Por causa de Rachmaninoff

27 nov

Programa imperdível foi o de quinta-feira passada, a apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba, no Bangüê, que se abriu com Juliana Steinbach executando, com extremo virtuosismo e muita paixão, o “concerto número dois para piano” de Sergei Rachmaninoff – execução que – não tenho vergonha de dizer – quase me levou às lágrimas.

 O concerto para piano de Rachmaninoff é perfeito, sublime, arrebatador, mas, no meu caso, possuo motivos a mais para me emocionar com ele. Ocorre que, nada por acaso, a composição é a trilha sonora de um dos filmes que mais amo, o “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945), de David Lean, filme que revisito regular e ritualisticamente, e que considero uma das mais belas estórias de amor que o Século XX foi capaz de contar.

Resultado inevitável: ouvindo a estupenda execução de Juliana Steinbach com a OSPB revi, na minha cabeça de cinéfilo apaixonado, o filme inteiro, do começo ao fim.

De repente, lá estava eu sofrendo com Laura, essa modesta e pacata dona de casa, sensata mãe de família, a quem ocorre o infortúnio de viver uma avassaladora e selvagem paixão fora do casamento – tudo deflagrado por causa de um cisco no olho. Com o andamento da música de Rachmaninoff, passei – mais uma vez – por toda a sua fugaz alegria, encantamento, desespero agonia e desilusão… Revivi todo o seu processo de envolvimento com esse estranho, um senhor também casado; a súbita consciência de que estava perdendo o controle emocional; a dor de ter de esconder os sentimentos; a culpa de fingir perante os filhos e o esposo; a vergonha de ser pega como uma criminosa em um apartamento alheio; a corrida louca, aos prantos, pelas ruas desertas e escuras da cidade, debaixo da chuva; a tentativa frustrada de se jogar aos trilhos do trem expresso; a dolorida despedida num prosaico salão de lanchonete, atrapalhada por uma amiga bisbilhoteira; e o inferno de voltar aos braços, sempre acolhedores e compreensivos, do marido…

No terreno da música clássica, Rachmaninoff  (1873-1943) é considerado pelos especialistas do assunto o último dos românticos. Pois David Lean não foi também, de alguma maneira, o último dos cineastas românticos? Basta lembrar a sua saga – desde “Desencanto” até “A filha de Ryan”, passando por “Dr Jivago” – de mulheres apaixonadas fora do casamento, sim, naquele antigo modelo que vinha da ficção literária do Século XIX…

“Desencanto” é de 1945, mas muito antes disso, Lean já vinha de olho na peça teatral de Noel Coward, com sucesso encenada nos palcos de Londres, lutando, junto com o autor, para lhe dar uma forma cinematográfica. Em pleno processo de elaboração do roteiro, ao ter notícia da morte de Rachmaninoff, em 43, Coward sugeriu a trilha sonora do compositor russo para o filme e Lean não hesitou em fazer casar o romantismo desesperado de seu concerto para piano com o igualmente desesperado romantismo da peça teatral de Coward.

No original, a peça chamava-se “Still life”, expressão técnica do mundo da pintura, o equivalente ao nosso ´natureza morta´ – obviamente, uma referência ao casamento sem brilho de Laura – mas, claro, também podia ser lida como ´vida parada´ (onde ´still´ é um adjetivo), e, contraditória e ironicamente, também como: ´ainda vida´ (onde ´still´ é um advérbio). E quem conhece o drama de Laura se dá conta da pertinência dessa polissemia – ainda que a produção inglesa tenha preferido um título mais óbvio para o filme, o “Brief encounter” (´breve encontro´) que veio a ficar.

Naturalmente, o espectador do filme nem nota que a fonte foi uma peça de teatro, com sua unidade de espaço e de tempo. O centro da ação é de fato uma lanchonete de estação ferroviária, porém, com que maestria Lean, re-contando a estória de Laura em flashback de primeira pessoal verbal, vai multiplicando os instantes e diversificando o cenário, e mesmo quando se restringe à Estação, vai transformando o vai-e-vem dos trens em uma forte metáfora visual e auditiva da conturbada vida interior da protagonista. O dramático close do rosto de Laura naquele momento em que o trem-expresso corta, célere, a estação e a deixa, trêmula e desequilibrada, a meio metro dos trilhos, se interrogando por que não se jogara, é uma das mais belas cenas que a sétima arte já chegou a engendrar.

Entre os estudiosos do fenômeno da trilha sonora, um consenso é o de que a música é um dos fatores primordiais para dar efetividade estética a um filme. Concordo, mas, depois de ter estado no Bangüê quinta-feira passada, fico pensando se a recíproca também não poderia ser verdadeira: se um filme não pode porventura redimensionar os efeitos da música…

Outra coisa que não consigo deixar de me indagar é se Juliana Steinbach conhece “Desencanto”, e se gosta do filme… Tomara que sim.

Anúncios

4 Respostas to “Por causa de Rachmaninoff”

  1. Glória novembro 28, 2011 às 8:17 pm #

    O título do meu comentário é, “Por causa de você”.

    “Desencanto” é meu filme preferido, o top dos tops! Aproveitando a sua deixa, eu diria que sim, um filme pode redimensionar os efeitos da música, assim como a música pode acrescentar valor estético a um filme. Mas, sem sombra de dúvidas, seus comentários iluminam ambos. Não foi à toa que elegi esse filme arrebatador como meu favorito. Confesso que minha apreciação vem do fato de eu ser sensível e romântica, mas o que seria dela sem nossas conversas e sem seus artigos?
    Beijo de Glorinha

    • João Batista de Brito novembro 28, 2011 às 10:41 pm #

      Glorinha querinda, um dia a gente ainda funda O CINECLUBE DESENCANTO…
      Muitos beijos de JBB.

  2. Jefferson Cardoso novembro 30, 2011 às 4:08 pm #

    Podem contar comigo para O CINECLUBE DESENCANTO…
    Abraços!
    Jeff.

    • João Batista de Brito novembro 30, 2011 às 5:04 pm #

      Oba, mais um “desencantista” de carteirinha.
      Grande abraço, Jefferson, e seja sempre bem-vindo.
      João.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: