Cópia fiel

1 dez

Sabe aquele velho conceito sobre a perda da aura da obra de arte na era da sua reprodutibilidade, que está em Walter Benjamin? Pois é, o filme “Cópia fiel” (“Copie conforme”, 2010) do iraniano Abbas Kiarostami empurra a questão um pouco para adiante.

O escritor inglês James Miller (William Shimell) vem à Toscana, Itália, para o lançamento de seu livro, onde defende a tese de que a cópia de uma obra de arte pode ter o mesmo valor, ou maior, que o original. Após o lançamento, o escritor aceita o convite de uma bela mulher, dona de um antiquário local (Juliette Binoche), para dar uma volta pelas redondezas e terminam indo até Lucignano, povoado vizinho onde visitam museus, igrejas e monumentos. Aparentemente, os dois nunca haviam se visto antes, e o papo é daquele tipo introdutório, onde cada um dos recém-conhecidos vai dando ao outro pistas vagas de sua existência.

Já estamos quase na metade do filme quando entram num Café e, depois de mais alguma conversa, ele se retira para atender o celular. Supondo tratar-se de cônjuges, a dona do local entabula uma conversa com a mulher, tecendo comentários sobre “Il tuo marito”, equívoco que a mulher sustenta. Quando ele retorna, ela lhe explica, em inglês, o equívoco sustentado e ele ri, dizendo que eles bem que formariam um par e tanto.

Ao saírem do Café é que a coisa toda muda de figura, ao menos para o espectador que vinha acompanhando a lógica narrativa. De repente, o escritor e a dona do antiquário são mesmo casados, e as conversas – agora mais discussões que conversas – passam a ser sobre a situação conjugal deles, cada um acusando o outro de falhas no relacionamento, como sói acontecer entre duas pessoas que – sabe-se agora – estão casados há cerca de quinze anos e vivemem crise. Desatenção, leviandade, egoísmo são as falhas apontadas por ambos a ambos, e num restaurante onde vão almoçar, chegam ao máximo da hostilidade mútua com grosserias e gritos.

Finalmente, o casal vai parar no quarto de hotel onde teriam passado a lua de mel e a estória se conclui em reconciliação, com as nove pancadas do sino da igreja local sugerindo que ele perdera o trem, e vai, portanto, ficar com a esposa.

Findo o filme, o espectador é deixado com o benefício da dúvida: afinal, os dois protagonistas são casados e estavam fingindo, até o momento no Café, ou não são, e passaram a fingir ao sair de lá? Como conciliar estes dois contrários e manter a integridade da obra?

Uma coisa é certa – embora trate de tema conhecido e mesmo batido (crise conjugal, nostalgicamente resolvida), o filme propõe um esforço interpretativo que o torna diferente da narrativa tradicional. Outra coisa: a direção é tão competente e as interpretações tão convincentes que temos a impressão de estarmos diante daqueles filmes com diegese dupla – ou seja, com dois universos ficcionais, cujo engate, no caso, estaria magicamente no momento no Café.

Quer nos parecer que a senha para uma leitura pertinente do filme – se pode haver uma – comece na tese do livro (assim como o filme, também chamado de “Cópia fiel”) com cujo lançamento enfático se abre a estória. Como já dito, nele, segundo o autor, a falsidade pode ser mais genuína que o original, e o filme nos parece propor este desafio – se cada uma das duas situações parece falsa/verdadeira em relação ao seu par, cada uma delas não é já “falsa” por ser ficção? Sem coincidência, Kiarostomi escolheu para o papel do marido um “falso ator” (Shimell é, na verdade, cantor de profissão) e uma atriz profissional, Binoche, de modo que a díade temática se estendesse ao modo de interpretar.

Estamos aqui no melhor do estilo Kiarostami onde, sempre, a ficção (o falso?) soa documental (o verdadeiro?) e o documento tem tons de ficcional. A esse propósito, conferir sua filmografia, especialmente, “Através das oliveiras (1994) e “Gosto de cereja” (1997).

Em “Cópia” prestem atenção ao uso de primeiros planos com olhares para a câmera, como acontece nos muito campo-contra-campos do casal ao longo do filme, e bem significativamente, na cena de entrada em que o apresentador do livro – e depois o autor – parece estar se dirigindo a, nós, espectadores. Se habituado ao modelo americano, o espectador deve ter estranhado a sistemática falta de ação, o excesso de diálogo e o ostensivo investimento na plástica, como naquela cena em que o casal percorre a cidade de carro e a paisagem em torno, refletida sobre os seus rostos, os obscurece.

Eu disse que a senha para uma leitura pertinente começava na tese do livro, mas, não fica aí. A rigor, os espectadores podem ter reações diversas ao filme. Imaginemos duas: a primeira seria a de o ler literalmente, como uma estória de um casal de meia idade, em crise, revendo os seus valores, até se dar conta da importância de permanecerem juntos. Neste sentido, “Cópia fiel”, com praticamente o mesmo roteiro, seria uma homenagem intertextual a uma velha película dos anos cinqüenta, “Viagem a Itália” (Rosselini, 1954), que, com certeza, Kiarostami conhece.

Uma vez que as duas situações diegéticas básicas (dois desconhecidos conversando versus dois cônjuges discutindo o casamento) permanecem inter-refutáveis, uma segunda reação do espectador seria ler o filme como um exercício metalingüístico  e filosófico sobre o ato de representar o real na tela, onde o drama conjugal funcionaria como mero pretexto diegético. Se for para ir atrás de intertextos, a referência, neste caso, seria o “Verdades e mentiras” (“F for fake”, 1975), última realização de Orson Welles, que, seguramente, Kiarostami também conhece.

Mas, ora, cada uma dessas duas interpretações é – como toda interpretação – conceitual, e, como, no fundo, nenhuma modalidade de arte é apenas conceitual, torna-se cada uma delas, automaticamente redutora. Se não soar muito abstrato para o espectador que vai ao cinema para se divertir, a sugestão que proponho é experimentar, em seu espírito, a co-existência das duas leituras, co-existência esta que deverá produzir o efeito que define a natureza da arte, acima de qualquer conceito: o efeito estético.

Bem, não posso deixar de imaginar uma terceira alternativa ao espectador do filme de Kiarostami: a de não gostar e descartá-lo como maçante, absurdo e inútil.

Em tempo: apresentado no Festival de Cinema do Rio, em setembro do ano passado, “Cópia fiel” não entrou no nosso circuito de exibição comercial, mas está devidamente selado e disponível em DVD.

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9 Respostas to “Cópia fiel”

  1. Marinha Luiza dezembro 8, 2011 às 12:40 pm #

    Nossa! Nem quis ler o post todo.
    Ainda quero ver o filme… rsrs
    Mas me interessei ainda mais com a primeira parte do seu texto!

    • João Batista de Brito dezembro 8, 2011 às 6:17 pm #

      Prometo não tirar o texto do blog enquanto vc não tiver visto o filme, para que vc possa voltar a ele e ler a outra metade. (rs)
      Abraço de João.

      • André Aguair dezembro 13, 2011 às 3:30 am #

        Vi o filme já sabendo que tinha lido sua crítica, mas, de filme na mão, adquirido, “esqueci” um pouco sua crítica para me pegar nos exercícios de olhar para as situações verdadeiramente falsas ou vice-versa. Adorei o filme, claro, por incluir uma tese e outra e depois voltei aqui para me deleitar com seu texto. Ótima pedida.

  2. João Batista de Brito dezembro 15, 2011 às 1:13 pm #

    Entendo, André, às vezes esquecer temporariamente é essencial. Falar nisso, não esqueça o encontro do Cineclube Inominado no dia 27…
    Abç de João.

  3. Abrahão Costa Andrade dezembro 15, 2011 às 10:47 pm #

    João, tinha visto o filme e deixado soltas e caldas (porém atuantes) algumas hipóteses de leituras em meu espíriro, até ler seu texto, que me fez enfeixá-las: que tal pensar que o filme é composto, de fato, de duas partes, sendo a entrada no café uma espécie de divisor diegético, e cada parte é, por sua vez, verdade e mentira? A primeira parte (o encontro de dois desconhecidos) seria verdadeira, enquanto a segunda, falsa. A mesma parte seria falsa, enquanto a sefunda, verdadeira? Sabe aquela figura preta e brancam na qual ninguém consegue distinguir quem entra em quem, se o preto e se o branco? Dizem que é o símbolo do infinito… Quem sabe pudéssemos pensar o filme como a encenação desse infinito, dentro qual a distinção entre cópia e original, verdade e mentira não tem mais nenhum sentido? Neste caso, o filme mangaria de nossas oposições comuns, e nos convidaria para um além dentro dos limites do simples fímico. Assisti-lo seria, então, um exercício filosófico de desmanche de expectativas tolas talhadas segundo a cansada lógica do senso comum… Por que uma coisa precisaria, diria o filme, ser pensada em termos de ou isto, ou aquilo? Seria um exercício filosófico de imagens contra a identidade. E isto não teria nada de irracional, mas demonstraria um esforço maior de razão, uma razão plástica, diria. Todavia, minha maior sensação, recodando-me do filme, é que a aproximação da mulher em relação ao autor estrangeiro foi arbitrária, meio confusa, o que dá um toque no sentido de uma leitura linear: eles já se conheciam, mesmo, e eram casados, como ficamos esclarecidos depois…

    Abrahão Costa Andrade, poeta.

  4. Abrahão Costa Andrade dezembro 15, 2011 às 10:53 pm #

    João, tinha visto o filme e deixado soltas e caladas (porém atuantes) algumas hipóteses de leituras em meu espíriro, até ler seu texto, que me fez enfeixá-las: que tal pensar que o filme é composto, de fato, de duas partes, sendo a entrada no café uma espécie de divisor diegético, e cada parte seria, por sua vez, verdade e mentira? A primeira parte (o encontro de dois desconhecidos) seria verdadeira, enquanto a segunda (o encontro de um casal), falsa. A mesma parte, depois, seria falsa, enquanto a segunda, verdadeira? Sabe aquela figura preta e branca na qual ninguém consegue distinguir quem entra em quem, se o preto ou se o branco? Dizem que é o símbolo do infinito… Quem sabe pudéssemos pensar o filme como a encenação desse infinito, dentro qual a distinção entre cópia e original, verdade e mentira não faz mais nenhum sentido? Neste caso, o filme mangaria de nossas oposições comuns, e nos convidaria para um alargamento da experiência dentro dos limites do simples fímico. Assisti-lo seria, então, um exercício filosófico de desmanche de expectativas tolas talhadas segundo a cansada lógica do senso comum… lógica tão afeita ao princípio de identidade. Por que uma coisa precisaria, diria o filme, ser pensada em termos de ou isto, ou aquilo? Seria um exercício filosófico de imagens contra o princípio de identidade. E isto não teria nada de irracional, mas demonstraria um esforço maior de razão, uma razão plástica, diria, capaz de esticar-se até o outro de si mesma.

    Todavia, minha maior sensação, recodando-me do filme, é que a aproximação da mulher em relação ao autor estrangeiro foi arbitrária, meio confusa talvez, o que dá um toque no sentido de uma leitura linear: eles já se conheciam, mesmo, e eram casados, como ficamos esclarecidos depois…

    Abrahão Costa Andrade, poeta.

  5. Abrahão Costa Andrade dezembro 15, 2011 às 10:55 pm #

    se for aceitar, por favor aceita a versão corrigida!

  6. Glória Gama junho 26, 2012 às 11:13 pm #

    Johninho,

    aconteceu uma coisa curiosa comigo. Eu comprei o dvd e quando o coloquei para assistir já munida de pipoca e uma expectativa gritante, percebi que o mesmo não tinha legendas. Obviamente a frustração foi imensa! Porém, ele me absorveu completamente, a ponto de eu vê-lo até o fim. Gostei muito, sobretudo agora que li seu artigo. Espero aduirir outra cópia em breve que não seja tão infiel:) Abraço de Glorinha.

  7. Glória Gama junho 26, 2012 às 11:14 pm #

    Corrigindo: adquirir

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