Troca de elenco

16 jul

Uma amiga minha não sabia que as atrizes hollywoodianas Bette Davis e Joan Crawford eram, na vida real, inimigas figadais. Ao saber, me conta ela que, agora, toda vez em que assiste a um filme com Davis, fica imaginando como seria esse filme se fosse com Crawford, e vice-versa.

Que tal “Johnny Guitar” com Bette Davis? Ou “A carta” com Joan Crawford? Conversando sobre o assunto, concordamos em que, se aleatoriamente generalizada, a troca de elenco dos filmes da vida bem que daria uma matéria engraçada para divertir os cinéfilos.

Mas, ora, uma coisa curiosa é que, para fazer tal matéria nem precisamos fantasiar muito.

Ocorre que normalmente, ao longo do convulso processo de produção, os filmes não tiveram o elenco que exibem depois de prontos. Na verdade, coisa caótica e sem controle, o “engarrafamento” de nomes a contratar e a contratação de última hora do elenco foram sempre a regra, pelo menos na Hollywood clássica, e os fatores que determinavam quem ia trabalhar em que eram tantos que seria cansativo listá-los. De repente, um ator, ou atriz, escalado para uma produção podia ser barrado pelos estúdios, ou eventualmente optar por outro projeto mais rentável, ou não gostar do papel, ou adoecer, ou o diretor podia não ir com cara dele/dela, ou ele/ela podia ser recusado pelo produtor, ou pela companhia distribuidora, etc, etc, etc…

Nesse sentido, e para não perder o gancho que minha amiga me deu, passo a listar uma série de filmes, consumados e consumidos, cujos elencos nos parecem os mais perfeitos, e que, no entanto, por muito pouco não tiveram outros nomes em seus créditos.

Um caso famoso é o de “Um corpo que cai”. Se porventura é difícil imaginar alguém mais perfeito do que a maravilhosa Kim Novak na carne e no espírito da misteriosa Madeleine, na verdade o papel não foi concebido para ela. Junto com seu roteirista, Hitchcock concebeu o papel, com o maior carinho, para Vera Miles, uma de suas louras preferidas. Nos preparativos das filmagens, Vera aparece grávida e, aí, os estúdios empurram a substituta Kim e o velho Hitch é forçado a aceitar a troca. Dizem que, inconformado, nunca dirigiu uma só palavra à Kim, durante toda a filmagem.

Vera Miles, por sua vez, nunca mais foi a mesma e sua carreira degringolou depois disso. A coisa foi tão séria que, há não muito tempo, o seu filho (sim, aquele cujo nascimento a tirou de “Um corpo que cai”!) publicou uma autobiografia se redimindo da culpa de haver nascido em momento tão inoportuno.

Quem imaginaria “E o vento levou” (1939) sem Clark Gable e Vivien Leigh? Pois é, o personagem de Rhett Butler era para Gary Cooper (que não quis), e o de Scarlett O´Hara para Paulette Godard (que não pôde), e as trocas foram feitas de última hora.

Por pouco quem ia cantar “Over the rainbow” em “O mágico de Oz” (1939) era a pequena Shirley Temple, na época muito mais conhecida do que a novata e já grandinha Judy Garland.

O bon vivant conquistador de “Ninotchka” (1939) era para ter sido, não Melvyn Douglas, mas Spencer Tracy (o primeiro cogitado), ou então Robert Montgomery (o segundo).

Já pensaram “Casablanca” (1942) sem Humphrey Bogart e Ingrid Bergman? Dá um frio na coluna saber que os primeiros escalados pela Warner foram (pasmem!) Ronald Reagan e Ann Sheridan.

O agente de seguros que trama o crime perfeito em “Pacto de sangue” (1944) seria George Raft, se o ator não tivesse tido outro compromisso, e a produção foi forçada a ficar com quem ficou: Fred MacMurray.

O alcoólico nada anônimo de “Farrapo humano” (1945) ia ser interpretado por Cary Grant, cujos agentes não gostaram da idéia de manchar sua imagem. Os produtores pensaram em Jose Ferrer, e Ray Milland, então considerado um canastrão, só entrou na jogada no último instante.

O papel de Margo, a atriz de teatro passada para trás pela novata Eve, em “A malvada” (1950) teve uma lista de candidatas, na ordem: Marlene Dietrich, Tallulah Bankhead, Susan Hayward, e finalmente, como sabemos, Betty Davis.

Outro papel disputado foi o de Norma Desmond, a decadente estrela do cinema mudo de “Crepúsculo dos deuses” (1950), feita por Gloria Swanson, que o ganhou de três concorrentes fortes: Mae West, Mary Pickford e Pola Negri.

Quem ia ser a frágil e nervosa Blanche de “Uma rua chamada pecado” (1951) era Olivia de Havilland, e o seu grosseiro cunhado Stanley Kowalski seria John Garfield, mas, problemas de bastidores mudaram o elenco para Vivien Leigh e Marlon Brando.

A imagem de Shane (de “Os brutos também amam”, 1953) está definitivamente associada ao ator Alan Ladd, porém, o papel foi concebido para Montgomery Clift, que teria como hospedeiro o rancheiro William Holden (no filme Van Heflin).

Em “A princesa e o plebeu” (1953) o nome de Audrey Hepburn surgiu de última hora, e, por decisão dos estúdios, tomou o lugar de Jean Simmons. Já “Sabrina” (1954) era para ter sido com Cary Grant, e não com Bogart, o qual, fez o que pôde para descartar Audrey e colocar sua mulher, Lauren Bacall, no papel-título. Por sorte nossa, não conseguiu.

Em “A um passo da eternidade” (1953), quem estava escalado para ser o charmoso sargento Warden, no quartel de Pearl Harbor, era o feioso Walter Matthau. Tivesse isto acontecido e um pouco diversa seria a cena do beijo na praia entre Deborah Kerr e (o escolhido) Burt Lancaster.
Judy, a namorada de James Dean em “Juventude transviada” (1955) seria – imaginem só – a louraça peituda Jane Mansfield, e não a delicada morena Natalie Wood. James Dean, por sua vez, quase não ganha os papéis que ganhou em “Vidas amargas” (1955) e “Assim caminha a humanidade” (1956), previamente indicados para, respectivamente, Paul Newman e Alan Ladd.

Foi para Marlon Brando que o diretor John Huston bolou o personagem do militar que, numa ilha do pacífico, vai se apaixonar por uma freira, em “O céu é testemunha” (1957), mas, as circunstâncias lhe deram Robert Mitchum, que, no meio das filmagens, ficou desanimado quando soube do fato.

Finalmente, e para não me estender mais, pois a lista de casos é interminável, a garota de programa Holly Golightly, de “Bonequinha de luxo” (1961) devia ter sido (juro) Marilyn Monroe, certamente em seu último desempenho, já que faleceria no ano seguinte.

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