Viajem subjetiva

9 nov

Um dos problemas em um festival como o Cineport é que, com a quantidade de exibições simultâneas, a gente tem que fazer escolhas, e, consequentemente, cortes. Um dos meus escolhidos foi “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009) da consagrada dupla Karim Aïnouz (de “Madame Satã” e “O céu de Suely”) e Marcelo Gomes (de “Cinema, aspirina e urubus”).

Até certo ponto um roadmovie, o filme narra a viagem desse jovem geólogo José Renato pelo semi-árido nordestino, fazendo o registro mineral do que poderia servir de itinerário para um canal fluvial a ser construído na região. Só que, mal começa a projeção e o lado profissional da viagem vai cedendo lugar aos delírios do protagonista, e, de repente, a paisagem nordestina vira uma paisagem interior, íntima, lírica.

Mas, atenção: o título do filme é uma pista falsa. José Renato lê a frase numa parede de bar de beira de estrada, certamente escrita por algum caminhoneiro romântico que sente saudade da amada. Repete-a algumas vezes, dando a impressão de que ela se aplica ao seu caso, mas logo o espectador saberá que não é o caso. Bem antes de o filme terminar, já nos damos conta de que nenhum dos seus três verbos (/precisar/, /voltar/ e /amar/) tem o emprego e o sentido esperados: José Renato está, na verdade, fugindo de uma relação conturbada e amarga, marcada por desentendimentos e hostilidades.

Para expressar – ou mais que isso, acentuar – a progressiva crise do protagonista, os diretores, quebrando as convenções da narrativa tradicional e intercalando ficção e documentário, fazem uma mistura de técnicas que termina por imbricar a desolação da paisagem à desolação existencial do viajante: super 8, VHS, DVD,16 mm,35 mm, material virtual, parte disso, segundo consta, sobras e também desdobramentos do curta “Sertão de acrílico azul piscina” rodado pela dupla em 1999 e veiculado no Programa Rumos do Itaú Cultural.

 A crítica tem elogiado o aspecto experimental e inovador do filme, que foi, em 2009 selecionado para o Festival de Veneza e, no mesmo ano, levou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio, mas, engraçado, por ironia, a mim, a primeira coisa que ocorreu foi a sua relação estilística, digamos assim, com o cinema do passado.

Acontece que “Viajo porque preciso…” é rigorosamente narrado em “sistemática câmera subjetiva” – um radical exercício técnico-narrativo que só foi experimentado uma única vez na história do cinema e isso numa data tão remota quanto 1946, no filme “A dama do lago” (“Lady in the lake” ) de Robert Montgomery.

Mas, antes, suponho que preciso explicar o que se entende por “câmera subjetiva”. São aquelas tomadas em que o que se vê na tela é o que um dos personagens do filme está momentaneamente vendo. O ator olha para cima e vemos o céu; o ator olha para baixo e vemos o chão: as tomadas do céu e do chão são “câmeras subjetivas”.

Em número relativamente reduzido, todo filme contém tomadas em câmera subjetiva, que se intercalam às objetivas, estas sempre em inevitável maioria. Em determinados filmes, como em “Janela indiscreta”, a frequencia de tomadas subjetivas chama a atenção, mas, dificilmente o número de suas ocorrências supera, ou sequer se aproxima do número de câmera normalmente objetiva.

Pois bem, o que o diretor Robert Montgomery fez, adaptando o romance de Raymond Chandler, foi filmar toda a estória desse detetive que investiga o desaparecimento de uma mulher, em exclusiva câmera subjetiva. O resultado prático é que, ao longo do filme inteiro, nunca vemos o rosto do ator – salvo num único momento em que ele se olha em um espelho.

O protagonista de “Viajo porque preciso…” nunca chega perto de um espelho e, portanto, nunca vemos seu rosto: o tempo inteiro, vemos o que ele vê, sem avistá-lo, e se o conhecemos é pela sua voz, que o tempo todo, fala de si mesmo. (A voz é do ator Irandhir Santos).

“A dama do lago” ficou conhecido na história do cinema como uma experiência curiosa, mas completamente fracassada. A crítica alega que o fracasso se deveu ao fato de o público não haver sequer entendido o processo.

Sessenta e três anos depois, não escuto ninguém reclamando que não tenha entendido o filme de Aïnouz e Gomes. Os tempos mudaram? Sim, quer me parecer que os recentes avanços tecnológicos no terreno dos áudio-visuais têm, no mínimo, redimensionado os hábitos recepcionais, deixando-os abertos a novas formas de narrar.

Se é assim, a dupla de cineastas soube se aproveitar do fato para transformar uma objetiva trajetória de carro pelas estradas nordestinas em uma densa e intensa viagem íntima onde técnica (câmera subjetiva) homologa psicologia.

Disse acima que, entre os experimentos formais do filme, está a mistura do documental e do ficcional. Um exemplo particularmente interessante está numa cenaem que JoséRenatoescuta um morador da região cantar, desentoado, o trecho de uma velha canção. Ao retomar a viagem, ele, no volante, repete as palavras da letra inteira, de si para si, como quem recita um poema. E o faz, claro, porque o que essa letra diz casa com o que ele vivencia no seu problemático relacionamento, a essa altura desfeito e remoído em sua cabeça atormentada. A canção é o sublime e insuperável “Último desejo” de Noel Rosa, e a cena toda é um exemplo de como o acaso documental pode ser aproveitado ficcionalmente.

Como esperado, ou não, o filme se fecha de modo aberto e mesmo impertinente, com metragem inserida de desportistas que pulam de falésias para o mar de Acapulco, isso a partir de uma auto-citação do protagonista que – numa espécie de turning point existencial – diz querer mergulhar na vida assim, de corpo inteiro.

Para o espectador mais convencional, este final extra-diegético (o cenário deixou de ser o Nordeste brasileiro, afinal de contas!) deve ser o que “Viajo porque preciso…” tem de mais desapontador. Suponho que, para este espectador, ficou remoto demais o elo isotópico (o aquático) entre a água fluvial que invadiria a região recoberta na viagem do protagonista e a água marítima do México.

Já para o espectador mais “moderno”, digo, aquele cuja reação – consciente ou inconsciente – ao recurso da “câmera subjetiva” foi tranquilo, a cena soa como uma trouvaille. A lógica seria a de que uma “viagem subjetiva” não precisa de lógica.

Anúncios

Uma resposta to “Viajem subjetiva”

  1. Willian Henrique Cândido Moura setembro 9, 2015 às 5:40 am #

    A descrição do filme em câmera subjetiva me lembrou o filme, também de 2009, “Enter the Void”, do Gaspar Noé. Não assisti “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, mas me lembro que no “Enter the Void”, até quando o ator pisca, a imagem também “pisca”, e no momento em que ele vai até um espelho é que é possível se dar conta deste movimento do piscar de olhos e o piscar da câmera. Faz um tempo que assisti ao filme, mas acredito que em algum momento do filme SPOILER (não me lembro se após a morte do personagem principal), mas a câmera passa a filmar o personagem pelas costas.Muito boa essa sua crítica sobre o filme (que nem mesmo assisti)!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: