Uma longa viagem

14 dez

Uma verdadeira pérola exibida no Fest-Aruanda foi, com certeza, esse belo e tocante semi-documentário “Uma longa viagem” (2011) de Lúcia Murat. Para quem acompanha a carreira de Murat (“Que bom te ver viva”, 1989; “Brava gente brasileira”, 2000), uma agradável surpresa, um filme praticamente sem parentes dentro da cinematografia nacional.

 O argumento é simples, embora o tratamento, não. No final dos anos sessenta, a família Murat receia que o filho caçula (Heitor) tome o rumo da irmã mais velha, Lúcia (no caso, a própria cineasta) e se engaje na luta armada contra a ditadura, e assim, o envia a Londres, onde o rapaz mergulha de cabeça na psicodelia, e, alimentado pelas drogas e pelo clima paz e amor da época, resolve correr mundo.

Austrália, Índia, Afeganistão, Estados Unidos são roteiros de uma viagem psicodélica, da qual a família só tem notícia através de cartas. Agora, quarenta anos depois, Lúcia Murat resolve contar essa estória e o faz a partir de duas fontes: o confuso e incongruente depoimento do irmão, hoje um cinqüentão completamente sonado, e as cartas, estas “performatizadas” por um personagem que o representa em sua juventude (o ator Caio Blat).

O resultado poderia ter sido um relato familiar de interesse apenas privado. Mas que nada. O filme conquista o espectador logo cedo e daí a pouco já estamos todos ´metidos na vida alheia´. Na verdade, a grande força e também o grande charme do filme é trabalhar com o elemento da memória, fazendo confluir o pessoal e o histórico de uma forma inconsútil, e mais que isso, lírica.

Não esqueçamos que duas figuras típicas dos anos sessenta/setenta foram o guerrilheiro que abraçou a luta armada e o jovem que optou pelo “paz e amor” dos hippies, cada um arcando com suas respectivas conseqüências, tortura e morte num caso, piração, no outro. Ora, em carne e osso, Lúcia e Heitor são dois representantes ostensivos dessa época, e embora o filme seja carinhosamente dedicado a um terceiro irmão, Miguel, já falecido, é nessa antítese actancial que ele funciona.

Obviamente, Lúcia (personagem e cineasta ao mesmo tempo) dá vez e voz ao irmão, e de alguma maneira o documentário é sobre – como no famoso poema de Frost, “the road not taken”, (`o caminho não tomado´) – uma tentativa comovente e comovida de entender o outro, aquele que tomou “o outro caminho”.

Nesse particular, um excelente recurso está em todas as muitas cenas em que se mostra o que a cineasta não viu: o jovem Heitor no Exterior. Como rodar um filme de época cujo cenário seria o planeta? Sabiamente, a cineasta opta pela metonímia: o personagem sempre aparece fotografado em recorte ou moldura, em ambientes fechados, ou, quando abertos, sobreimpressos com imagens de arquivo – tudo isso ajudado pela edição e trilha sonora da época.

Por falar em trilha, o melhor lance sonoro de “Uma longa viagem” é a nada gratuita escolha do tema musical, o “Summertime” de Gershwin cantado – tinha que ser! – por Janes Joplin. E aqui peço ao leitor/espectador que revise a letra da canção (ofuscada pela interpretação implosiva de Joplin) e releia essa estória de um filhote de gaivota que, ainda no ninho e, por enquanto, sob a proteção materna e paterna, se prepara para voar. Ora, o jovem Heitor do filme já está “voando”, sem a proteção familiar, e a inevitável associação de sua situação com a do pássaro traz um enorme dividendo semântico ao filme.

Uma virtude a mais do filme está na fuga ao esquema melodramático da estória sobre um ente querido já falecido (do tipo “As pontes de Madison”): o Heitor maduro do filme está sonado mas está vivo e, mais, seu discurso desconexo provoca o riso no público (houve riso à beça na sessão em que estive) e não parece ter havido esforço da direção em castrar esse riso.

Risos à parte, pelo tema e pela situação diegética (reencontro entre irmãos), mas também pela delicadeza e pelo lirismo, “Uma longa viagem” me transportou saudosisticamente a dois clássicos do cinema europeu que me indago se Lúcia Murat conhece, a saber, “Dois destinos” de Valério Zurlini (1962) e “Três irmãos” (1981) de Francesco Rosi. Aliás, eu disse acima que o filme de Lúcia Murat não tem parentes no cinema nacional. Se tiver, o mais aproximado deve ser o “Santiago” (2007) de João Moreira Salles, apesar de, neste caso, as relações familiares não serem consanguineas.

Em tempo: premiado em Gramado, “Uma longa viagem” já deve estar para ser, ou já foi, selado em DVD.

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2 Respostas to “Uma longa viagem”

  1. Waldemar José Solha dezembro 28, 2011 às 12:45 pm #

    Ao ler seu comentário sobre o útlimo filme de Eduardo Coutinho, lembrei-me de uma sequência que me tocou muito, no Edifício Master, dele: aquela em que o solitário de um dos apartamentos espremidos do prédio se lembra de quando era garçon nos Estados Unidos e foi chamado ao palco pelo Frank Sinatra, pra cantar My Way com ele, por ter sido dito pelo brasileiro, num dos corredores do hotel em que o cantor de apresentava, que aquele música era essencialmente sua biografia. Caramba, quando o homem inventa de botar o disco na velha radiola e de cantar com ele, era ele chorando lá e eu, cá. As canções têm, com as anedotas, esse poder de síntese que consegue, com muito pouco, uma desencadear uma gargalhada, outra, um choro convulso. Vou ver o filme, João, por conta de sua análise.

  2. ségio de castro pinto janeiro 2, 2012 às 6:05 am #

    joca:
    soube que você telefonou. abraços, joca. próximo livro meu, queria que você fizesse o prefácio. excelente 2012 para todos nós.

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