Tudo sobre Holly

4 jan

Não. Não se trata de Hollywood. É Holly mesmo, aquela mocinha magricela, de sobrenome Golightly, que veio do Interior para Nova Iorque, fazer a vida fácil, e que tem o costume de comer sanduíche nas calçadas da joalharia Tiffany´s, de madrugadinha. Aquela que nasceu da cabeça perversa de Truman Capote e que, das páginas de seu romance, pulou para as telas do cinema, nas poucas carnes de Audrey Hepburn. Ok, tudo bem, termina sendo Hollywood, sim.

Quem conta tudo sobre Holly Golightly é o jornalista e crítico americano Sam Wasson, no seu divertido livro “Quinta Avenida, cinco da manhã” (Zahar, 2011). E isto, desde o surgimento de Holly nas páginas de Capote, até o seu ressurgimento no filme de Blake Edwards, “Bonequinha de luxo” (“Breakfast at Tiffany´s”, 1961).

Mas, se o livro de Wasson é um duplo making of do livro e do filme, não fica nisso. Pesquisando em arquivos e entrevistando envolvidos, o autor reconstitui todo o contexto da escritura de um e da produção do outro, e, inevitavelmente, pinta um quadro do que foi o cinema americano entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta. Sem contar que ilustra a contento, os bem ou mal resolvidos conflitos entre literatura e cinema – um bom estudo de caso para o que se chama de adaptação.

Dos mais centrais aos mais periféricos, Wasson abarca praticamente todos os envolvidos na concepção de “Bonequinha”, para cada um reservando capítulos biográficos que explicam suas relações com a feitura do livro e do filme.

Os centrais são, naturalmente, Truman Capote, Blake Edwards e Audrey Hepburn. E o leitor fica sabendo: que mulheres teriam sido as inspiradoras da protagonista Holly, ganhando de sobejo a pintura do mundo society da Nova Iorque da época; o quanto Edwards, então um diretor sem grande projeção, se empenhou em fazer uma obra que se equilibrasse entre o código de censura de Hollywood e a libertinagem do romance original; como Audrey, ao ser convidada, recusou um papel que supostamente mancharia sua imagem, e o quanto a equipe pelejou para convencê-la.

Uma vez que se trata em parte de adaptação, uma figura também chave é o roteirista George Axelrod, que lutou – e venceu – para transformar o baixo astral literário de Capote em uma estória de amor, eliminando o homossexualismo do amiguinho de Holly e, disfarçando, tanto quanto possível as suas respectivas profissões: ela, uma prostituta de luxo, ele um garoto de programa também de luxo.

E há as figuras que começaram periféricas e terminaram centrais, caso de Henri Mancini, que foi contratado pelos produtores sem convicção, e que terminou levando, junto com Johnny Mercer, os únicos Oscar do filme. Acompanhar essa dupla na confecção da melodia e depois da canção, que Mercer chamou de “Blue River” e Mancini mudou para “Moon River”.é emocionante – principalmente se você, como eu, ainda a tem na cabeça.

E há os centrais que terminaram periféricos, caso da toda poderosa figurinista Edith Head (35 indicações ao Oscar!), que perdeu terreno para o estilista francês Givenchy, o escolhido para vestir a Sra Hepburn com o seu “preto básico”, ficando a magoada Head com os figurinos secundários.

Por sugestão do próprio Capote, o filme foi todo pensado para Marilyn Monroe e só não a teve no elenco por motivos de força maior. Pensou-seem Debbie Reynolds, Doris Day, Elizabeth Taylor e Sandra Dee, as musas da época, e, por sorte, houve entraves para cada caso.

O ator George Peppard foi imposto pelos estúdios ao diretor Blake Edwards que, depois de assistir a um de seus filmes, literalmente ajoelhou-se na calçada do cinema, perante os produtores e implorou que não o contratassem… e perdeu. Além de mal elencado, Peppard se revelou um megalomaníaco que massacrou toda a equipe, inclusive a suave e delicada Audrey. Como, no livro adaptado, o seu personagem é o narrador da estória, ele botou na cabeça que o filme fora concebido para ele. Nada a ver.

Outro problema para a produção foi o marido de Audrey, o ciumento e intolerável Mel Ferrer, se revelando um frustrado com o sucesso da esposa, tanto é que se separariam logo depois do estrondoso sucesso do filme.

Mas, claro, o livro transcende os mexericos e o show business em vários aspectos, o melhor deles sendo mesmo o sociológico. O seu melhor argumento é demonstrar como “Bonequinha de luxo”, o filme, funcionou como um termômetro para as mudanças que estavam por vir, na década que começava – mudanças de toda ordem, sobretudo as comportamentais e as estéticas.

Com o código Hays de censura em crise, os roteiristas já não precisavam fazer os contorcionismos narrativos que o mesmo George Axelrod fora obrigado a fazer cinco anos atrás, em “O pecado mora ao lado” (1955), para por na tela uma peça onde o adultério era um fato consumado e a consumir. Aliás, mulheres diferentes do padrão ´dona de casa´ já estavam nas telas do momento, por exemplo, a Elizabeth Taylor de “Disque butterfield8”e a Shirley MacLaine de “Se meu apartamento falasse”, ambos de 1960.

Apesar da assunção do gênero romântico, a protagonista Holly Golightly aparecia como uma representação da nova mulher emergente, até certo ponto livre, dona de seus caminhos. A mera aceitação do público da princesinha Audrey (lembrar de “A princesa e o plebeu”, 1953, e “Sabrina”, 1955) no papel de uma prostituta já era o sintoma de muitas mudanças. Tanto assim que o subtítulo do livro de Wasson é: ´Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna´.

Ao mesmo tempo criativo e informativo, o livro de Wasson está dividido em oito capítulos cujos nomes são verbos que expressam gestos ou atitudes humanas (´querer´, ´ver´, etc), o que é seguido de um roteiro da Nova Iorque de Holly Golightly´, com direito a um precioso mapa da cidade. Não poderia faltar uma seção iconográfica onde se vê uma foto histórica de Audrey Hepburn obedecendo às ordens da prefeitura para manter a cidade limpa, depositando o papel de sanduíche (o que Holly comeu na frente da Tiffany´s?) numa lata de lixo. Só faltou um detalhe, ao menos na edição brasileira: o cartaz original do filme, a cuja confecção, afinal de contas, se dedica um capítulo inteiro. Nada é perfeito.

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Uma resposta to “Tudo sobre Holly”

  1. Vitória Lima janeiro 5, 2012 às 12:29 am #

    Instigante!
    Adoro esse filme, adoro Audrey, adorei saber desses detalhes sobre o background do filme.
    Vic

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