Lágrimas do céu

26 nov

A seca está braba. Há muito não cai uma gota do céu e o gado todo está morrendo no solo pedregoso e poeirento. Sem saber o que fazer, os habitantes dessa cidadezinha do Interior andam apreensivos. Como toda calamidade tem os seus aproveitadores, eis que, nessa casa de sítio afastada, aparece esse embusteiro, dizendo que, por cem paus, é capaz de fazer chover.

Entre incrédulos e esperançosos, o dono da casa e o filho mais novo pagam para ver cair água do céu, enquanto que a filha e o filho mais velho se negam a entrar na jogada desse óbvio charlatão.

A estória não parece enredo de filme brasileiro, daquele tipo comédia adaptada de peça de Ariano Suassuna?

Pois não é. Produção da Hollywood dos anos 50, o filme é bem americano: tão americano que quem faz o charlatão é ninguém menos que Burt Lancaster, e quem faz a mocinha incrédula e hostil ao forasteiro é ninguém menos que Katherine Hepburn. O título original é “The rainman” (´o homem-chuva´), mas os distribuidores brasileiros preferiram ser mais metafóricos e tascaram “Lágrimas do céu” (1956).

E deu certo. Sim, deu certo porque o enredo do filme não fica só na Seca, que, na verdade, nessa família de rancheiros, parece ser um problema colateral. O central mesmo é o destino afetivo da moça da casa (Hepburn) – a única, pois a mãe é falecida – essa solteirona virgem que os três homens querem ver casada de todo jeito, uma tarefa difícil, pois, para desespero dos três, os pretendentes andam mais escassos do que a chuva.

Evidentemente, o grande lance do roteiro é misturar seca com amor, ou explicando melhor, falta de água com falta de sexo. Logo cedo o intrometido “provedor de chuva” percebe o drama da família e, por conta própria, se empenhaem ajudar. Elesabe que ninguém produz chuva, nem mesmo ele que a promete, mas sabe também que amor, ao contrário, é coisa mais ou menos produzível, a depender do empenho.

O difícil é convencer a moça que, embora carente, é esnobe e teimosa, e, pior, mais inteligente do que qualquer dos habitantes locais. Mas o que uma boa conversa entre um homem e uma mulher não faz, sobretudo se acontecer num lugar isolado, como o celeiro do sítio! Quando finalmente, os dois trocam uns amassos – e, pode-se dizer, falando metaforicamente, que, neste momento, chove na terra seca da moça – o irmão mais velho (Lloyd Bridges) entra em pânico, porém, o pai (Cameron Prudhomme) e o irmão mais novo (Earl Holliman), não: estes vibram com o fato, alegando mais ou menos aquele princípio de que, quem não tem cão caça com gato mesmo.

Mas, por mais “molhada” que estivesse agora a sua terra íntima, como seria possível uma moça de família unir-se a um manjado trapaceiro que pegou a grana da família e, afinal de contas, não fez chuva nenhuma, salvo – bem entendido – a metafórica?

Bem, em toda boa comédia hollywoodiana este é o momento do turning point, a virada no enredo que muda tudo: é neste momento que re-aparece um eterno pretendente da moça, o confuso e indeciso xerife (Wendell Corey), que só se decide a pedi-la para si quando, visivelmente umedecida, a moça faz menção de ir embora com o forasteiro que a molhou.

Não sei como termina o texto adaptado, digo, a peça de Richard Nash, mas, dirigido pelo também homem de teatro Joseph Anthony, o filme não fere muito os códigos hollywoodianos de censura da época. Talvez – quem sabe? – a minha reconstituição da estória contenha mais implicações sexuais do que o próprio filme. No final de tudo, e afinal, cai, com relâmpagos e trovões, a chuva esperada, digo, a literal, e o forasteiro – que devolvera honestamente os cem paus – volta para pegar o dinheiro. O que fica mesmo sem pagamento é a chuva metafórica, a que, miraculosamente, fez desabrochar a solteirona Katherine Hepburn.

No todo, uma comédia divertida, teatral mas nem tanto, ingênua mas nem tanto, convencional mas nem tanto, com um elenco de primeira, dando o melhor de si – curiosamente, um filme obscuro a que nunca ouvi cinéfilo algum referir-se. Uma dessas preciosidades que só a eletrônica dos nossos tempos resgata.

Nem todo mundo sabe, mas, simbolismos sexuais à parte, o Sul dos Estados Unidos, onde a estória de “Lágrimas do céu” ocorre, pode, no verão, ficar tão árido quanto o sertão do Nordeste brasileiro. De minha parte, fico pensando que tratamento cinematográfico daríamos, nós, brasileiros, a essa mistura de seca e sexo, se, como imaginado na abertura desta matéria, o texto original fosse nosso.

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