Camarada Linduarte

31 jan

A estória é verídica, mas, de tão absurda, parece não sê-lo. É até possível imaginar, para ela, o roteiro de um curta-metragem de ficção.

Em 1963, o jovem cineasta Linduarte Noronha viaja ao Rio de Janeiro, com a missão acadêmica de adquirir, para a Universidade Federal da Paraíba, onde é professor, uma câmera cinematográfica.

Procura daqui, procura dali, Linduarte encontra uma pechincha: em bom estado e por preço módico, uma câmera33 mm, de marca Kohbac, e origem russa.

Além da sensação de missão cumprida, Linduarte volta a João Pessoa cheio de devaneios.

A origem soviética da câmera o remete, por tabela, ao cinema russo, que tanto ama. Não apenas o sagrado Sergei Eisenstein, mas, sobretudo, o instigante Dziga Vertov de “Um homem com uma câmera” filme que Linduarte assistira com entusiasmo em algum cineclube de sua juventude.

Aos trinta e três anos, Linduarte já era, então, uma figura nacionalmente conhecida, com o seu fundamental “Aruanda” (1960), documentário antropológico que dera o que falar junto à crítica, elogiado por todos, até pelo decisivo Glauber Rocha.

A aquisição dessa câmera pela instituição onde lecionava trazia expectativas de novos e promissores projetos. Como diria Glauber, depois de uma câmera na mão, bastava uma idéia na cabeça.

Ora, não deu tempo de Linduarte sequer assentar as idéias e muito menos de acionar a tão bem-vinda Kohbac. Entre a chegada da câmera e o primeiro vislumbre de projeto, aconteceu a revolução militar, que implantou a ditadura no país.

Na noite de 31 de março de 1964 Linduarte deitou-se apolítico – como sempre o foi – e, na manhã seguinte, acordou subversivo, e assim permaneceria por muito tempo. Havia comprado uma câmera soviética e, pela lógica dos militares e simpatizantes da ditadura, só podia ter lá as suas ligações escusas com Moscou, certamente um “camarada” disfarçado por trás de seu cachimbo e sua fala mansa.

Acusado, Linduarte é obrigado a responder a inquéritos e perde o emprego de professor universitário, que só recuperaria quinze anos depois, em 1979.

Relegada, a câmera russa iria para os porões da universidade. Durante todo o período da ditadura, nunca foi tocada, pois seguramente tinha-se medo de que as imagens a sair dela fossem inevitável e perigosamente comunistas.

Passada a ditadura, lá permaneceria, inativa e completamente esquecida. E ainda hoje lá está, para quem quiser ver e tocar. É até possível imaginar a cena: tantos anos depois, o nosso Linduarte sendo posto diante dela, pasmo, trêmulo, confuso, relembrando uma estória que seria cômica, se não fosse trágica.

A gente imagina a cena, mas o jovem cineasta Lúcio Vilar não imaginou: fez, e o que fez não foi ficção. Exibido no programa “Zoom” da TV Cultura, o seu documentário “Kohbac, a maldição da câmera vermelha”, reconstitui a estória toda de modo objetivo, mas nem por isso menos criativo.

Depois de tomar longo depoimento de Linduarte sobre o incidente todo, inserindo documentos e imagens da época que confirmavam o caso, Vilar comete um expediente nevrálgico: conduz Linduarte à famigerada câmera Kohbac e, com a sua própria, filma, quase meio século depois, o reencontro.

Para relembrar o filme de Vertov, acima citado, era “um homem com uma câmera”, mas em que circunstância, meu Deus! Todo um cinema que poderia ter sido e que não foi…

Sim, não tenham dúvidas: ver a perplexidade nos olhos cansados e mãos trêmulas de Linduarte Noronha, posto de surpresa perante esse objeto que virou um símbolo das truculências de um regime malsão, ver isso documentado é bem melhor do que ficção.

Está, portanto, em circulação mais uma realização audio-visual que vem somar-se à sempre inquietante e inovadora produção paraibana de cinema – produção, aliás, inaugurada por Linduarte que, da palavra “camarada” só detém mesmo a acepção bem brasileira de ´amigo´.

 

Em tempo: publicada alhures, quando do lançamento do curta “Kohback: a maldição da câmera vermelha”, esta matéria foi aqui reproduzida em homenagem ao nosso querido e saudoso Linduarte Noronha (1930-2012).

Anúncios

6 Respostas to “Camarada Linduarte”

  1. Silvia Alexander janeiro 31, 2012 às 3:49 pm #

    Fantástica leitura João, uma estória incrível. Fiquei interessada em ver essa curta metragem……Abraços

    • João Batista de Brito janeiro 31, 2012 às 6:10 pm #

      No caso, Sílvia, é entrar em contato com autor do documentário, Lúcio Vilar…
      Abraço de João.

  2. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva janeiro 31, 2012 às 7:45 pm #

    Prof. João Batista: depois de ler o seu pungente artigo sobre Linduarte Noronha,alguma coisa deslizou (e não foi do olho da câmara) e suavemente molhou-me o rosto. Primeiro, o Glauber Rocha, e agora, o Linduarte. Mais um do Cinema Novo, a nos deixar, abrindo-se uma enorme lacuna no cenário cultural brasileiro, quiçá, do mundo. A Paraíba e Pernambuco, hoje, amanheceram mais pobre. p.s. não tinha conhecimento do filme de Lúcio Vilar. Abraços.

  3. Ramon Limeira Cavalcanti de Arruda fevereiro 1, 2012 às 12:12 am #

    João, seu texto é emocionante, talvez tanto quanto o filme, a que ainda não assisti. Ao mesmo tempo que você escreve a história do cinema paraibano e brasileiro, você a faz.

  4. Eugênia de Castro fevereiro 1, 2012 às 9:04 pm #

    Profº, estou recebendo suas crônicas por meio de uma amiga da Paraiba. Considero as mais lindas que tenho lido, ultimamente.
    Obrigada.
    Sobre a repostagem a respeito da câmera maldita, não conhecia a história, mas é mais uma a colocar na minha coleção.
    Vou tentar adquirir o video. É muito importante para ser mostrada e comentada com os estudantes e profesosres.

  5. Gilete Bezerra fevereiro 8, 2012 às 2:31 am #

    Como sempre os textos escritos por João Batista são como as melhores “sobremesas”.Os leio saboreando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: