Em torno de uma frase de Cícero

28 nov

“Inter arma, silent legges”: a frase latina vem dos vetustos escritos de Cícero e deve ter sido usada, não como conselho, mas como constatação. Traduzindo livremente do latim clássico: ´Em tempo de guerra, a lei se cala´.

É o que escuta, da boca de um colega militar, o advogado Frederick Aiken, que está, sem sucesso, tentando defender essa mãe de família, Mary Surrat, a qual todos na cidade e arredores querem ver enforcada.

E o que fez Mary Surrat? Bem, estamos na Washington de 1865 e o Presidente Abraão Lincoln acaba de ser assassinado a tiros no camarote do teatro Ford, na noite de 14 de abril. O atirador John Wilkins Booth escapou, mas os outros conjurados foram capturados, todos freqüentadores de uma certa casa de pensão cuja proprietária era quem? Sim, Mary Surrat.

Para complicar o caso da ré, o seu filho, John Surrat, está foragido, o que implica que participou do complô assassino.

A questão é: a mãe também? O advogado Aiken tem certeza que não, porém, essa convicção de profissional da lei que quer fazer justiça a todo custo não adianta muito porque… Bem, é aí que entra a frase de Cícero. A guerra de secessão estava, então, praticamente encerrada, ganha pelo Norte vitorioso, mas, claro, o assassinato do Presidente reativava, na nação inteira, um clima de belicosidade em que – como afirma o colega militar de Aiken – qualquer legislação ficava muda.

Resumida nestas poucas linhas, eis a estrutura dramática – e rigorosamente verídica – do filme “Conspiração americana” (“The conspirator”, 2010), a – por enquanto – última realização cinematográfica dos estúdios independentes do ator e aqui diretor Robert Redford.

Para o espectador que não tenha informação histórica do caso Surrat, de início o próprio comportamento furtivo da ré (grande desempenho de Robin Wright) a incrimina, e os primeiros esforços do advogado Aiken (James McAvoy) em defendê-la parecem despropositados e mesmo autodestrutivos, considerada a situação de indignação coletiva perante o assassinato brutal de um emblema da democracia americana que foi Lincoln, o grande pai que teria unido uma nação, até então partida entre Norte e Sul.

Com o desenrolar das investigações e com a série dos depoimentos em júri, no entanto, vai ficando claro um ponto chave, de pouca visibilidade para a maioria indignada, mas cada vez mais óbvio para quem acompanha de perto a introspecção e as reticências da ré: num supremo gesto de sacrifício materno, Mary Surrat se autoincrimina, ou permite que assim a interpretem, para livrar a culpa do filho foragido. Se havia dúvidas sobre isso, elas caem por terra no depoimento da filha, Anna, que no júri, em prantos, pede perdão à mãe por estar revelando a culpa do irmão foragido.

Quando se chega às vésperas do julgamento final, este ponto doloroso está claro para todos os jurados e, contudo, o veredicto não foi favorável: junto com os outros três insurrectos, Mary Surrat é, apesar de todas as provas em sentido contrário, enforcada numa madrugada fria de 17 de julho de 1865.

A ironia é que, não muitos dias após o julgamento, é aprovado um decreto que revoga o espírito vingativo e selvagem da famigerada frase latina que Cícero registrou em seus escritos. Tarde demais: Inês é morta, ou melhor, Mary.

Outra ironia: cerca de seis meses depois, o filho de Mary, John, é preso, julgado partícipe no complô assassino, e o veredicto não é mais pena de morte.

Um momento comovente no desenlace do filme é aquele em que um Aiken desolado entrega a John, na prisão, o rosário com que Mary subira ao cadafalso, e o rapaz o devolve, alegando que aquela lembrança pessoal e tão significativa devia ficar com ele, o advogado, que fizera mais por sua mãe do que ele mesmo.

Envolvente do começo ao fim, o filme de Robert Redford promete ficar para a posteridade como uma das melhores reconstituições históricas de um momento particularmente crítico da vida americana. Sua sapiência em dosar o social (a tensão ideológica Norte versus Sul) e o humano (a tensão psicológica dos protagonistas Aiken e Surrat) é um exemplo a seguir de como roteirizar e encenar fatos históricos.

Outro aspecto que importa levar em conta é sua recepção, sobretudo a interna. Nesses tempos paranóicos e xenófobicos, pós 11 de Setembro, para o espectador estadunidense mais atento, “Conspiração americana” soa – ou deveria soar – como um alerta para se considerar os outros lados da questão, toda vez em que um elemento – seja o que for – ameace a segurança nacional.

Em outras palavras, toda vez em que desponte a vontade de fazer uso da frase de Cícero.

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10 Respostas to “Em torno de uma frase de Cícero”

  1. rubenslucena novembro 29, 2011 às 1:20 am #

    Oi, João,
    Parabéns pelo site. Passarei sempre por aqui, para ler suas indicações.
    Coincidentemente, assisti, na semana passada, a um ótimo filme dirigido por Robert Redford: Gente como a Gente (Ordinary People, 1980). Conhece? Achei um filme muito bem realizado.
    Abraço e até breve!
    Rubens

    • João Batista de Brito novembro 29, 2011 às 8:40 pm #

      Obrigado, Rubens, pela passagem no meu blog. Sim, claro que conheço o Ordinary People. Espero que fiquemos em contato. Grande abraço de João.

  2. Soraia Diniz novembro 29, 2011 às 7:01 pm #

    Que ótimo que seu blog esta no ar! Finalmente, teremos um espaço sério e de quem realmente entente de cinema.
    Obrigada por nos presentear com este suspiro de pura cultura na net!

  3. Líssia novembro 30, 2011 às 7:20 pm #

    João, parabéns pelo blog. Além do conteúdo de primeira, está visualmente lindo! Ótimo ter acesso a seus textos com mais facilidade.

    • João Batista de Brito dezembro 1, 2011 às 12:45 pm #

      Lìssia amiga, seja sempre bem-vinda. Vou fazer o possível para postar novos textos, uma vez, ou mais que isso, por semana. Beijos de João.

  4. Carlos Alberto de Brito dezembro 11, 2011 às 12:59 pm #

    Ola João. Voce nos brinda com um blog importante para quem é cinéfilo. Parabens pelo presente de Natal. Coincidentemente assisti “Conspiração Americana” e fiquei tocado pela forma como o filme discute o trauma ocasionado pela guerra e, em contraponto, a sensibilidade do amor materno. Após ler uma crítica depreciativo sobre o filme e a direção de Robert Redford, me deparei com o seu artigo “Em torno de uma frase de Cícer”, e vi a forma lúcida e sensível que impregna às tuas análises. Resultado, revi o filme e o apreciei ainda mais.
    Um grande abraço do amigo Bebeto

    • João Batista de Brito dezembro 11, 2011 às 7:40 pm #

      Que bom Bebeto. Vou ficar postando novos textos pelo menos duas vezes por semana, de modo que fiquemos em contato.
      Grande abraço cinéfilo de João

  5. FÁBIO LUIZ TEIXEIRA agosto 27, 2012 às 2:46 pm #

    Grande João! ao acessar seu blog escolhi um artigo e me deparei com esta ótima crítica de uma grande obra cinematográfica que é “Conspiração Americana” de Robert Redford e, me pergunto por que este filme é tão subestimado. Parabéns pelo seu blog que estarei sempre visitando. Um abraço de Fábio Teixeira.

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