certamente, ele esperava que eu lhe dissesse que as sessões de antigamente eram muito tranquilas, com espectadores – jovens ou velhos – silenciosos, educados e atentos à tela. A suposta tranquilidade de antigamente seria um bom argumento, jornalístico ou de outra ordem, para denunciar a bagunça de hoje, e, nisso, o meu depoimento seria importante.

Não li a matéria depois de publicada, mas desconfio que o meu depoimento não constou dela.

É que não pude mentir e disse a verdade.

Sim, a bagunça nas salas de projeção sempre existiu e, naquele tempo, anos cinquenta, acho que era mesmo maior.

Quem tem idade para tanto deve lembrar-se das turmas de retardatários que ficavam conversando na ante-sala do cinema, e só adentravam o salão de projeção depois de o gongo bater a chamada e as cortinas se abrirem. O tempo de, ruidosamente, se acomodarem (quando se acomodavam) era um tormento para quem estava a fim de assistir ao filme.

Fazendo parte dessa turma ou não, sempre houve um tipo de espectador bagunceiro de carteirinha, que ia a cinema exclusivamente com o objetivo de perturbar. Inspiradas ou sem graça, cabíveis ou inoportunas, suas “intervenções” ocorriam a qualquer momento da projeção e só paravam quando o fiscal tinha a sorte de, no escuro da sala, localizá-lo e pô-lo para fora. Isto, sob as vaias de quem ficava, o que também consistia em perturbação. Aliás, a mera existência de fiscais (ou seriam guardas?) nas salas já demonstra que as sessões de antigamente não eram nada tranquilas.

Um lance predileto desse bagunceiro profissional era ver o filme na sessão anterior (não se pagava mais para ver duas sessões seguidas) e, na seguinte, improvisar gracinhas com situações narrativas já conhecidas, do tipo, chamar pelo nome da atriz num momento em que ela olhava para trás. Ou avisar do perigo, antes que ele ocorresse. Ou soltar um grito histérico num momento de suspense.

 Comentar o filme em voz alta, gritar impropérios, assobiar, vaiar, soltar flatulências – orgânicas ou artificialmente produzidas – fumar (não era proibido!), eram coisas comuns que os espectadores sérios eram obrigados a aguentar.

Naturalmente, estou fazendo o relato da minha experiência de espectador em João Pessoa, porém, claro, a figura desse bagunceiro profissional de cinema foi um fenômeno nacional, se não universal. Ela está registrada no livro “Memórias de Hollywood” (São Paulo: Nobel, 1988), onde escritores brasileiros, em crônicas deliciosas, depõem sobre suas primeiras experiências como espectadores. Por ser otimamente ilustrativo, dele aqui cito um episódio narrado por João Antônio na crônica “Vibrações, Poeiras e Pulgueiros”. O filme visto era argentino, e, segundo o autor, o caso se deu no Cine Carlos Gomes em São Paulo, década de quarenta. Cito:

“Na tela, o personagem central foge de seus perseguidores, bando furioso. Ganha a rua de sua casa. Os inimigos atrás. Ele bate à porta, apressado. E com pavor:

– Madresita, abra depressa!

O herói a perigo. Os inimigos fechando no encalço.

– Abra, madresita!

Silêncio na sala. E lá do balcão, uma voz de um gaiato, tremida, imitando mulher:

– Non puedo, estoy a cagar.

(…) o cinema desaba na gargalhada.”

Casos semelhantes a este, já ouvi meus amigos contarem diversas vezes e, pessoalmente, conheci dois ou três bagunceiros de cinema, cujos nomes não estou autorizado a citar. Um deles, por exemplo, me contou que, no Cine Jaguaribe, por três vezes comprou ingresso e não assistiu ao filme em cartaz. Nas duas primeiras vezes, foi expulso por indisciplina no comecinho da sessão, e, na terceira, nem chegou a ver os trailers: ao entrar, a “natural” mostrava um famoso jogo Vasco-Flamengo no momento exato do gol, e ele, não contou conversa: levantou o braço direito e abriu o bocão `gooooool…` O fiscal, que estava por perto, aproveitou e segurou no seu braço erguido, conduzindo-o para fora da sala, assim, de braço erguido. Disse-me ele que não baixou o braço nem parou de gritar ´gol´ até chegar à calçada, mas acho que é exagero.

Como as sessões eram contínuas e não se pagava de uma para a outra, o entra-e-sai nas salas de projeção era grande, com – em qualquer momento da sessão – gente se levantando para se retirar e gente chegando e tateando no escuro, para achar um lugar vago para sentar.

Num tempo em que não existiam motéis e os pais eram bem mais rigorosos, uma atitude comum entre os jovens era a de namorar no cinema. Normalmente, esses casais mal (ou bem) intencionados se sentavam nas fileiras de trás, ou – quando existia o chamado balcão – iam para o primeiro andar, local mais secreto e mais aconchegante. Os mais discretos ou tímidos ficavam apenas em beijos, mas outros, iam bem adiante… e quem tivesse por perto podia, se quisesse, ver tudo pelo canto do olho. E, a depender da impetuosidade dos casais, via-se muito mais do que o Código Hays de Censura permitia que Hollywood mostrasse na tela.

O desconforto dos espectadores de então se completava com as instalações. Ao contrário das de hoje, as salas de cinema da época tinham pouca – e em alguns casos, nenhuma – inclinação de piso, e você, para ver a tela inteira e poder ler as legendas, tinha que ficar, o tempo inteiro, driblando a cabeça de quem sentava a sua frente, o que, convenhamos, era cansativo, considerada a duração de um filme. Sem esquecer que as cadeiras da época, muitas vezes com encosto e assento de madeira, muito pouco tinham de confortáveis.

Dependendo do cinema escolhido, se você precisasse ir ao banheiro masculino, devia ter cuidado onde pisava, pois os usuários nem sempre tinham boa pontaria, e, resultado, o piso ficava sempre úmido. Sem falar no odor, aquela mistura enjoativa de creolina, limão em fatias e urina. Ainda hoje certos maus cheiros me lembram o banheiro do Cine Brasil.

Ar condicionado, nem pensar. O calor era grande, principalmente porque as sessões costumavam ser lotadas, e, quando o filme era mais popular, nem se fala! Neste caso, se a sessão era diurna, você, exposto ao sol, já vinha de uma fila enorme que rodeava o quarteirão. Em João Pessoa, acho que o primeiro ar condicionado só apareceu em 1963, com a reforma do antigo Plaza.

O som era precário e se, por acaso, o filme fosse uma chanchada brasileira, você perdia parte das piadas ditas, até porque a risadagem podia ser ensurdecedora. No caso dos filmes estrangeiros, o dano era menor, mas, de todo jeito, o efeito geral não era bom.

Igualmente precários eram os aparelhos de projeção, e a coisa mais comum do mundo era a fita quebrar e a projeção ser interrompida por alguns minutos. Nos casos crônicos (fita muito rodada), isto podia acontecer várias vezes durante uma mesma sessão, evidentemente, com gritos dos sinceramente indignados, ou dos bagunceiros, que aproveitavam para xingar a mãe do projecionista, ou simplesmente, para acrescentar mais alguns itens ao seu repertório de gracejos.

Se toda essa intranquilidade nas salas era mais comum nos cinemas de bairro de João Pessoa (Jaguaribe tinha três!), os cinemas do centro não ficavam fora do esquema da bagunça. Com certeza, muitas das matinées de dias de semana, no Rex ou no Plaza (o Municipal veio depois), quando, com certa regularidade, a estudantada dos colégios da cidade decidia gazear aula para ver uma fita, eram mais barulhentas do que qualquer sessão de hoje nos shoppings da vida. E vejam que, por razões óbvias, estou deixando de fora, aqui, as matinais infantis de faroestes, em que a gurizada, torcendo pelo mocinho ou xingando os bandidos, só faltava quebrar as cadeiras do cinema, com murros, pontapés e outros golpes baixos.

Enfim, seria o caso de se perguntar, qual, em termos recepcionais, a diferença entre o passado e o presente. Bem, eu tenho uma teoria. O espectador de hoje em dia é extremamente exigente com a sala de espetáculo onde assiste a filmes, porque não ama o cinema suficientemente. O espectador de antigamente o amava tanto, que fazia vista grossa (e ouvido grosso) da bagunça.

Se não for exatamente isso, é coisa parecida.

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