Criticando a crítica

9 dez

Cinema sobre cinema – isto que os teóricos chamam de metalinguagem fílmica – sempre existiu. Desde tempos remotos que o cinema fala de si mesmo e não é aqui que vou arrolar os títulos dos filmes metalinguísticos.

O que nunca foi comum é a representação, na tela, da figura do crítico cinematográfico. Neste momento em que escrevo, sem parar para pensar muito, só me ocorrem dois casos, ambos em filmes do italiano Ettore Scola. Em “Nós que nos amávamos tanto” (1974) um dos três protagonistas cujas vidas se entrelaçam, vai ter essa profissão, no caso, sempre maldosamente mostrada com certa ironia desdenhosa; e em “Splendor” (1989) – não sei se vocês lembram – o dono do cinema do título, tem um amigo pessoal que exerce a crítica cinematográfica, um tipo meio apalermado, despregado do real, vivendo de sonhos que nada têm a ver com o espectador comum, ou com a produção cinematográfica de sua época.

Ora, quem dedica um filme inteiro ao crítico cinematográfico é o pernambucano Kleber Mendonça Filho, ele mesmo, como se sabe, crítico (Jornal do Commércio, Recife), além de também cineasta, autor de vários curtas.

Correndo a programação do Canal Brasil desde maio e recentemente exibido no evento “Sessão Vitrine” da Funesc, entre 2 e 4 deste mês, o filme se chama justamente “Crítico”.

Lançado em 2008, trata-se de um longa-metragem documental em que cerca de setenta profissionais do cinema emitem opiniões sobre o fenômeno da crítica. Muitos são críticos falando de seu métier, mas, não todos: há cineastas, atores e outros, e as cenas não os relacionam por categorias, e sim, pelo fluir das conversas.

Michel Ciment, Walter Salles, Carlos Saura, Gus Van Sant, Luiz Zanin, Fernanda Torres, Samuel Jackson, João Moreira Salles, Sergio Bianchi, Eduardo Valente, Eduardo Coutinho, Tom Tykwer, Curtis Hanson, Carlos Reichenbach, Nelson Pereira dos Santos, Costa Gavras, Fernando Meirelles, Claudio Assis, Richard Linklater… A lista é grande e variada.

Consta que, entre Europa, Estados Unidos e Brasil, Kleber Mendonça passou cerca de oito anos aproveitando oportunidades e pacientemente registrando em câmera digital os depoimentos desses profissionais, que editou de modo pessoal, intercalando-os com curiosas imagens de arquivo que comentam os temas debatidos de modo engraçado e irônico.

Não posso falar pelo espectador em geral, mas, para quem está na seara do cinema, o resultado é divertido, instigante, perturbador, envolvente, e mesmo apaixonante.

A crítica seria uma atividade necessária ao sistema cinematográfico, um fator de estímulo, inspirador, criativo, esclarecedor, instrutivo e construtivo? Ou, ao contrário, seria um ofício pernicioso, equivocado, capcioso, prejudicial e deletério?

Evidentemente, as opiniões variam de boca a boca e o espectador do filme de Mendonça tem um quadro controverso de colocações que se completam ou se chocam.

Como talvez esperado, Mendonça, ele mesmo, se distancia da questão, mas, pensando bem, nem tanto. “Crítico” é, na verdade, aquele tipo de filme documental em que a voz do autor só aparece na edição. É aí que Mendonça se enuncia e se denuncia. Vejam bem: Mendonça poderia ter intercalado, ao longo de todo o filme, as opiniões favoráveis à crítica cinematográfica e as desfavoráveis, uma seguida à outra, de tal modo que, no final, dialeticamente, perdurasse o efeito de antítese, para o espectador elaborar a sua síntese.

Mas, o que fez Mendonça? De propósito, colocou as opiniões favoráveis à crítica cinematográfica, todas juntas, na parte inicial do filme, deixando para o meio e fim, os pitacos desfavoráveis. Como se sabe, em linguagem narrativa, a ordem dos fatores altera, sim, o produto, e aquilo que aparece no final apaga o que veio antes e adquire foro de verdade – o que popularmente se chama de “última palavra”. Ao terminar a projeção, o filme parece ter sido contra a crítica. Tivesse ele feito o contrário (desfavoráveis primeiro e favoráveis depois), o efeito seria o oposto.

Com esta ordem escolhida, Mendonça quis desvalorizar a crítica? Não. Apenas, como crítico que é, optou pelo peso da (auto)crítica. E, pensando bem, fez bem.

Uma quase epígrafe do filme é a frase de Oscar Wilde: “Toda crítica é uma autobiografia” (citada, com certo entusiasmo ingênuo pela atriz brasileira Fernanda Torres). Mas, quem foi que disse que essa condição se restringe à crítica? A arte, como estamos cansados de saber, também é, no fundo, autobiográfica, e “Crítico”, o filme, idem.

 

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4 Respostas to “Criticando a crítica”

  1. Waldemar José Solha dezembro 20, 2011 às 9:31 pm #

    Você veio ocupar um vazio enorme na Paraíba, João Batista. Este seu espaço vai se tornar obrigatório para todo cinéfilo que se preze. Textos excelentes, observações pertinentes e perspicazes, conhecimento enciclopédico sobre a matéria.

  2. Gilberto de Sousa Lucena dezembro 21, 2011 às 12:15 pm #

    Lamento não poder ter ido ao Fest-Aruanda para ver o documentário “Raul”. Fico na expectativa para o lançamento em circuito comercial.

    Belo artigo seu, João, acerca desse grande trabalho do Walter Carvalho.

    Um abraço.

    Gilberto Lucena

    • João Batista de Brito dezembro 21, 2011 às 8:42 pm #

      Que bom, Gilberto. Uma das coisas boas deste blog é estar em contato com os amigos como você. Você viu AS CANÇÕES de Eduardo Coutinho, em cartaz na cidade? Tenho a impressão de que vai ser meu próximo post…
      Abraço de João.

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