Casablanca setentão

8 fev

Neste ano de 2012 vão se festejar os setenta anos de “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942) e a imprensa do mundo deve dedicar páginas e páginas a este filme que é considerado uma unanimidade, sendo preferência, com igual entusiasmo, de público e crítica. Embora o filme só tenha estreado nos Estados Unidos em novembro de 1942 (no Brasil, em dezembro), aqui nos adiantamos aos festejos.

Pois é, e pensar que tudo começou por causa de Einstein, o físico alemão da lei da relatividade. Sim, lá pelos anos vinte, a ideia de que o tempo e o espaço seriam relativos – implicando que isto relativizava tudo mais, inclusive os sentimentos humanos – andou mexendo com os corações e mentes de muita gente boa.

Um deles foi o compositor Herman Hupfeld que resolveu compor uma canção que expressasse a sua indignação para com os supostos avanços da ciência, contrapondo a isso, a eternidade do amor romântico.

A letra da canção, ao menos a mais conhecida, começa dizendo “You must remember this: a kiss is still a kiss…” (´Você deve lembrar-se disso: que um beijo ainda é um beijo…), porém, o original de Hupfeld, em suas primeiras gravações, continha uma longa introdução falada em que se formulava o seu desagrado para com a lei da relatividade. Nela confessava-se que “we get a trifle weary with Mr. Einstein´s theory” (´nos cansa um pouco a teoria do Sr. Eisntein´) e o refrão era sobre o caráter secundário do tempo em relação ao que, na vida do ser humano, mais interessava: o amor entre um homem e uma mulher, e por isso, a canção se chamou “As time goes by” (´enquanto o tempo passa…´). Infelizmente, essa introdução declamada foi, mais tarde, dispensada das novas gravações do disco, mas eu pessoalmente, por sorte, ainda a conheci em um disco de vinil, que, por azar, não possuo mais.

O fato é que a canção fez sucesso nos anos trinta e um dos seus mais fervorosos apreciadores foi um jovem professor secundário, com pretensão de dramaturgo, Murray Burnett, que, por coincidência estava passeando na Europa quando estourou a Segunda Guerra Mundial.

Ora, uma certa noite, estava Murray num cassino de Marselha, sul da França, ouvindo um pianista negro tocar e cantar para uma platéia composta quase toda de refugiados e judeus. Não deu outra: ouvindo a música de Hupfeld, teve a idéia de redigir o esboço de uma peça que girasse em torno dessa situação dramática – refugiados num cassino – com, no meio de tudo, uma grande estória de amor acontecendo, conforme solicitado pela letra romântica da música de que ele mais gostava, “As time goes by”. A mudança do cenário de Marselha para a cidade de Casablanca veio depois.

De volta aos Estados Unidos, Murray, sem condição de encenar, vendeu a peça a empresários do cinema,em Nova Iorque, e sua cópia hibernaria nos arquivos da Warner durante mais de um ano, até ser casualmente encontrada, no começo de 1941, por um caça-talentos da referida companhia.

Com o título de “Everybody comes to Rick´s” (´todo mundo vem ao Rick´s’), a peça em si era fraca, mas a sua básica situação dramática podia render, principalmente naquele momento em que, por causa do ataque japonês a Pearl Harbor, os Estados Unidos se juntaram aos Aliados, e Hollywood, sempre atrás de lucros, se empenhava em produzir “emocionantes filmes de guerra”.

A tarefa de roteirizar a peça de Burnett foi dada a uma dupla experiente, os irmãos gêmeos Julius e Phillip Epstein, autores de roteiros de filmes que haviam dado certo, e mais tarde Howard Koch foi adicionado à dupla. A direção foi delegada ao igualmente experiente Michael Curtiz (de “A carga da brigada ligeira”, 1936, e “As aventuras de Robin Hood”, 1938), o diretor húngaro que nunca aprendeu inglês direito, mas aprendeu cinema e muito bem.

Enquanto o trio trabalhava no roteiro, a produção da Warner Brothers procurava o elenco. Para o papel da bela Ilsa Lund, a primeira contactada foi a atriz francesa Michelle Morgan, que cobrou muito alto, e, afinal, a sueca em começo de carreira, Ingrid Bergman, terminou “fazendo por menos”. Outra pensada, antes de Bergman, foi Hedy Lamarr, que estava sob contrato com a MGM. Para viver Rick, o amargo dono do “Café Américain”, ainda se cogitou de George Raft, e para ser o marido de Ilsa, Victor Laszlo, pensou-seem Ronald Reagan, mas, graças a Deus, a ideia não vingou. A depender do produtor Hal B. Wallis, o pianista do cassino teria sido uma mulher, Ella Fitzgerald.

 Em vista da pressa, as filmagens começaram sem que o roteiro estivesse concluído, e dizem que parte da angústia estampada nos rostos dos dois atores principais, deveu-se à falta de informação em relação aos paradeiros de seus respectivos personagens. No final da estória, Ilsa iria ficar com Victor Laszlo (Paul Henreid) ou com Rick Blaine (Humphrey Bogart)? A própria Ingrid Bergman contaria, mais tarde, que, durante as filmagens, perguntou várias vezes a Curtiz e a resposta foi sempre evasiva.

Esse roteiro frouxo, como se sabe, terminou levando o Oscar do ano, em 1943, e em parte é nele que vou me deter um pouco. (Houve mais dois Oscar, para filme e direção). Nele destaco o diálogo, uma pérola verbal que nos deu algumas das mais famosas falas do cinema, das quais não resisto em citar umas poucas, chamando a atenção do leitor/espectador para pelo menos três ou quatro de suas funções semióticas, especialmente no modo como: (1) introduzem o humor, esse elemento pouco destacado pelos comentadores, talvez por causa do peso dramático da estória; (2) ajudam nas caracterizações dos personagens, muitas vezes e curiosamente, sonegando ao invés de fornecendo informação diegética sobre eles; (3) intensificam o drama e incrementam o nível de expectativa do espectador; e (4) fazem muitas vezes as três coisas acima, ao mesmo tempo.

Assim, relembremos cenas de “Casablanca”.

No começo do filme, Ugarte (Peter Lorre) entrega a Rick, para que ele os guarde, os dois salvo-condutos que vão, mais tarde, ser determinantes no desenlace, ao mesmo tempo lhe perguntando se Rick não estava impressionado com o seu gesto. Deduzindo que os salvo-condutos haviam pertencido a um casal que, dias atrás, fora assassinado em um trem, Rick lhe responde que sim, que está “muito impressionado”. E aqui já fica dada ao espectador a atmosfera moral do ambiente.

 No dia seguinte a sua chegada a Casablanca, o casal Ilsa-Lazslo vai à delegacia, como ordenado pelo Major alemão Strasser (Conrad Veidt). Ao entrar lhes pergunta o delegado francês Renault (Claude Rains) se “dormiram bem?”, ao que Laszlo responde “sim, muito bem”. E o delegado: “estranho, ninguém dorme bem em Casablanca”. E eis que nos dão a atmosfera psicológica do lugar.

Quando Laszlo, na mesma delegacia, alega que gostaria de conversar com Ugarte, o Major Strasser, ao invés de lhe dar uma resposta direta, lhe diz que “o senhor vai achar a conversa um tanto e quanto unilateral”, do que já deduzimos que Ugarte fora liquidado pela polícia. E temos a atmosfera de terror na cidade, conforme um dos personagens já colocara: ´em Casablanca, a vida humana é barata ´.

“Esse barulho são os tanques alemães ou é meu coração batendo?” pergunta a jovem Ilsa, ainda em Paris, no dia da invasão nazista, nisso misturando dois dos eixos temáticos da estória: guerra e paixão. “Os alemães usavam cinza, você, azul”, relembra um Rick ressentido a Ilsa, no Cassino de Casablanca, aliás, operando a mesma mistura temática da fala anterior.

“Nós sempre teremos Paris”, justifica esse mesmo Rick, algum tempo depois, agora no aeroporto, na hora da partida do avião, após ter conhecido a verdadeira estória da relação Ilsa-Laszlo…

Aliás, se o desenlace preocupou os atores durante a filmagem, também preocupa os espectadores, mesmo nas revisitações. E por quê? Porque em Rick – e não apenas em seu gesto final – parece residir o mistério de tudo. Não esquecer que é a ele que é delegada (por Ilsa: “pense por nós dois”, diz ela) a árdua tarefa de resolver todo o imbroglio em que estão metidos. Note-se que tudo o que o espectador sabe de Rick é que ele é “um cara com um passado”, e o filme se fecha sem que esse passado se revele completamente… E é o próprio Rick quem alimenta esse mistério.

Quando, ainda nas primeiras cenas do filme, o delegado lhe pergunta por que ele viera parar em Casablanca, Rick responde que foi por causa da saúde, pois tinham lhe informado que a água do lugar era boa. “Água?” retruca o delegado – “mas nós estamos no deserto!”. “Então eu fui mal informado”, responde Rick, e neste momento, a direção corta para outro plano e outra cena, deixando a reticência como pista

Ao ser indagado pelo Major alemão sobre a sua nacionalidade, Rick responde com uma palavra só: “bêbado”; e ao ler o dossiê alemão de sua vida, que o Major lhe mostra, ele pergunta: “meus olhos são realmente castanhos?”

No entanto, desse passado misterioso de Rick, (digo, o anterior a Paris), sabe-se ao menos que ele lutou na Etiópia e na revolução espanhola, e isto do lado dos desfavorecidos. E mais: se, ao começar o filme, ele é o amargurado egoísta que não arrisca o pescoço por ninguém (“I stick my neck out for nobody” – ele repete a frase várias vezes), ao terminar, é o ser nobre que soube renunciar à amante, entregando-a a um líder da resistência que ele admira profundamente.

Em outras palavras, quando está mal do coração, Rick é um descrente ideológico, quando está bem, sua fé retorna. Ou seja, em sua persona complexa parecem confluir os dois pilares semânticos do filme, a saber, ideologia e amor. O primeiro, crucial no contexto histórico (ameaça nazista, etc), o segundo, crucial – segundo a letra da canção de Hupfeld – em qualquer contexto.

A propósito, sobre o emprego de “As time goes by” como a trilha sonora romântica de Rick e Ilsa, não pode deixar de ser dito que o compositor, arranjador e maestro Max Steiner, contratado para fazer o serviço, nunca acreditou que desse certo, nem que a música valesse alguma coisa. Só depois do sucesso do filme, esse grande compositor, que fez a trilha de centenas de produções hollywoodianas, foi forçado a admitir que estava – quem não sabe? – redondamente enganado.

Recentemente (em 2006) o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos escolheu, por votação, os dez melhores roteiros de filmes americanos de todos os tempos: não foi surpresa saber que “Casablanca” ganhou o primeiro lugar.

Por outro lado, não resisto em contar esta: nos anos oitenta (1986) fez-se um teste em Hollywood com “Casablanca”. Os autores do teste apagaram o título e os nomes dos personagens e distribuíram cópias do roteiro de “Casablanca” com toda uma gama de jovens roteiristas, executivos, produtores e demais envolvidos nas escolhas dos argumentos a filmar. Resultado: um terço identificou “Casablanca”, mas só um terço. O restante, portanto a maioria, achou que se tratava apenas – pasmem! – de uma estoriazinha datada, com diálogo demais e sexo de menos.

De minha parte, todas as vezes em que revejo “Casablanca” – o que faço com relativa assiduidade – não consigo me desvencilhar daquela sensação incômoda de que os filmes de hoje em dia, por bons que sejam, não chegam nem perto dos filmes de antigamente. Saudosismo? Provavelmente…

Em tempo: a letra que o pianista Sam canta, no filme, difere num pequeno detalhe da gravada em disco. Ao invés de dizer “a kiss is still a kiss”, ele diz: “a kiss is just a kiss” – o que, aliás, me rendeu o título de um livro: “Um beijo é só um beijo” (João Pessoa: Editora Manufatura, 2006).

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11 Respostas to “Casablanca setentão”

  1. Waldemar José Solha fevereiro 9, 2012 às 1:31 pm #

    Puta que o pariu, João. Você acaba de fazer o melhor comentário de um filme que já vi em toda a minha vida de apaixonado pelo cinema!

  2. Celso fevereiro 9, 2012 às 1:57 pm #

    Excelente texto sobre um clássico.
    Dissecou o septuagenário cujo coração ainda pulsa como adolescente.

  3. Ronaldo Monte fevereiro 9, 2012 às 2:15 pm #

    Você acabou de me sugerir um bom programa para o fim-de-semana: rever Casablanca.
    Concordo com Solha: “puta que o pariu”. Um grande abraço. Ronaldo Monte.

  4. Ro fevereiro 9, 2012 às 7:20 pm #

    Johnny, querido, que texto belo! Como sempre, você se superou. Saudade, amigo, de ti e de Casablanca! Bjo.

  5. Gilson Renato fevereiro 9, 2012 às 9:27 pm #

    Meu amigo, João. Que grande serviço vc nos presta com as suas (nossas) imagens amadas. A sua capacidade de ver e ouvir cada quadro melhora (ou lasca) cada filme pautado. O contexto de Casablanca e suas origens é uma peça a parte que só agora venho conhecer. Vc coloca luzes sobre Casablanca e o torna bem mais transparente. Verei agora com outros olhos. Que tenhas muita saúde e paz para ver e escrever sobre muistos filmes. A propósito, o que pensas sobre “O Artista”? Já escreveu sobre?

  6. CLEMENTE ROSAS RIBEIRO fevereiro 10, 2012 às 12:40 am #

    Concordo com todos. Vi, me deleitei, aprendi mais um pouco sobre as circunstâncias da feitura do filme. Tive sorte: foi a segunda vez que visitei o site. Agora vou fazê-lo com mais frequência.
    Clemente Rosas.

    • CLEMENTE ROSAS RIBEIRO fevereiro 10, 2012 às 12:41 am #

      OK. Publliquem!

  7. Zezita Matos fevereiro 10, 2012 às 11:37 pm #

    Meu caro João, domingo revi Casablanca, felizmente não tinha lido seu comentário. E agora depois da leitura bastante “historicisadora” que clarificou algumas dúvidas que tinha, me rendeu a vontade de ver outra vez. È muito bom e “vale a pena ver de novo”
    um abraço
    zezita matos

  8. Jotahah Assunção fevereiro 12, 2012 às 5:40 am #

    Se houvesse um Oscar para resenhas de Casablanca e o júri fosse sério e sem preconceitos, com certeza a estatueta correria o risco de acabar no Cine Bangüê!
    Texto do cacete! Bravo meu caro João!
    (José Antonio Assunção)

  9. Terezinha Augusto Pereira fevereiro 17, 2012 às 2:55 am #

    Meu caro João, brilhante e apaixonante seu texto sobra Casablanca. Vou revê-lo agora á luz do seu conhecimento, explorando áreas antes não identificadas. Concordo que desta vez você se superou.
    Um abraço saudoso
    Tereza

  10. Ramon Arruda março 16, 2012 às 2:40 am #

    Querido João, registro minha visita, minha leitura e minha reverência a seu texto, já justamente elogiado pelos que me antecederam na lista de comentários.

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