Só para lembrar Audrey

26 maio

Estávamos no comecinho dos anos sessenta. Kennedy ainda não tinha ido a Dallas, as mulheres ainda não tinham queimado os sutiãs, os estudantes franceses ainda estavam em sala de aula, e os hippies ainda não haviam se agrupado.

Com elegância aristocrática e ao som do suave “Moon River” de Henry Mancini, essa mocinha magra desce de um carro numa rua de Manhattan e, em frente à milionária joalharia Tiffany´s, se detém, por um tempo, espiando as jóias nas vitrines. É madrugada e ela mastiga um frugal sanduíche, depois de uma noite de…

A cena – creio que vocês recordam – é de “Bonequinha de luxo”, filme que, neste 2011 em que estamos, completa – quem diria? – cinquenta anos. Nos Estados Unidos, estreou (chequei) em outubro de 1961, e no Brasil, logo depois, em novembro do mesmo ano. Não sei quando chegou a João Pessoa, mas, ainda hoje me vejo, enfiado numa cadeira do Cine Municipal, deslumbrado com o seu tecnicolor, esquecido do mundo e da vida…

O título brasileiro faz referência eufemística à profissão da protagonista, enquanto que o original, “Breakfast at Tiffany´s” (´Café da manhã na Joalharia Tiffany´), indica a cena de abertura, acima descrita. Livremente baseado no romance homônimo de Truman Capote, foi, sem dúvida, uma dos filmes emblemáticos dos múltiplos e confusos anos sessenta, mas, não é dele que quero tratar aqui. Tomo-o como pretexto para falar de sua atriz-títular, uma das musas do cinema que mais me encantou e que continua me encantando, cada vez que revisito seus filmes.

Pois é, vamos lembrar Audrey Hepburn (1929-1993)?

Embora de ascendência nobre, Audrey não foi sempre a figura leve e delicada que imaginamos haver sempre habitado um mundo de bem-aventurança: na realidade, passou por momentos difíceis na sua juventude.

Filha de banqueiro inglês com baronesa holandesa, nasceu em Bruxelas, Bélgica, onde, ainda muito jovem, testemunhou o terror nazista e passou maus pedaços. Chegou a ser assistente de enfermeira durante a guerra, período em que conviveu com tanto sofrimento que, muitos anos depois, quando já estava em Hollywood e famosa, recusou-se a interpretar, na tela, a garota Anne Frank (aquela do diário), alegando que não suportaria reviver o passado.

Depois da guerra, e com a separação dos pais, mudou-se para Londres onde estudou balé e música. Para o cinema britânico atuou em sete ou oito filmes pequenos, em papéis irrisórios, quase sempre de garçonete ou recepcionista de hotel.

Sua vida deu uma virada quando foi indicada para fazer o papel-título da peça “Gigi” nos palcos da Broadway, uma indicação da própria Colette, autora da peça, que a vira em algumas de suas pontas nas telas. O estrondoso sucesso teatral de “Gigi” conduziu-a diretamente às câmeras de Hollywood.

Contracenando com Gregory Peck, estreou em “A princesa e o plebeu” (1953), filme onde, mui apropriadamente, ela faz a princesa do título, cansada da sufocante “noblesse” que “oblige”. Impressionado com o seu talento, Peck – treze anos mais velho que ela e já consagrado havia muito – insistiu, junto aos produtores, em que o nome dela tivesse, nos créditos, a mesma dimensão do seu, pois apostava que o Oscar de melhor atriz do ano iria para essa novata no cinema americano. E foi.

Com um Oscar nas mãos, as coisas se tornaram mais fáceis. Embora ainda ganhando pouco (cerca de 15 mil dólares) foi escalada pela Paramount para o papel-título de “Sabrina” (1954), uma comédia romântica, baseada na peça de Samuel Taylor e também sucesso na Broadway. O nada romântico Billy Wilder dirigiu o filme, os nada cômicos Humphrey Bogart e William Holden atuaram e ela, a princesa premiada, ganhou o papel de filha de motorista da mansão Larrabee. Pode?

Bem, de filha de motorista (vocês lembram, não é?) ela vira senhora Larrabee no final – o filme foi um sucesso e definitivamente consolidou a sua carreira de estrela do cinema. No próximo ano, casada com o colega Mel Ferrer, ela já estava no elenco da superprodução “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956) como a delicada Natasha, e, daí em diante, a sua fama, junto com os honorários, não parou mais de subir.

Quando, dirigida por Blake Edwards, fez o nosso “Bonequinha de luxo” para a Paramount, o seu salário já estava perto de um milhão, e já era conhecida como uma das mulheres mais elegantes do mundo, encarnando uma espécie de elo icônico entre cinema e moda, sempre (desde “Sabrina”) vestida pelo mestre e amigo Givenchy.

Apesar do tema geográfico da letra, o compositor Henry Mancini não escondia que compôs a melodia de ´Moon River´ pensando nela – o que deu (tomara que vocês lembrem!) uma das imagens mais amadas na história da sétima arte: na janela do seu apartamento, uma Audrey melancólica dedilha e solfeja a bela canção de Mancini, espiada de longe pelo seu vizinho, jovem escritor em crise de criação. Contam que, depois do filme montado, os executivos da Paramount quiseram, por motivos mercadológicos, cortar a cena, e ela, categórica, teria respondido: “só se for por cima do meu cadáver”.

Qual o melhor filme de Audrey? Nem todo mundo acha que seja “Bonequinha”. Uns citam o drama religioso “Uma cruz à beira do abismo” (Fred Zinnemann, 1959); outros apontam o faroeste “O passado não perdoa” (John Huston, 1960); outros preferem o suspense “Um clarão nas trevas” (Terence Young, 1967). Há até quem mencione “A flor que não morreu” (1959), filme mal sucedido de crítica e público que o marido, Mel Ferrer, dirigiu, com base no romance de William Henry Hudson…

Talvez por influência de “A princesa e o plebeu”, Audrey fez, com freqüência, o papel de mocinha apaixonada por um cara mais velho. Para citar alguns exemplos, além de “A Princesa” e “Sabrina” (Bogart tinha 55 anos então), lembremos: “Amor na tarde” (Gary Cooper, perto dos 60 anos), “Cinderela em Paris” (Fred Astaire idem), “Charada” (Cary Grant idem), e – uma de suas mais impressionantes interpretações – “My fair lady”, com o quase sexagenário Rex Harrison.

Mas, evidentemente, não foi isso que a caracterizou. Caracterizaram-na o seu talento, a sua elegância, a sua finesse, e, last but not least, a sua beleza.

“Com o rosto que tenho, nunca pensei que fosse parar no ramo do cinema” dizia Audrey de si mesma.

Como estava enganada. Treze anos depois de sua morte, em 2006, foi eleita pela equipe da Revista “New Woman”, a mulher mais bela de todos os tempos.

Como se os fãs de Audrey Hepburn precisassem de eleições…!

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2 Respostas to “Só para lembrar Audrey”

  1. Gilberto de Sousa Lucena dezembro 22, 2011 às 12:40 pm #

    Prezado João:

    Audrey, além da beleza física, foi um grande ser humano. Já perto de nos deixar, se dedicou com muita intensidade a causas sociais em países pobres da África. Como excepcional atriz nos premiou com momentos dos mais belos que o cinema produziu. O seu magnetismo era impressionante. Sou grande fã dela. Vendo seus filmes, também “esqueço do mundo e da vida”.

    Um abraço.

    Gilberto Lucena

    • João Batista de Brito dezembro 22, 2011 às 2:07 pm #

      Gilberto, você que ama Audrey (que nem eu) aguarde uma matéria a ser postada brevemente, chamada de “Tudo sobre Holly”.
      Abraço de João.

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