Visconti e a cinefilia sessentista

30 maio

Em uma das locadoras da cidade, me deparo com a caixa do DVD de “Vagas estrelas da Ursa”, selado já há algum tempo, mas só agora disponível por aqui. Adorei pronunciar os três substantivos do seu título e sentir o ritmo do verso, nisso me reportando nostalgicamente aos anos sessenta, quando vi o filme em sua estréia local, mas, juro, não consegui reconstituir, na memória, praticamente nada do enredo.

Um tanto preocupado, me indaguei por que, e só estou escrevendo esta matéria porque me deparei com a resposta: na época, enfrentei-o como um símbolo, e não como um filme.

Sim, filmes há que valem mais pelo que simbolizam do que pelo que realmente são.

Para uns, o melhor Visconti, para outros, o pior, esse obscuro drama intimista sobre incesto e decadência, que Luchino Visconti lançou em 1965, é um símbolo do cinema maduro, sofisticado, intelectual, que se podia fazer nos anos sessenta, o típico filme a que, na época, nós, cinéfilos entusiastas, batizávamos com a consagradora expressão “cinema de arte”. Para nós, era algo assim como a poesia europeia contraposta à prosa americana.

Aliás, neste caso, a poesia já vinha no belo e ressonante título, ainda mais belo e ressonante no original “vaghe stelle dell´orsa”, fragmento do poema de Leopardi “Le ricordanze”, de cuja primeira estrofe – agora percebo – foi bolado o enredo inteirinho. Cito, traduzindo livremente: “Vagas estrelas da ursa, nunca pensei que tornaria a ver-vos, brilhando no jardim de meu pai; nem falar-vos das janelas desta casa, onde passei minha infância e onde a minha derradeira alegria esvaeceu.”

No enredo do filme, essa jovem senhora Sandra (Claudia Cardinale) deixa a confortável Genebra onde reside, e retorna, após muito tempo, à mansão de sua aristocrática e decadente família, para uma breve homenagem ao pai, que, há muito falecido, teria sido um herói da segunda guerra, judeu traído e morto em Aschwitz. Nesta Volterra italiana, de remota e fantasmagórica ascendência etrusca, ela reencontra dores e delícias, na figura da mãe doente e hostil, e, sobretudo, na pessoa do irmão Gianni (Jean Sorel), que a ama carnalmente. Casada com o americano Andrew Dawson (Michael Craig), Sandra se digladia entre um perigoso passado de sombras e pecados, e um promissor presente, asséptico e seguro. Tudo isso, com evidentes ecos trágicos da “Electra” de Sófocles, aliás, admitidos pela equipe do filme.

Para voltar aos simbolismos culturais e recepcionais do filme de Visconti, devo dizer que o vi, a primeira vez, no tempo e no lugar certos: anos sessenta, em uma das badaladas sessões de quinta-feira do programa “Cinema de Arte” do Cine Municipal, organizado pela Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba.

Para estas sessões – vocês lembram – afluíam todas as cabeças pensantes da cidade e o alvoroço nas calçadas ou na ante-sala do cinema tinha todo aquele clima de cinefilia em ebulição que hoje não existe mais. Clima que, após a sessão, se estendia aos bares, fosse a Churrascaria Bambu, na Lagoa, ou o Luzeirinho, em Jaguaribe, onde uma cerveja gelada e um tiragosto de carneiro tornavam qualquer papo inteligente.

Estou falando sobre o passado e, portanto, posso não ser correto nem justo, porém, acho que para muitos de nós, espectadores privilegiados desse “Cinema de Arte”, não importava tanto a real qualidade do filme a que se assistia, mas, muito mais – repito – o que ele simbolizava do ponto de vista cultural, intelectual, ideológico, e… mitológico. No caso em questão, tratava-se de Luchino Visconti e Claudia Cardinale e, portanto, era algo digno de ser visto com reverência estética. Era impreciso, tortuoso, sombrio, mórbido e melodramático, mas era também, anti-hollywoodiano e isto já era muito.

Suponho que, na minha euforia de jovem cinéfilo, foi assim que reagi a “Vagas estrelas da Ursa”, na época. Devo ter ficado orgulhoso de tê-lo visto, devo ter conversado sobre, porém, no fundo de meu espírito não me tocou, e, pouco tempo depois, eu já o tinha esquecido completamente, dele ficando apenas a sonoridade do seu mesmérico título. Sintomaticamente, nunca esqueci os filmes anteriores de Visconti, “Rocco e seus irmãos” (1960) e “O Leopardo” (1963)!

Rever “Vagas estrelas da Ursa” agora foi, ao mesmo tempo, excitante e decepcionante. Excitante porque me trouxe de volta às sessões do “Cinema de Arte” do Municipal; decepcionante porque, sem o seu tempo e o seu contexto, o filme, em si mesmo, perdeu parte da magia e o seu simbolismo cultural se evaporou. Para lhe fazer justiça, creio que é fácil entender porque os cinéfilos do passado continuam amando-o e, igualmente, porque os de hoje lhe reagem mal. Se me for permitido um pouco de ambigüidade, diria que gostar ou não gostar de “Vagas estrelas da Ursa” não vem muito ao caso: as duas atitudes se justificam.

Agora, de fato, desconsiderado o contexto “simbólico” da recepção sessentista ao filme,  não dá para esconder: cambaleando entre poesia plástica e melodrama, o enredo não nos absorve e os personagens não nos convencem de todo, embora todos os atores estejam ótimos em seus respectivos papéis. Acompanhamos o desenvolvimento da estória como algo alheio, acontecido a estranhos com quem não nos identificamos e com quem não nos envolvemos, nem, a esse propósito, somos convidados a tanto. Essa “frieza recepcional”, se está em nós, é proporcionada pelo filme, que não sabe se entregar.

Os temores de Sandra, as incertezas do marido Dawson, os ataques da mãe, as crises exacerbadas do irmão Gianni,… nos parecem agora encenações bem feitas, mas, apenas encenações, e o clímax dramático do desenlace (Sandra na homenagem pública ao pai, em vias de ter a notícia da morte do irmão) nos soa como nada mais que um excelente exercício de cinema, bom para o intelecto, mas nulo para o coração.

Lendo, depois de ter revisto o filme, uma certa entrevista de Visconti, não fiquei nada surpreso ao ser informado por ele mesmo a respeito da sua técnica empregada na direção. Confessou que fez questão de não se envolver com os personagens e seus dramas, e dirigiu tudo com um distanciamento calculado e sistemático. Pudera: o resultado apareceu.

Só mais uma coisinha a ponderar. Disse eu que, nas nossas cabeças sessentistas, a poesia do filme se contrapunha à prosa americana. Agora me dou conta de que nem tanto. Prestem atenção ao desenlace, parte do filme que normalmente fornece à leitura o viés interpretativo do todo.

Se porventura o marido de Sandra, o Mr Dawson, é, na construção do enredo, o representante do tempo presente, claro, racional, prático e seguro – ou seja, o american way of life, contra a poética e sombria decadência italiana – é ele quem, no desenlace, sai ganhando… Por dados diegéticos (os dois bilhetes a nós deixados, um pelo marido que parte, o outro, pela esposa que fica) somos informados que, em um futuro pós-tela, Sandra a ele deverá reunir-se, e os dois serão “prosaicamente” felizes, onde? Não em algum malassombrado e trágico castelo da Itália etrusca, mas, na moderna e progressista Nova Iorque.

Este talvez tenha sido o único “porém” que nós, os espectadores embevecidos do “Cinema de Arte”, teríamos apontado em “Vagas estrelas da Ursa”, na época… Se foi, nem disso me lembro.

Enfim, não sei se pôde o leitor perceber que de crítica e auto-crítica esta matéria tem um coeficiente igual.

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