Querida, cheguei!

3 jun

Apesar da vasta bibliografia editada sobre a sétima arte, ainda não se escreveu a taxionomia das narrativas cinematográficas. Nesse âmbito da classificação e dos modelos, o óbvio estudado e conhecido são os gêneros, mas, como o nome diz, estes são genéricos demais. Falta o Vladimir Propp do cinema, para ir atrás dos caminhos ficcionais menos ostensivos e que, no entanto, têm as suas recorrências e as suas particularidades. Aqui me detenho em um desses caminhos.

Quero referir-me àquele tipo bem particular de filme que, ao invés de uma diegese, possui duas. E por diegese entenda-se o universo ficcional que qualquer obra narrativa cria.

Neste tipo de filme os dois universos funcionam paralelamente, um literal, mimético, tal e qual o mundo em que vivemos; o outro, transcendental, fictício, sem importar se meramente onírico, alucinatório ou mesmo metafísico. Geralmente há pontos de contato entre os dois, espécie de engates mágicos que permitem aos personagens e aos espectadores passar de uma dimensão à outra.

Para ficar claro, vamos aos exemplos, lembrados ao acaso, mas citados em ordem cronológica: “O mágico de Oz”, “Horizonte perdido”, “A felicidade não se compra”, “Um retrato de mulher”, “Júlia e Júlia”, “A rosa púrpura do Cairo”, “Asas do desejo”, “Peggy Sue – seu passado a espera”, “Feitiço do tempo”, “O show de Truman”…

Pois bem, um dos mais curiosos desses filmes bidiegéticos foi dirigido pelo novato – até então roteirista – Gary Ross em 1998, e se chama “A vida em preto e branco”, que, na época de sua estreia, pouca atenção recebeu da crítica, ou do público, e que, no entanto, vem ganhando, com o passar do tempo, um certo charme de clássico moderno.

Por acidente, dois irmãos, um rapaz e uma moça que brigam por causa de um controle remoto de TV, são magicamente transportados para dentro do universo de um seriado televisivo dos anos cinqüenta, e lá ficam presos, sem poder voltar ao mundo de hoje e tendo que adaptar-se às regras de uma cidade chamada “Pleasantville” (o título original do filme) onde tudo é simetricamente ´agradável´ (pleasant).

De repente, os dois jovens se vêem na condição de membros de um lar perfeito em que, todos os dias, tudo se repete, sem variações e sem conflitos.

Passam a ser testemunhas, por exemplo, da cena mais típica do seriado, que é a da chegada do marido de meia idade à casa, depois de um dia de trabalho, sendo recebido pela esposa sorridente, que o acolhe com o mesmo carinho de todo dia e o mesmo bom jantar de todo dia, o qual ele degusta com o mesmo prazer de todo dia, embora o casamento já seja velho de décadas.

“Querida, cheguei!”, anuncia ele, eufórico, da soleira da porta e lá vem ela, igualmente eufórica, repetindo os mesmos gestos, etc…

Nesta cidade em preto e branco não há preocupações, nem dores, nem sustos e o corpo de bombeiros só serve para resgatar algum gatinho descuidado que subiu numa árvore do jardim e não sabe como descer. A prática de esportes é uma beleza porque não se joga uma bola para cima que não caia dentro do cesto. No colégio, as perguntas mais difíceis dos simpáticos professores são sobre as ruas da cidade, e nenhuma sobre o que fica fora, pois, evidentemente, o fora não existe. Os livros da biblioteca pública têm, todos, páginas em branco porque em Pleasantville jamais se trataria de coisas tristes.

Fã do seriado, a que, certamente em alguma Sessão Nostalgia, sempre assistia antes do acidente com o controle remoto, o rapaz (Tobey Macguire) conhece as regras do lugar e as segue com facilidade e até com gosto. Sua irmã (Reese Witherspoon), porém, não vê a hora de escapulir desse lugar certinho e chato, e, como não pode, passa a reagir contra o modus operandi de Pleasantville, promovendo quebras desestruturadoras do sistema inteiro.

A primeira que promove é levar um inocente rapaz da cidade a um local afastado e lá fazer com ele o que uma mocinha de família não faria em 1950. Ora, o gesto ousado tem uma conseqüência imediata: em algum lugar de Pleasantville uma rosa em preto e branco fica, súbita e alarmantemente, colorida. O seu segundo gesto também é de natureza sexual: maldosamente, explica à dona da casa que ela pode sentir mais prazer sozinha do que com o marido, e quando a respeitável senhora se masturba e atinge o orgasmo, na banheira de água quente, um arbusto do jardim da casa, automaticamente, pega fogo

Aflito, o irmão da moça corre até o quartel dos bombeiros, gritando “fogo”, palavra que, evidentemente, os bombeiros não conhecem e, portanto, nem se mexem. Foi preciso que ele gritasse “gatinho” para que a tropa toda se levantasse e acorresse ao local do sinistro, naturalmente guiado pelo rapaz, que lhes ensina a apagar o fogo no arbusto em chamas.

Depois disso, o rapaz vai se ver obrigado a explicar aos jovens da cidade por que é que sabia como apagar um incêndio, e mais: que eram, ele e a irmã, originários de outro mundo, muito maior, mais problemático, mais imprevisível, e mais perigoso… Como um dos anjos em “Asas do desejo”, uma moça que ouve isso, fica fascinada em conhecer a imperfeição.

Enfim, querendo ou não, bem ou mal intencionados, os dois – digamos – “alienígenas” vão provocando convulsões na cidade e em seus habitantes, os quais, em crise, vão, mudando de comportamento, perdendo em “perfeição” e ganhando em cores.

Para recapitular itens já postos, não apenas os bombeiros aprendem o significado da palavra fogo, como, no jogo do colégio, as bolas lançadas ao alto deixam de cair necessariamente no cesto, e as páginas em branco dos livros se enchem de palavras, escritas por seres subversivos, como D. H. Lawrence, Mark Twain e J. D. Salinger.

Até o marido – protagonista do seriado – (excelente desempenho de William C Macy) irá ganhar cor, mas não sem antes passar pelo trauma de chegar em casa e não encontrar a esposa, agora furtiva, indócil, e pior, ausente, o que o deixa completamente surtado, vagando pelo meio da casa como um zumbi, repetindo inutilmente o agora vazio: “Querida, cheguei”.

O desenlace não interessa tanto, até porque o melhor do filme não é a sua resolução, e sim, o contraste que deixa criado, na cabeça do espectador, entre o real colorido de hoje e o fictício preto e branco do passado.

É claro que esse mundo preto e branco do passado é simbólico, acho que em pelo menos três níveis.

Literalmente, é só o mundo falso da TV, uma mídia que apareceu como, para os espectadores mais ingênuos, a ilusão de uma felicidade dentro de casa.

Num segundo nível, histórico ou sociológico, é a representação de tudo o que é pertinente à primeira metade do século XX, quando – queiramos ou não – o comportamento social era regido por outras regras, que não as atuais. O “sistema pleasantville” pode ser extremista, mas, sem dúvida, a noção de família, por exemplo, era uma em 1950 e é outra hoje em dia. Não é somente porque os maridos de meia idade de agora, ao voltar do trabalho, não digam mais o eufórico “querida, cheguei!” a esposas igualmente eufóricas, mas porque… Bem, não creio que seja necessário estender a explicação.

Num terceiro nível, digamos psicológico, esse ideal mundo preto e branco simboliza todos os nossos anseios individuais de perfeição – aquele eventual desejo, vago mas intenso quando pinta, de viver num universo – subjetivo e objetivo – sem conflitos, em suma, aquela utopia privada que nos serve, às vezes, de dolorido ponto de referência aos nossos desacertos, desventuras e desesperos.

Se você quiser, “A vida em preto e branco” pode ser comparado aos contos de fada e, neste caso, o controle remoto que viabiliza o traslado de uma dimensão a outra, equivaleria à varinha de condão das estórias infantis. E o técnico de TV que o traz seria a fada – papel sintomático de Don Knotts, profissional de televisão, bem conhecido do público americano. Com, no entanto, um detalhe importante: como na “Metamorfose” de Kafka, uma vez feita a mágica, todo o resto funciona realisticamente, ou pelo menos, dentro de uma lógica impecavelmente auto-controlada.

Vejam o caso das mudanças cromáticas em Pleasantville: para cada choque interior, uma nova colorização dos corpos ou das paisagens – e tudo isso mostrado de maneira coerente, progressiva e, mais importante: convincente. Impressionante como os personagens do seriado nos parecem tão carne e osso quanto os outros, do mundo “real”.

Não seria demais afirmar que, do ponto de vista técnico e temático, o filme de Gary Ross exibe o mais genial uso do contraste preto-e-branco versus cor que o cinema já fez – responsável pela sua semiótica condição de obra filosófica sobre o comportamento social no Século XX.

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4 Respostas to “Querida, cheguei!”

  1. Jorge H. E. Silva fevereiro 3, 2012 às 9:38 pm #

    Vou procurar esse filme! Até pode ser que o tenha visto mas, depois de ler suas anotações, a leitura será outra, certamente! Obrigado João!
    P.S. Aconteceu há muitos anos com o filme “O Piano”: após o “alerta” a gente observa de uma outra maneira.

  2. Joselayne Ferreira junho 25, 2013 às 11:34 pm #

    Olá, João!
    Eis aqui um agradecimento e um pedido.
    Obrigada por esse texto maravilho. Por conta dele assisti ao filme com um olhar bem aguçado, digamos assim. Adorei.
    Gostei muito de ler sobre a bidiegese. Para ser sincera, me interessei bastante pelo tema. Você teria algum texto/livro/ensaio para me recomendar sobre filmes bidiegéticos?

    Até mais e muito obrigada pelo texto.

    • João Batista de Brito junho 28, 2013 às 6:04 pm #

      Olá, Joselayne:
      Não lembro de textos/livros sobre o problema da bidiegese. Eu mesmo escrevi algumas vezes sobre, mas no momento, não lembro que textos foram, nem onde estão. A propósito, veja neste blog a matéria “Um cineclube inominado” – uma das mostras do referido cineclube foi ´Universos Paralelos´, ou seja, filmes bidiegéticos. Grande Abraço de João.

      • Joselayne Ferreira junho 29, 2013 às 12:30 am #

        Legal. Vou conferir.
        Muito obrigada.
        Abraços.

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