Bishop e o Brasil

17 jul

O mundo literário de língua inglesa – e por tabela, o mundo inteiro – comemora, neste 2011 em que estamos, o centenário de nascimento da poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979), um nome que a crítica de seu país não hesita em colocar no patamar dos maiores do século XX, como Ezra Pound, T. S. Eliot, E. E. Cummings, Marianne Moore, Wallace Stevens e William Carlos Williams, posição que o resto do mundo endossa.

Resumida em quatro livros, a sua poesia é sucinta, precisa, e densa, mas complexa. Uma de suas características mais impressionantes é, com certeza, o artifício de, ora parecendo documental, descritiva, referencial, não o ser, ou pelo menos, não do modo que aparenta, e, o que dá no mesmo, parecendo às vezes gratuita, fantasiosa, sem relação com o real, tampouco o ser. É, na verdade, o equilíbrio misterioso entre estas duas forças – a inclinação ao mimético e a tendência à construção pura – o que a crítica denomina de “casamento perfeito entre percepção e visão”.

Os seus críticos mais argutos têm falado de uma observação exata que vai além da fidelidade descritiva e ilumina o objeto com um insight original; a procura de uma intimidade quase doméstica que, sem nunca atingir o confessionalismo irrelevante, redunda em rico estranhamento; e a reticência assumida como uma recusa da retórica fácil.

Entre outros prêmios recebidos ao longo de sua vida literária, Bishop foi agraciada com o Pulitzer Prize (1956), com o National Book Award (1970) e, no Brasil, com a Ordem de Rio Branco (1971).

Vale citar este último prêmio, não apenas porque Bishop foi tradutora de poetas brasileiros, como Drummond, Cabral e Bandeira, mas principalmente porque ela viveu entre nós durante quase vinte anos, de 1951 a 1970.

A estória é a seguinte. Em crise existencial agravada pelo alcoolismo, Bishop toma, em 1951, um navio para um cruzeiro pela América do Sul. A idéia era ir até a Patagônia, mas, quando o navio atraca em Santos, ela decide que quer conhecer o Rio de Janeiro. Nesta cidade, reencontra uma amiga brasileira, a arquiteta Lota de Macedo Soares, que conhecera antes nos EUA. Lota a hospeda em seu sítio de Petrópolis, Samambaia, onde Bishop um dia come um caju e adoece, sendo cuidada pela amiga. Esse cuidado de leito se transforma em paixão e as duas passam a viver um intenso caso amoroso.

Para quem não lembra, ou não sabe, Lota era amiga particular do então governador Carlos Lacerda e foi ela quem, justamente nessa época, idealizou e construiu o Aterro do Flamengo. Ora, enquanto no recluso sítio Samambaia, o caso Bishop/Lota ia às mil maravilhas, porém quando, a trabalho, Lota tem que morar, agora com a companheira americana, no seu apartamento do Leme, a relação se complica.

Embora admiradora da natureza brasileira, Bishop não se adapta ao “Brazilian way of life” – sua aversão a nossa comida, por exemplo, é quase folclórica. Faz várias viagens pelo país e conhece o pantanal, a Amazônia e o rio São Francisco, mas tem dificuldade em aceitar o comportamento dos amigos de Lota, intelectuais e escritores brasileiros.

O caso com Lota vai, assim, passar por altos e baixos, até a morte desta em 1967, em Nova Iorque. No final dos anos sessenta, Bishop ainda retorna ao Brasil, agora ao lado de uma companheira americana, com quem vai residir em Ouro Preto. Essa fase mineira resulta em desastre, quando a população local rechaça o casal de lésbicas, inclusive responsabilizando Bishop pela morte de Lota.

Essa ambivalência antropológica, que oscila entre admiração e repulsa ao Brasil, vai marcar a vida da poeta americana, como também a sua obra. Quem relata bem essa ambivalência é o poeta brasileiro Paulo Henriques Britto, tradutor e biógrafo que, na introdução ao seu livro “Elizabeth Bishop: poemas do Brasil” (Companhia das Letras, 1999), menciona trechos de cartas da poeta em que o Brasil, é, ora maravilhoso, ora feio e sujo.

Infelizmente, não disponho de espaço para reproduzir a poesia de Bishop e remeto o leitor aos seus livros, especialmente à bela edição da Farrar que reúne a sua poesia completa: “Elizabeth Bishop: the complete poems”, New York, 1983. Não resisto, contudo, em citar um poema que considero um dos mais bem acabados que já li em toda a minha vida, em qualquer língua: “One Art” (´uma arte´).

Como se pode ver, trata-se de uma vilanela, forma fixa de origem francesa, com dezenove versos distribuídos em seis estrofes, sendo cinco tercetos e um quarteto, com rima entre os primeiros e terceiros versos, salvo no quarteto final, onde os últimos versos é que rimam, configurando um dístico rematador da idéia central. Com relação à métrica, os versos são pentâmetros jâmbicos, ou seja, cada um com cinco pés, cada pé com duas sílabas, a primeira fraca e a segunda forte. O tema não podia ser mais universal: a perda, na acepção mais ampla da palavra.

Para quem interessa a relação de Elizabeth Bishop com o Brasil, chamo a atenção da quinta estrofe, onde as “duas cidades” perdidas (“two cities”) são, possivelmente, o Rio de Janeiro e Ouro Preto, e os “dois rios” (“two rivers”) são o Amazonas e o São Francisco…

Não acredito em tradução de poesia, mas, de todo jeito, anexo a tradução de Paulo Henriques Britto que, ao menos dá, ao leitor que não lê inglês, uma ideia do que seja o original.

ONE ART

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! My last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing is not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

UMA ARTE

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

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Uma resposta to “Bishop e o Brasil”

  1. sérgio de castro pinto julho 17, 2011 às 1:56 am #

    joca:
    excelente poeta. o pouco que produziu foi suficiente para ela ficar.
    grande abraço do seu amifo e leitor,
    sérgio

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