Tom segundo Nelson e Dora

24 jan

Ao escrever sobre o filme de Walter Carvalho “Raul: o início, o fim e o meio” fiz o levantamento dos filmes brasileiros recentes que tratam de música – cerca de 16 – e aventei a hipótese de estarmos, sem o saber, criando um gênero. (Conferir neste blog: “Raul sem fim”).

Pois, mais um para a lista é este magnífico documentário “A música segundo Tom Jobim” (Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, 2012), no momento em cartaz na cidade.

Só que, em relação à lista citada, este traz uma novidade: não gasta fotograma com biografia e o filme inteiro é música, exclusivamente música. Sabiamente, os autores decidiram que Antônio Carlos Jobim já é suficientemente conhecido do público brasileiro, para ser biografado, e que as suas composições falariam por si mesmas. O argumento, epígrafe do filme, é do próprio Jobim: “A linguagem musical me basta”.

Se pluralizarmos o pronome pessoal da frase, é justamente o que acontece em “A música segundo Tom Jobim” – uma longa e deliciosa cadeia de performances musicais, que se sucedem, sem serem interrompidas por explicações, para encanto de espectador. Tanto é que o filme, com uma hora e meia de duração, soa bem mais curto.

Quem quiser saber quando nasceu Jobim, ou onde estudou, que vá às bibliotecas ou internet: o filme não tem uma única palavra falada, só cantada, e as informações epocais, quando as há, aparecem rapidamente nos cartazes dos shows, capas de discos, ou trechos de jornais ou revistas da época.

O que há de mais próximo ao biográfico é, na verdade, contextual: na abertura do filme, as imagens de arquivo do Rio de Janeiro dos anos 50/60, cidade, como se sabe, amada e decantada por Jobim.

Na disposição dos números musicais, a linha seguida é mais estética que propriamente temporal. Por exemplo: da execução de uma canção por um cantor brasileiro, passa-se a outras por estrangeiros, ou vice-versa, sem importar o tempo real que porventura teria dividido tais interpretações.

E o espectador vai ouvir/ver quase toda a discografia de Jobim, em línguas e vozes as mais variadas – de Agostinho dos Santos a Ella Fitzgerald, de Nara Leão a Sarah Vaughan, de Elis Regina a Frank Sinatra, etc… Sem falar em interpretações francesas, italianas, alemãs, japonesas, de suas canções.

Certamente conseguidas com tenacidade extrema, as imagens de arquivo são relíquias preciosas que dão ao documentário uma dimensão histórica. A voz rouca de Maysa interpretando “Por causa de você” em closes dramáticos, ou a dicção fina de Judy Garland cantando “Insensatez” são dois exemplos entre muitos.

Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim (neta do compositor) assinam a direção, no caso presente, um conceito que merece comentário. Uma vez que não há entrevistas com os envolvidos e, menos ainda, encenações, o conceito de direção, sem apagar-se, aqui se dilui em pelos menos três atividades distintas, a saber, pesquisa, roteirização e montagem. Claro, para o resultado sair a contento, é preciso que os diretores tenham tido o filme na cabeça, antes ou durante a realização, principalmente o seu ritmo, digo, o ritmo cinematográfico, que abrange plástica e som, composição e continuidade. E não há dúvidas de que a dupla o tinha – o filme é uma delícia de se acompanhar e, como na música de Jobim, não há quebras ou sopapos, salvo os propositais.

Para não interromper esse ritmo cinematográfico, e no mesmo sentido de descartar os códigos verbi-visuais, os nomes dos intérpretes não aparecem quando das execuções, ficando tudo para o final, onde os créditos vêm ladeados por fotogramas das respectivas execuções musicais.

Em outra matéria sobre o mesmo assunto – i.é, filmes brasileiros recentes tratando de música – tive o cuidado de lembrar uma contradição curiosa da cultura e arte brasileiras do século XX– um país musical como o Brasil nunca foi bom em realizar “musicais cinematográficos”. O mais próximo que já estivemos disso foi com as Chanchadas dos anos 40/50, onde, de todo jeito, os números musicais não possuíam organicidade suficiente para determinar o gênero. Pois nessa mesma matéria, chamo a atenção para o fato de o Cinema Novo Brasileiro ter sido meio anti-musical, e, sem coincidência, cito o filme “Vidas Secas” (1963) como um protótipo disso, onde o gemido atonal do carro de boi simbolizava, na minha visão e audição, essa relativa anti-musicalidade do Cinema Novo, ironicamente um movimento coetâneo à Bossa Nova.

Ora, o que temos agora? Uma volta de 180 graus – o mesmo autor de “Vidas Secas” comete o mais musical de todos os recentes “filmes brasileiros sobre música”.

Já não era sem tempo…

Anúncios

6 Respostas to “Tom segundo Nelson e Dora”

  1. Waldemar José Solha janeiro 26, 2012 às 1:16 pm #

    Beleza de texto, João. Fechou com chave de ouro ao colocar Nelson Pereira entre o som do carro de boi de Vidas Secas e este documentário – só música – também dele.

    • João Batista de Brito janeiro 27, 2012 às 12:21 pm #

      Obrigado, Solha.
      Em outro comentário de dias atrás, você me falou do filme argentino “Um conto chinês”; pois acabei de ver: adorei e escrevi sobre; o artigo (´Uma vaca que caiu do céu´ é o título provisório) será brevemente postado no blog; aguarde. Abraço amigo de João

  2. Margerete Almeida janeiro 26, 2012 às 2:34 pm #

    Adorei o texto querido. Estava receosa do filme ser chato e biográfico demais, agora que é só canção e imagem, vou correndo assistir. Também andei pensando sobre a quantidade de filmes sobre música/músicos recentemente. É um saudossismo musical?

    • João Batista de Brito janeiro 26, 2012 às 11:57 pm #

      Margarete, é possível que o filme emocione mais o pessoal da minha geração, do que o da sua. Não sei. Sei que meus olhos se umedeceram ao ver/ouvir Maysa dramatizando “Por causa de você”. Fui jogado pra trás, nos anos sessenta… Beijos de João.

      • Vitória Lima janeiro 28, 2012 às 12:26 am #

        Propositadamente, João, não li seu comentário antes de ver o filme. Acabo de chegar do cinema e, entre fungados e olhos marejados, cheguei à conclusão que Antonio Brasileiro é o compositor mais universal que temos. Como tal, deveria ser reconhecido como patrimônio imaterial da humanidade.
        Adorei ouvir todas aquelas músicas que pontuaram a minha vida, desde a adolescência.
        Beijos emocionados…Vic

  3. edmilson jose fevereiro 3, 2012 às 3:46 am #

    Olá. João, bonito seu texto sobre o filme “a música segundo Tom Jobim.” Não assisti ao filme ainda mais esta semana mesmo vou cuidar disso. Agora, que encontrei o seu blog, vou beber das suas informações para me educar e me intruir na arte do cinema. Na próxima vez, postarei minhas impressões sobre seus textos. Nesse momento, vou correndo ver o Tom Jobim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: