Um grande e belo filme

27 nov

Enquanto se realiza, na Funesc e na UFPB, o III Fórum Nacional do Audiovisual sobre o tema “Matizes da Sexualidade” (de14 a30 de outubro), aproveito para comentar um filme que não está na vasta programação do evento, mas bem que poderia, ou deveria, estar.

Refiro-me ao hoje clássico “Meu passado me condena” (“Victim”, 1961) do cineasta inglês Basil Dearden, com o grande Dick Bogarde no papel principal – no caso, o primeiro filme a usar, em toda a história do cinema mundial, a palavra ´homossexual´ em seu diálogo.

E, claro, a coisa não fica nisso, digo,em palavras. Mistode thriller e melodrama, o filme narra a estória de como uma gangue de Londres vive de extorquir cidadãos que têm, ou tiveram um dia, qualquer tipo de experiência com o mesmo sexo.

Para o espectador, tudo começa com esse jovem Jack Barrett (Peter McEnery), que furta da firma onde trabalha, é descoberto, capturado, preso, e, depois de interrogado sem revelar grande coisa, se enforca na cela. A polícia deduz que furtara para pagar a chantagistas, mas, por quê? E por que se matara? Para não envolver outrem?

Logo ficamos sabendo que o nome que o jovem Barrett não queria que viesse à tona era o do importante advogado Melville Farr (Bogarde) e o motivo: amor.

Atormentado pela culpa, Farr termina revelando o caso à esposa (Sylvia Syms) e, mais que isso, se empenhando em desmascarar, por conta própria, a gangue chantagista. Nesse tempo, o homossexualismo ainda era considerado crime pelas leis britânicas (e assim seria até 1967) e Farr sabe o risco que corre, ele, que por mérito acabara de ser indicado para integrar o Conselho Real.

Na medida em que avançam as investigações, Farr vai descobrindo que ele estava longe de ser a única “vítima” (título original do filme) da gangue criminosa. Casados ou solteiros, vários outros distintos cidadãos estavam recebendo as mesmas cartas anônimas e… pagando do bolso.

A própria gangue reage às investigações, e, um belo dia, a porta da garagem de Farr aparece pintada com letras garrafais que anunciam: “Farr is queer”, em bom inglês londrino: “Farr é viado”.

Apavorados com a perspectiva de escândalo, as outras vítimas da gangue criminosa se recusam a colaborar com o plano de Farr, e, meio herói solitário, ele leva a questão adiante, como algo pessoal, num gesto visivelmente suicida.

Um dos momentos mais tocantes no filme é aquele em que, já separados, Farr e a esposa Laura conversam sobre a atitude que ele está para tomar – a de enfrentar abertamente a gangue e ver seu nome depreciado pela imprensa e sua brilhante carreira de advogado da corte destruída. Quando Farr lhe diz que, uma vez tudo passado, ele vai precisar dela, consentindo, Laura responde que ´precisar é mais que amar´. Ou talvez um momento mais forte ainda seja aquele outro, bem anterior, quando, ainda juntos, a esposa lhe indaga se tivesse ele de escolher entre ela e o jovem Barrett, o que faria, e ele, duramente, lhe diz que ela sabe a resposta.

Quase tão corajoso quanto o personagem, foi o ator Dick Bogarde que, sendo na época um ícone do estrelato britânico, aceitou de imediato o papel, estrategicamente recusado por Jack Hawkins, James Mason e Stewart Granger.

À parte a importância da temática (que ainda hoje é enorme!), “Meu passado…” é um grande filme, um dos melhores que os estúdios britânicos já produziram. Rodado em pleno efervescer do movimento “Free Cinema”, não teve o destaque merecido nos meios artísticos – talvez por seu autor já ser, na época, um veterano com vasta carreira, que não se incomodou em inovar na forma.

Nem precisou: o filme é bom como é, com sua expressiva fotografia preto-e-branco, sua montagem fluente, seu ritmo avassalador, e suas interpretações extremamente convincentes. É tão bom que ouso supor que transcende ao tema. Sim, a certa altura da projeção, sente-se que a sua construção dramática é tão eficaz que o motivo por trás dela, vira um mero ´macguffin´, naquela acepção hitchcockiana da palavra de ´pretexto para tudo acontecer´, isto é, para os conflitos explodirem, os personagens se delinearem, a narrativa correr,,,  e o espectador se envolver. É isso que eu chamo de cinema.

O que quero dizer é que, num futuro remoto, quando coisas infames como preconceito, machismo e homofobia não mais existirem, “Meu passado me condena” continuará sendo um grande e belo filme.

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2 Respostas to “Um grande e belo filme”

  1. Gilberto de Sousa Lucena novembro 28, 2011 às 6:24 pm #

    Prezado amigo João Batista,

    Tenho a imensa alegria de ser um dos primeiros a acessar o seu blog. Parabéns! O trabalho ficou maravilhoso, digno da grandeza da sua produção intelectual. É mais uma forma de dar maior visibilidade à sua obra nos disponibilizando seu riquíssimo acervo.
    Agora sim, podemos dispor – ao alcance de um toque no teclado do computador – da produção de um dos nossos maiores mestres, que muito orgulha a Paraíba. Estarei sempre acessando seu estupendo blog para me inteirar sobre cinema, literatura ou algo mais.

    Com o meu sempre fraterno abraço.

    Gilberto Lucena

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