Relembrando Dylan Thomas

9 nov

Embora muita gente boa só o lembre porque o cantor Bob Dylan apropriou-se do seu primeiro nome, Dylan Thomas (1914-1953) é, na opinião da crítica internacional, um dos maiores poetas da literatura de língua inglesa. Sem coincidência o seu poema “In my craft or sullen art” está na lista dos cem melhores do século XX, organizada pelo escritor americano Mark Strand, e publicada em livro.

Nascido no país de Gales, o jovem Dylan começou a publicar nos anos 30 e, ainda jovem, já conquistou a crítica pela sua original violência imagética e sua inquietante obscuridade. Com sua temática da unidade entre espírito e natureza, pareceu, no início, ser um neo-romântico, mas o equívoco foi superado com o tempo – o equilíbrio entre expressão espontânea e construção estudada confirmou uma dicção nova, moderna, e, sobretudo, impar.

Durante a segunda guerra, Dylan Thomas trabalhou como locutor das rádios londrinas, performatizando dramatizações que tinham o objetivo de soerguer a moral do país. No pós-guerra deu prosseguimento a essas performances, só que agora declamando exclusivamente poesia, sua e alheia, em auditórios universitários do mundo, para jovens platéias encantadas com sua bela voz, seu charme e seu comportamento selvagem e anti-social. Junto com sua fama de inveterado boêmio e amante promíscuo, essas performances lhe conferiram uma popularidade rara para o ofício de poeta.

Uma figura dessas daria com certeza um grande personagem de cinema, não?

Bem, não é exatamente o que acontece no filme do diretor inglês John Maybury, “Amor extremo” (“The edge of Love”, 2008), atualmente correndo a programação da televisão paga, e localmente exibido na mostra “Matizes da Sexualidade”, com o título alternativo de “A era do amor”.

O filme tenta retratar aquela fase da vida de Dylan Thomas (papel de Matthew Rhys) em que, ao meio dos bombardeios londrinos, entre uma transmissão radiofônica e um poema rabiscado num caderno velho, ele se vê envolvido com duas mulheres: a esposa libertina Caitlin (Sienna Miller), e a amante contida Vera Phillips (Keira Knightley), que fora seu primeiro amor nos tempos idílicos de Gales.

Para quem admira a poesia e a personalidade de Dylan Thomas – o meu caso – o primeiro problema do filme de Maybury é que, mal começa a projeção, e o cinebiografado já é relegado a um segundo plano, onde termina virando uma espécie de coadjuvante. Ocorre que a câmera prefere ir atrás da vida da ex-namorada, Vera, a quem entrega mais da metade do espaço diegético, aprofundando a sua psicologia, sem fazê-lo com relação a Dylan.

Essa cantora de bares – cuja voz e rosto sintomaticamente abrem o filme – se envolve a contragosto com o soldado William Killick (Cillian Murphy), que está de partida para a guerra, e com ele termina casando. Enquanto o marido está nos campos de batalha, parte do seu tempo é gasto, não tanto com Dylan, mas muito mais com Catlin, de quem se torna amiga, um pouco mais que íntima. Finda a guerra, Vera, agora mãe, se vê desprezada pelo ciúme do marido. No entremeio, o envolvimento dela com Dylan foi breve e fortuito, de modo que, ao terminar o filme, sentimos que conhecemos Vera a fundo, mas não Dylan, cujos trechos poéticos, recitados em voz over, parecem ilustrações deslocadas e inúteis.

Se o incidente do desenlace,em que DylanThomasdepõe contra o rival Killick foi posto para sugerir o “amor extremo” (título brasileiro) do poeta pela sua musa do passado, a cena não convence o espectador, e por uma razão muito simples: é que, afinal, a intimidade desse personagem descentralizado da trama não nos foi dada. As meras citações entrecortadas de seus poemas não nos ajudaram a conhecê-lo ao longo do filme e o que dele ficou foi apenas o mais superficial de sua personalidade – os seus gestos bruscos e sua promiscuidade leviana.

Eu disse acima que, para quem admira Dylan Thomas, este é o primeiro problema do filme. Para quem ama cinema, o segundo e não menos importante problema é que o filme é – independentemente de seu assunto – insosso e desinteressante.

Enfim, para fazer algum tipo de justiça ao poeta, ao invés de prosseguir na análise de “Amor extremo”, prefiro aqui reproduzir o poema de Dylan Thomas referido na abertura desta matéria, aquele constante da lista dos 100 mais do século XX, seguido da bela tradução de Ivo Barroso:

 

In my craft or sullen art

(Dylan Thomas)

 

In my craft or sullen art

Exercised in the still night

When only the moon rages

And the lovers lie abed

With their griefs in their arms,

I labor by singing light

Not for ambition or bread

Or the strut and trade of charms

On the ivory stages

But for the common wages

Of their most secret heart.

 

Not for the proud man apart

From the raging moon I write

On these spindrift pages

Nor for the towering dead

With their nightingales and psalms

But for the lovers, their arms

Round the griefs of the ages,

Who pay no praise or wages

Nor heed my craft or art.

 

 

NO MEU OFÍCIO OU ARTE AMARGA

(tradução de Ivo Barroso)

 

No meu ofício ou arte amarga

Que à noite tarda é exercido

Quando alucina só a lua

E dormem lassos os amantes

Com as dores todas entre os braços,

É que trabalho à luz cantante

Não pela glória ou pelo pão,

Desfile ou feira de fascínios

Por sobre palcos de marfim,

Mas pela paga mais afim

De seus secretos corações!

 

Não para alguém altivo à parte

Da lua irada é que eu escrevo

Os respingados destas páginas

Nem pelos mortos presumidos

Cheios de salmos e rouxinóis.

Mas para amantes cujos braços

Têm os cansaços das idades

Que não me dão louvor nem paga

Nem prezam meu ofício ou arte.

 

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