O prazer da influência

2 jan

O crítico e teórico americano Harold Bloom gastou um mar de energia para elaborar sua tese de que todo poeta (e artista, por extensão) sofre de uma essencial e inescapável ´angústia da influência´. Segundo a tese, todo criador é necessariamente influenciado pelos seus antepassados artísticos e a consciência disso pode ser um entrave ao processo criativo, sempre deixando resquícios legíveis na obra do autor, pontos de tensão para a crítica discutir.

Aqui para nós, o que Bloom deixou de ver é que a influência também pode muito bem ser bem-vinda, favorável, benéfica, assumida, curtida, celebrada, em suma, prazerosa – por que não?

Com efeito, tem sido assim com um número enorme de criadores consagrados que, a certa altura de suas bem sucedidas carreiras, em determinadas ocasiões, especiais ou não, declararam o seu apego sem grilo a obras alheias.

Para ficarmos no âmbito exclusivo do cinema, aqui passo a mencionar um certo número de cineastas – vinte, para ser exato – que nunca tiveram pruridos em revelar o seu ´prazer da influência´, no caso, citando um filme alheio que fez sua cabeça e marcou o seu gosto pessoal.

Vejam que, à parte a mera curiosidade biográfica, esse filme alheio amado pode até ser tomado, a depender do caso, como – quem sabe? – uma chave para a caracterização do estilo do cineasta em questão.

Assim, passo a citar esses vinte cineastas e seus filmes preferidos. Sem outro critério para a ordem, o faço pela idade, os mais idosos em primeiro lugar, com, em cada caso, a indicação do ano de nascimento entre parênteses.

O primeiro da minha lista é Charles Chaplin (1889), que um dia revelou ao mundo a sua predileção incondicional por “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”, 1951), o filme de George Stevens que, livremente baseadoem Theodore Dreiser, contava a estória desse rapaz pobre que, por amor ou ambição, era levado a cometer homicídio, matando a colega de trabalho que engravidara, sendo condenado à pena de morte. O que esse melodrama sombrio tem a ver com a filmografia de Chaplin? Bem, foram ambos Chaplin e Stevens grandes românticos, mas, de todo jeito, fica a pergunta.

Pela ordem, o nosso segundo cineasta é King Vidor (1894), que escolheu “Intolerância” (D.W. Griffith, 1916) como o seu filme preferido. Para quem não lembra, Vidor foi um dos mais prolíferos diretores da Hollywood clássica, desde o cinema mudo até os anos cinquenta, autor, entre outros sucessos, do melodrama “Stella Dallas”, 1937, do western “Duelo ao sol”, 1946, e do épico “Guerra e paz”, 1956. O seu filme preferido é, como se sabe, um dos maiores épicos da história do cinema, contando simultaneamente quatro estórias sobre o tema do título, cada uma decorrida em épocas históricas diferentes.

Em seguida vem Alfred Hitchcock (1899) que, suponho, dispensa apresentações. Qual teria sido o filme preferido do ´mestre do suspense´? Bem, tinha que ser algo sombrio e apavorante, não? Sim, o filme é “Pode o amor mais que a morte” (Fritz Lang, 1921) que, com toda aquela atmosfera de terror do expressionismo alemão, narra a estória dessa moça desesperada que inutilmente negocia com ´a morte cansada´ (título original: “Der Müde Tod”), a salvação de seu amado. Nada de admirar para quem faria, anos depois, “Um corpo que cai” e outros.

É a vez de Luis Buñuel (1900), cujo xodó era um drama policial, cheio de violência e corrupção, sobre o poder e a queda de um gangster da Chicago dos anos vinte; com o título original de “Underworld” (´Submundo´), o filme foi distribuído no Brasil como “Paixão e sangue” (1927) – direção do mestre alemão, residente em Hollywood, Josef Von Sternberg, o mesmo de “O anjo azul”. Para quem conhece a obra de Buñuel, não creio que haja surpresa.

Surpresa talvez possa se dizer que há com o predileto de Billy Wilder (1906), nada menos que o revolucionário “Encouraçado Potemkin” (1925) do russo Sergei Eisenstein. Com efeito, fica difícil estabelecer relações entre o viés irônico, sarcástico, cômico de Wilder e a seriedade épica de Potemkin, mas, quem foi que disse que tais relações são obrigatórias?

O inglês Carol Reed (1906) – de “O terceiro homem”, lembram? – tinha como predileto o “Luzes da cidade” (1931) de Chaplin, e como veremos, não será o único a ter feito esta escolha.

O intelectivo e frio francês Robert Bresson (1907), que nada tem a ver com o gênero cômico, também preferia Chaplin, no caso, “Em busca do ouro” (1925). Mais surpresas.

Não sei a que altura da vida David Lean (1908) afirmou que seu filme preferido era “Intolerância”, mas, deve ter sido lá pelos anos sessenta, depois de ele mesmo já ter rodado suas “epopéias” do tipo “A ponte do rio Kwai”, “Lawrence da Arábia” e “Dr Jivago”. Bem, mesmo que tenha sido antes, não dá no mesmo?

Como Wilder, também Elia Kazan (1909) optava por “Encouraçado Potemkin” e, agora, as afinidades já parecem menos obscuras. Ou estou enganado? Só relembrando, Kazan dirigiu, entre outros: “Uma rua chamada pecado”, “Sindicato de ladrões, e “Vidas amargas”…

Que o autor do neo-realista “Ladrões de bicicleta” (1948), o italiano Vittorio De Sica (1911), tenha preferido um documentário não achei muito fora de propósito: o predileto de De Sica foi o belo e comovente “O homem de Aran” (Robert Flaherty, 1934), sobre a pesca do tubarão nas falésias da Irlanda, um clássico do gênero.

E Stanley Kubrick (1913), qual teria sido o filme preferido do diretor de “2001: uma odisséia no espaço”? É possível que os fãs de Kubrick se surpreendam em saber que era Fellini, não o grandiloquente de “Oito e meio”, mas aquele supostamente menor, o cronista da cidade pequena de “Os boas-vidas” (“I vittelloni, 1957). Não é curioso?

Como Reed, Orson Welles (1915) achava que o melhor filme a que tinha assistido em toda a sua vida era o “Luzes da cidade” de Chaplin… Sem comentários. Ou comentários em excesso. Deixo ao leitor…

O grande Sidney Lumet (1924), de “Doze homens e uma sentença” (1958), defende como o melhor filme de sua vida, o drama pós-guerra de William Wyler “Os melhores anos de nossas vidas” (“The best year of our lives”, 1946), aliás, título irônico para uma película que, de forma crua, denunciava os deletérios efeitos colaterais da Segunda Guerra nos lares americanos.

Para Milos Forman (1932) o melhor filme do mundo é o “Amarcord” de Fellini (1971), aliás, nisso endossando a lista dos dez mais da crítica internacional.

Já Sydney Pollack (1934) fica com o clássico “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), nisso endossando a preferência dos espectadores.

Quem também coincide com a lista da crítica internacional é o italiano Bernardo Bertolucci (1941), que acha que não há filme melhor que “A regra do jogo” (1939), a comédia-farsa de Jean Renoir sobre os bastidores domésticos da aristocracia francesa, um avatar do chamado ´cinema de arte europeu´.

Creio que sem surpresas para ninguém, Martin Scorsese (1942) escolhe Kubrick e o seu “Barry Lyndon” (1975) – um caso por demais óbvio de identificação.

Steven Spielberg (1946) pensa que “Lawrence da Arábia” (David Lean, 1962) seria o suprassumo do cinema. Previsivelmente?

E Jim Jarmusch (1953) se reporta aos franceses anos trinta para escolher esta pequena e obscura obra prima do precocemente falecido Jean Vigo “L´Atalante” (1934), um  filme desconhecido do grande público, daquele tipo que ou você viu em cineclube, ou nunca viu – enfim, xodó não apenas de Jarmusch, mas de muitos cinéfilos, críticos e cineastas.

Por fim, qual seria o “prazer da influência” de Quentin Tarantino (1963)? Pensaram? Chutaram? Acertaram? O diretor é o italiano Sérgio Leone e o filme é “The Good, the Bad and the Ugly” (“Três homens em conflito”, 1966), o terceiro faroeste-spaghetti de uma série que deslancharia todo um gênero.

Aí está uma relação de “influências prazerosas” para o leitor comparar e considerar.

Em direção diametralmente oposta a Harold Bloom, o argentino Jorge Luis Borges exagerava no conceito de “prazer da influência” propugnando que o escritor (o que podemos entender como: o artista) escolhe a sua influência e inventa, por conta própria, os laços afins. Se assim é, vale a pena o exercício de, em cada caso acima, investigar onde o cineasta influenciado já se fazia presente no influenciador, e vice-versa.

O que já haveria de Kubrick em “Os boas-vidas”? O que há de “Encouraçado Potemkin”em Billy Wilder? Boas perguntas que Borges maliciosamente nos instila, sem, contudo, ajudar nas respostas.

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10 Respostas to “O prazer da influência”

  1. Jefferson janeiro 4, 2012 às 10:47 pm #

    Um beleza esse post João! Peguei na semana passada uma edição remasterizada do favorito do Luis Buñuel. Acho que vou ter que furar a fila imediatamente depois do que eu li por aqui =) .
    @br@ços!!!

  2. Lusinete janeiro 8, 2012 às 12:16 pm #

    Gostei demais disso: “O prazer da influência”. Valeu, João!

    Lusinete

    • João Batista de Brito janeiro 8, 2012 às 6:02 pm #

      Acho, Lusinete, que essa estória de ser influenciado e gostar também ocorre na vida, com gente comum, nas relações pessoais. Eu mesmo tenho influências de amigos e amigas que adoro, digo, não necessariamente artísticas, mas humanas….
      Beijo de João.

  3. Glória Gama janeiro 8, 2012 às 4:49 pm #

    Johninho, fiquei toda arrepiada quando li sobre a preferência de Tarantino. Eu já suspeitava porque todas as vezes em que vi “Três Homens em Conflito”, uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi justamente o uso da música, coisa que Tarantino faz com muita propriedade e estilo. No caso de Leone, com Ennio Morricone, e no caso de Tarantino, vários outros. Maravilha! É muito bom quando nossas suspeitas se confirmam. Gostei muito do post também porque contraria um de meus teóricos/críticos menos favoritos: Harold Bloom. Adorei!

    • João Batista de Brito janeiro 8, 2012 às 6:05 pm #

      Glorinha, sobre a influência prazerosa de Tarantino, confesso que lembrei de você e calculei que você ia gostar. Beijos…

  4. Ramon Arruda janeiro 10, 2012 às 6:04 pm #

    João, teria tantas coisas a comentar, se tivesse tempo e espaço!
    A angústia da influência de Bloom é necessariamente negativa e opressora ao impulso criativo? Segundo ele, não há como fugir dela, há?
    Você, que reflete sobre os intercâmbios entre Literatura e Cinema, conseguiria identificar alguma diferença entre o tipo de prazer/angústia da influência entre os autores de cada uma dessas linguagens? O passado da literatura é bem mais extenso, não? Por outro lado, como você aponta, a influência pode ser cruzada entre as diversas artes. Será que se consegue uma lista de livros preferidos dos vinte cineastas citados?
    No parágrafo referente à predileção de Milos Forman, você menciona a escolha de “Amarcord” como coincidente com a da crítica internacional. Não seria “8 e 1/2” o preferido da crítica?
    João, você bem que poderia transformar cada parágrafo desse em um pequeno ensaio em que tentasse identificar parecenças, aproximações e divergências entre a obra ou alguma obra do cineasta e o filme escolhido como favorito. Daria um livro bem divertido? Acho que sim, se fosse escrito por você. Como leitor do blogue, adoraria que você fizesse uma série de postagens com esse mote.
    Termino com uma confissão de influência: você é meu crítico de cinema preferido.
    Grande abraço!

    • João Batista de Brito janeiro 11, 2012 às 3:08 pm #

      Ramon, amigo, influência é sempre negativa… mas, isto para Bloom, e creio que, para ele, a única forma de superá-la seria ficando maior que o influenciador, o que, também segundo ele, é improvável de acontecer.
      Sim, sendo a literatura antiga, o problema da influência (angustiante ou prazerosa) é maior que no cinema, sem dúvidas.
      Concordo que seria interessante saber que livros os 20 cineastas aqui tratados preferem – é o caso de arregaçar as mangas e pesquisar…
      Puxa vida, você me pede um ensaio para cada parágrafo deste texto? Homem, que é isso? Quer matar o velho?
      Grato pela declaração de preferência.
      Em tempo: você está certo: me equivoquei em relação a Amarcord. Acho que fui mal “influenciado” por aquela matéria sobre O Cânone Pessoense de Cinema, em que este filme ficou lá pelo topo.
      Abraço forte de João.

  5. Moira Marques Portugal novembro 14, 2012 às 3:31 pm #

    Vim recentemente a acompanhar seu blog e me vejo obrigada a falar: Interessantíssimo artigo que vem a confirmar na arte aquela tão célebre afirmação de Lavoisier de que nada se cria tudo se transforma… E portanto se cria, não? “O Prazer da influência”…
    A propósito, interessante seria saber qual o filme predileto de Ingmar Bergman, será algum de Tarkoviski? Como “O Espelho” por exemplo?

    • João Batista de Brito novembro 14, 2012 às 6:26 pm #

      Prezada Moira, procurei o favorito de Bergman, mas não consegui… A sua sugestão faz sentido. João.

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